Lula pede apuração de vazamentos; escândalo começa a derrubar aprovação do petista
Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu ao advogado Marco Aurélio de Carvalho que apure os vazamentos de informações da Polícia Federal (PF) no caso que envolve seu filho mais velho, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, durante reunião na noite de quarta-feira (19), no Palácio da Alvorada, em Brasília. O encontro ocorreu justamente quando a PF e o Supremo Tribunal Federal (STF) investigam o primogênito por suspeita de tráfico de influência e corrupção em negociações com a administração pública federal, reveladas na íntegra por veículos como Veja, Poder360 e O Globo ao longo da semana.
Uma fonte confirmou ao Ver-o-Fato que o presidente Lula ordenou que seja localizado quem são os agentes federais responsáveis pelo vazamentos das conversas comprometedoras entre a lobista Roberta Luchsinger e interlocutores, entre eles, o próprio filho do presidente da República, o Lulinha.
As reportagens têm o condão que “afundar” os números de aprovação do presidente que busca a reeleição. A corrupção é um dos temas de maior atenção e desconfiança em relação aos líderes da pesquisa: Lula (PT) e Flávio (PL).
A queixa dos vazamentos seletivos
Segundo Marco Aurélio de Carvalho, um advogado que lidera o Grupo Prerrogativa, uma associação de juristas, advogados e operadores do direito, criada em 2016, que se notabilizou pela posição crítica em relação à operação Lava Jato e à condução de investigações que, na visão do grupo, extrapolavam garantias processuais e direitos de defesa.
Carvalho defende Lulinha nos inquéritos, e segundo vozes a par do encontro, o tema “vazamento da PF” foi levado ao presidente “de forma lateral”, ao final do encontro. Ao ser perguntado se já havia pedido a investigação dos vazamentos, o advogado respondeu que sim, e Lula reagiu com um “então, está ótimo”. O advogado disse que nem ele nem o presidente querem que Lulinha seja tratado “como se estivesse acima da lei”, mas afirmou que também não considera correto que seja tratado “como se estivesse abaixo dela”. “Eu estou incomodado. Eu estou vendo um paralelismo”, declarou, ao comparar o caso com o que classificou como o pior momento da operação Lava Jato.
Diante da queixa, Lula afirmou que não pretende usar a PF para proteger aliados nem perseguir adversários. A orientação do presidente, segundo relatos, foi de que “quem fez cagada, que se explique; quem não fez, que se explique também, e seja absolvido”. Relatos dão conta de que o clima da reunião foi tranquilo e de que Lula se mostrou “absolutamente sereno”, com a maior parte da conversa dedicada à campanha do PT ao governo de São Paulo, já que o candidato Fernando Haddad (PT) também participou do encontro. Carvalho, além de advogado do filho do presidente, é coordenador da campanha de Lula em São Paulo o que lhe franqueia interlocução direta com o Palácio do Planalto.

A minuta de R$ 626 milhões
A queixa de Carvalho foi feita no mesmo dia em que o jornal O Globo revelou novos detalhes sobre a minuta de contrato enviada pela lobista Roberta Luchsinger a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.
O documento propunha a venda de 1,2 milhão de frascos de canabidiol ao Ministério da Saúde, em negócio avaliado em R$ 626 milhões, a ser fechado sem licitação e envolvendo 36 tipos de medicamentos à base da substância. O esquema é atribuído ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso pela PF sob suspeita de desviar recursos do instituto.
A minuta foi encontrada nos celulares de Luchsinger e Antunes, e a suspeita dos investigadores é de que a lobista, que “aparentemente” agia em nome de Lulinha, tenha sido contratada para viabilizar o negócio com a ajuda do filho do presidente.
Procurado pelo Poder360, o Ministério da Saúde afirmou que nunca houve possibilidade de compra de canabidiol pela pasta, porque o produto não está incorporado ao SUS, e que “nunca existiu, por parte desta gestão, nenhuma discussão para a sua oferta na rede pública de saúde”. A pasta não respondeu, porém, aos questionamentos sobre eventuais reuniões de Luchsinger com integrantes do ministério ou sobre a participação de Marcola nas tratativas. Foi esse cenário que levou Carvalho a classificar o negócio como inviável do ponto de vista jurídico. “É crime impossível. Eles querem vender e o governo pode comprar, mas é a mesma coisa que dizer que vou matar alguém com uma pistola d’água”, declarou.

