Deputado Carlos Jordy denuncia Gonet ao Senado por três crimes de responsabilidade
Brasília – O deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) apresentou nesta quarta-feira (2) ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), um pedido de impeachment do procurador-geral da República, Paulo Gonet, com a exigência adicional de que o chefe do Ministério Público Federal fique proibido de exercer funções públicas por até cinco anos.
A iniciativa ocorre um dia depois de Gonet defender, em parecer enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a anulação e o arquivamento da investigação sobre a relação do ministro Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O próprio PGR é citado no relatório da Polícia Federal que embasa a denúncia.
A peça apresentada por Jordy se apoia em mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro e reunidas no relatório que teve o sigilo levantado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo. Ao protocolar o pedido, o parlamentar acusa Gonet de três crimes de responsabilidade, que são agir de forma incompatível com a dignidade e o decoro do cargo, emitir parecer quando legalmente suspeito e ser omisso no cumprimento de suas atribuições.
O deputado argumenta que o PGR teria agido de forma incompatível com a dignidade e o decoro do cargo ao supostamente aceitar uma viagem a Londres custeada pelo grupo de Vorcaro. Segundo o relatório da PF, o benefício também teria sido oferecido a Pedro Gonet, filho do procurador-geral. A peça cita mensagens nas quais o advogado Ciro Soares pergunta se “Pedrinho filho do PG” poderia participar da viagem, ao que Vorcaro responde “óbvio”. Em outra conversa, ao ser consultado sobre as pessoas que viajariam com as despesas pagas pelo grupo, o empresário autoriza “Pedro e Ciro”.

O deputado sustenta ainda que Ciro funcionaria como um canal informal entre Vorcaro e Gonet. Em uma das mensagens, o advogado envia ao empresário uma foto ao lado do PGR e escreve “liga aqui” e “ele quer falar com você”, sendo registradas na sequência quatro chamadas entre Ciro e Vorcaro. A denúncia também menciona uma anotação feita por Vorcaro em outubro de 2025, na qual o empresário afirma ser importante “reforçar com Andrei e Paulo” diante da pressão da Polícia Federal e do Ministério Público. A identificação de “Paulo” como Gonet, no entanto, é tratada pela própria PF como hipótese.
O pedido de impeachment chega em meio a uma escalada institucional iniciada na terça-feira (1º), quando Gonet defendeu a nulidade do relatório da PF que detalha a relação entre Moraes e Vorcaro. Em manifestação enviada à Corte, o procurador-geral afirmou que o relator do caso, ministro André Mendonça, teria investigado Moraes de forma ilegal ao determinar o aprofundamento da apuração sobre o caso Master sem encaminhá-lo antes ao plenário do STF. Segundo a Agência Brasil, Gonet sustentou que o aprofundamento da investigação só poderia ocorrer após autorização do colegiado, e pediu que o documento seja analisado pelo plenário do Supremo.
A decisão de Gonet de pedir a anulação de uma investigação na qual ele próprio é citado gerou reação imediata da oposição. Jordy requer que a denúncia seja recebida pela Mesa do Senado, lida na sessão seguinte e submetida à análise de uma comissão especial, à qual caberia avaliar o pedido e realizar as diligências necessárias para confirmar ou afastar os indícios apresentados. Entre as medidas solicitadas estão a obtenção de documentos sobre a viagem a Londres, os registros migratórios de Gonet e do filho e as manifestações assinadas pelo PGR nos procedimentos relacionados ao Banco Master. O deputado também pede o depoimento de seis testemunhas, entre elas o advogado Ciro Soares, o próprio Vorcaro, o ex-ministro Fábio Faria e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
O desfecho do caso dependerá agora do rito no Senado, responsável por julgar autoridades com foro por prerrogativa de função, e do plenário do STF, que ainda precisa decidir se abre apuração formal sobre as relações reveladas no relatório da PF. A sobreposição de dois caminhos institucionais, o impeachment parlamentar e o julgamento no Supremo, coloca em tensão os limites de atuação do PGR e expõe a fragilidade de uma investigação em que o próprio chefe do Ministério Público figura entre os citados, o que tende a manter o caso no centro do debate político nas próximas semanas.
Val-André Mutran é repórter especial para o PortalVer-o-Fatoe está sediado em Brasília.