O núcleo Musaranhos
As suspeitas têm origem na primeira fase da Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025, que desmantelou quadrilha acusada de desviar R$ 6 bilhões de 4 milhões de aposentados do INSS. O caso motivou a criação de uma CPMI no Congresso, que ouviu testemunha apontando Lulinha a serviço do Careca do INSS e em parceria com a lobista, mas foi encerrada sem avanços por falta de provas. No início do ano, o ministro André Mendonça, do STF, relator da operação, autorizou a quebra do sigilo telemático de Roberta, e os delegados tiveram acesso a mensagens e documentos armazenados em nuvem.
Da análise do material, os investigadores concluíram que Lulinha atuava como uma espécie de “agenciador oculto” de empresários com interesse em fechar negócios vultosos em Brasília, em núcleo integrado também por Fernando Bittar, amigo e antigo sócio do primogênito, e pelo próprio Marcola, na época em que era chefe de gabinete do presidente. “Os elementos probatórios obtidos no curso da investigação revelam a existência de um núcleo de atuação permanente e coordenada composto por Roberta Moreira Luchsinger, Fabio Luis Lula da Silva e Fernando Bittar, voltado à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”, concluíram os delegados.
Nas mensagens, a lobista se vangloriava da proximidade com Lula, a quem atribuía inclusive a oferta de um cargo no governo, recusado por ela em favor da “sociedade” com o filho do presidente. “Fefe (Fernando Bittar), Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds (todos) vão. A gente é mesmo irmão”, escreveu. Sobre o papel de Lulinha, resumiu em outra ocasião que “Fábio não faz nada. Ele só entra em campo qdo (quando) precisa. Tem q se preservar”. O nível de intimidade ficava claro também no grupo de WhatsApp “Musaranhos”, em que Lulinha e Bittar eram os “Musos” e Roberta, a “Musa”. “Convém indicar que Fabio Luis Lula da Silva aparece reiteradamente no material analisado como figura de elevada relevância mesmo que adote postura de menor exposição nas tratativas”, diz o relatório policial.

O caminho até o Ministério da Saúde
O inquérito detalha o esforço do grupo para convencer o governo a regulamentar o uso de canabidiol no país e, em seguida, fazer o Ministério da Saúde contratar empresa ligada a Camilo Antunes para fornecer os remédios, em negócio superior a R$ 1 bilhão. “Eu trabalho a política via Palácio. Eu sou boa de costura política”, afirmava Roberta, contratada como consultora do Careca. “Ontem eu disse para Fábio: Antonio tá pressionando e acho bom vc se mexer”, escreveu a lobista em 23 de janeiro de 2025, mensagem que, segundo a PF, indicaria que Lulinha já atuava nos bastidores havia algum tempo.
Coube a Marcola, chefe de gabinete de Lula, marcar a reunião entre a lobista e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta. “Pousei. Vou lá no Berge”, disse Roberta a Fábio em 6 de março de 2024, ironizado pelo primogênito com um “vai com tudo… fala que não fui pq vc não chamou”. Roberta não escondia o objetivo, ao escrever que “precisamos 100% do Berger”. No mesmo período, entre fevereiro e novembro de 2024, a lobista passou a pagar contas pessoais do auxiliar, em valores que somaram R$ 217.098, incluindo faturas de cartão de crédito, apólice de seguro, financiamento do carro e um par de brincos e um pingente de diamantes com que ele presenteou a esposa. Marcola, homem de confiança de Lula que tinha acesso direto ao gabinete presidencial e chegava a atender o celular do presidente, foi exonerado em julho passado, por ordem de Lula, e nega irregularidades, sustentando que as transações foram parte de um empréstimo posteriormente quitado, versão confirmada pela lobista. Ele não é investigado no caso.
Tentáculos na Dataprev e na Telebras
Segundo a PF, os “Musaranhos” tinham tentáculos em outras áreas do governo. Lulinha também é investigado por suspeitas de usar a influência de filho do presidente para abrir portas na Dataprev, autarquia que processa os dados dos aposentados do INSS. Em uma das mensagens anexadas ao inquérito, Roberta e um empresário ligado ao Careca combinavam pressionar Carlos Gabas, ex-ministro da Previdência do governo Dilma Rousseff, para facilitar a vida do grupo diante de travas tecnológicas impostas à autarquia. “Ta indo tudo ok na Dataprev ou preciso apertar Gabas?”, escreveu a lobista. Na Telebras, a cobiça gerou atritos entre velhos amigos, com Roberta e Fábio reclamando das articulações de Kalil Bittar, irmão de Fernando e também sócio de Lulinha, que estaria usando o nome do filho do presidente para tentar obter contrato milionário na estatal, então comandada por Frederico de Siqueira, hoje ministro das Comunicações. Lulinha chegou a orientar a lobista a desmentir a história.

Dinheiro vivo e a mudança para a Europa
O dinheiro é assunto recorrente nos diálogos recuperados. Roberta projetava ganhos de R$ 100 milhões apenas em 2024 e dava instruções ao motorista para entregas de dinheiro vivo, transportado em malas, a diferentes destinatários, incluindo Fernando Bittar.
Ao tratar de uma viagem à África, organizada e paga pela lobista ao custo de US$ 20 mil por cabeça, Lulinha deixou transparecer que era ela quem cuidava de suas finanças, ao perguntar “a gente tem grana pra bancar essas coisas?” e acrescentar “vc que cuida das minhas finanças”. As mensagens do filho do presidente haviam sido apagadas e só foram recuperadas graças a software especial usado pela PF, que suspeita que pagamentos recebidos pela RL Consultoria, empresa de Roberta, tivessem o primogênito como destinatário final.
Em uma das mensagens, o Careca do INSS se referia ao beneficiário como “o filho do Rapaz”. O relatório policial também destaca “interesse explícito na abertura de empresas e contas bancárias no exterior, inclusive em locais de difícil rastreamento ou cooperação internacional”.
Para o professor Vitor Schirato, da Universidade de São Paulo, o trio teria avançado os limites do lobby empresarial legítimo. “Se eu tenho um irmão que é ministro, chego para uma pessoa que tem interesse direto naquele ministério e falo ‘olha, se você me pagar 1 milhão de reais, eu convenço meu irmão a te dar uma decisão favorável’, isso vira tráfico de influência, o que é crime”, explicou o especialista em direito administrativo.
Os planos do grupo começaram a ruir com a deflagração da Operação Sem Desconto, quando o Careca foi preso e Roberta passou a ser investigada. Lulinha, então, se mudou para a Espanha, onde mora com a mulher e os filhos em Madri, em condomínio com aluguel estimado em 5 mil euros, cerca de R$ 30 mil. Mensagens de janeiro de 2025 já antecipavam a saída, com a lobista afirmando que precisava “tirar o Fábio e família do país até junho”. Lula, que não é indiciado no caso, tem dito que o filho jura inocência e que a PF possui total liberdade para prosseguir na investigação, com a ressalva de que “se tiver alguma coisa, vai pagar o preço”.
Carvalho nega que o cliente tenha relação com negócios envolvendo a administração pública brasileira e afirma que “o Fábio carrega o peso do sobrenome”, pois “se fosse qualquer outra pessoa, o inquérito já estaria arquivado”. Roberta, por sua vez, profetizou em uma das mensagens que “ou a gente vai ficar milionário ou vamos nos f… grande”, e a primeira hipótese, segundo a investigação, parece temporariamente fora de cogitação.
Reações, PGR e a disputa eleitoral
A defesa de Lulinha classifica as revelações como “vazamento criminoso” e aponta objetivo de influenciar o processo eleitoral, citando, em contraponto, investigações contra Flávio Bolsonaro por suposta compra de mansão, rachadinha e ligações com milícias.
A assessoria de Marcola também criticou o que chamou de vazamento seletivo, negou que o ex-assessor tenha encaminhado documentos sobre compras ou licitações ao Ministério da Saúde ou à Anvisa e reiterou que os valores citados foram integralmente quitados por se tratar de empréstimo pessoal. As defesas de Roberta e do Careca do INSS não quiseram se manifestar, e a defesa de Gustavo Gaspar, assessor do ex-ministro das Comunicações Jucelino Filho e interlocutor da lobista, disse que só se pronunciará após ter acesso aos autos.
No campo jurídico, a PGR pediu ao STF que os inquéritos que investigam Lulinha sejam remetidos à primeira instância, por não haver investigados com foro privilegiado, e chegou a apontar “imprecisão” em parte das conclusões da PF, segundo o Estadão. Carvalho defende o deslocamento e afirma que o inquérito “não tem nada a ver com o INSS”, enquanto analistas ouvidos pela Gazeta do Povo veem no pedido uma possível manobra para afastar o relator André Mendonça das apurações.
Em meio ao embate entre a defesa da legalidade e a pressão do calendário eleitoral, Lula busca demonstrar isenção diante de um caso que atinge a própria família, cobrando do filho explicações rápidas à PF e endossando a apuração dos vazamentos que o indignaram, mas o desgaste político tende a se ampliar na mesma proporção em que novos trechos do inquérito chegam ao conhecimento público, transformando o sobrenome do primogênito no principal campo de batalha de uma crise que mistura tráfico de influência, negócios milionários e a sucessão presidencial.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















