Diretor-Geral da Polícia Federal enfrenta questionamentos sobre autonomia e prioridades, enquanto defende atuação imparcial e técnica contra o crime organizado no Brasil
Brasília – A segunda reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, realizada nesta terça-feira (18), foi palco de um extenso e detalhado debate sobre as estratégias e desafios no combate a facções e milícias no Brasil. O ponto central da sessão foi a oitiva do Diretor-Geral da Polícia Federal (PF), Delegado Andrei Augusto Passos Rodrigues, que apresentou o panorama operacional da instituição, defendeu a independência de suas ações e clamou por mais recursos e aprimoramento legislativo para enfrentar a complexidade do crime organizado no país.
Numa sessão marcada por questionamentos aprofundados dos parlamentares sobre a atuação da PF, sua estrutura, financiamento e a percepção pública de seu desempenho, culminando em uma defesa veemente da autonomia institucional e da necessidade de união no enfrentamento da criminalidade.
A reunião foi aberta pelo presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT-ES), que inicialmente procedeu à aprovação do Requerimento nº 20, de autoria do senador Angelo Coronel, que também convidava o Andrei Augusto Passos Rodrigues, e aprovou a Ata da 1ª Reunião, realizada em 04 de novembro de 2025.
O presidente detalhou as normas que orientariam os trabalhos da CPI, incluindo a limitação de acesso às salas de reunião a senadores, assessores específicos e funcionários essenciais, bem como as regras para o uso da palavra durante as oitivas.
Em sua fala inicial, Contarato sublinhou que a CPI não teria “lado”, “preferência institucional” ou “compromisso com órgãos, governos ou figuras públicas”, mas sim com “a verdade, com os fatos e com o interesse da população brasileira”.
O presidente destacou a urgência de compreender a estrutura, financiamento e proteção do crime organizado. O senador mencionou o projeto de lei antifacção em tramitação na Câmara dos Deputados — aprovada na noite do mesmo dia —, elogiando a proposta de endurecimento de penas, que eleva a reclusão para o crime de domínio social estruturado de 20 a 40 anos, com impossibilidade de anistia, graça, indulto, fiança e livramento condicional, tornando-o um crime hediondo.
Contarato contrastou essa severidade com a realidade de penas para homicídio doloso, onde um condenado a nove anos poderia não cumprir nem um ano e oito meses de prisão, enfatizando a necessidade de enfrentar a segurança pública “com os pés no chão”.
Ele ressaltou a independência técnica e investigativa da CPI, que buscaria “evidências” e não “impulsos, pressões externas ou conveniências momentâneas”, prometendo investigar e expor falhas institucionais e o envolvimento de agentes públicos, políticos, autoridades e empresários, desvendando a “pirâmide” do crime organizado.
A fala do Diretor-Geral da Polícia Federal
O presidente reiterou que a Comissão insistiria na oitiva do Diretor de Inteligência da Polícia Federal e concedeu a palavra ao Diretor-Geral Andrei Augusto Passos Rodrigues para sua exposição.
O diretor-geral, expressou satisfação em participar da CPI e justificou a ausência do Diretor de Inteligência devido às “limitações que a sua pasta lhe impõe” em ambiente público. Ele destacou que a “glamorização” do crime organizado e sua atribuição indiscriminada a “todo e qualquer evento” dificultam o enfrentamento qualificado.
Rodrigues definiu organização criminosa como a “associação de, pelo menos, quatro pessoas com objetivo comum, com hierarquia, com a pena máxima superior a quatro anos”e enfatizou a necessidade de o Estado brasileiro se atualizar frente à “economia fluida, essa economia digital”, enquanto o crime já está em um “passo digital”.
O diretor-geral detalhou as ações da PF, mencionando as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs), que reúnem policiais federais, civis, militares, penais e rodoviários, além de guardas municipais, em ambientes físicos de cooperação.
No ano anterior, as FICCOs realizaram cerca de 300 operações, apreenderam aproximadamente R$ 400 milhões e efetuaram mais de mil prisões. Para 2025, os números já haviam sido superados. Ele destacou a cooperação com outros órgãos como Receita Federal, Coaf e Banco Central. Na esfera internacional, Rodrigues citou a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI) em Manaus, com a participação de nove países amazônicos, e o CCPI do Rio de Janeiro.
Rodrigues mencionou a participação brasileira em organismos como Ameripol (onde ele é Secretário-Executivo), Europol (sendo o Brasil o único país latino-americano com acordo formal) e Interpol, destacando que um Delegado da PF, Dr. Valdecy Urquiza, preside a Interpol. Ele informou que a PF resolve 85% de seus inquéritos policiais, um índice considerado elevado, e mencionou a apreensão de 5 toneladas de cocaína em Portugal a partir de informações brasileiras.
Em 2023, a PF apreendeu R$ 3 bilhões do crime organizado, subindo para R$ 6,4 bilhões em 2024 e uma projeção de R$ 9 bilhões para 2025, incluindo R$ 4 bilhões de uma operação na cadeia de combustíveis. Rodrigues relatou 16 operações em andamento no dia da sessão, com 219 mandados cumpridos e 48 prisões.
Os questionamentos dos parlamentares
Na fase de questionamentos, o senador Alessandro Vieira (Relator) indagou sobre as prioridades da PF no combate a facções e milícias. O diretor-geral respondeu que os pilares essenciais são “descapitalização, prisão de lideranças e a cooperação interna e internacional”.
Sobre o orçamento, Rodrigues informou que o discricionário da PF foi de R$ 1,8 bilhão no ano anterior, cobrindo todas as despesas, e apelou ao Parlamento por um aumento para, “ao menos R$ 2,5 bilhões”. Ele mencionou a necessidade de expandir as FICCOs para fronteiras, portos e aeroportos e a insuficiência de efetivo, com menos de 13 mil policiais para um quadro legal de 15 mil, idealmente necessitando do dobro para atender às demandas.
O diretor-geral esclareceu que não há restrições legais para a atuação da PF no combate ao crime organizado e que a coordenação das FICCOs é da PF, com custeio da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), e que nenhum estado recusou a participação nas FICCOs.
O relator também questionou a cooperação com as Forças Armadas, que Rodrigues avaliou como “muito positiva”, citando a Força Aérea Brasileira na interceptação de aeronaves e a Marinha na fiscalização de embarcações, incluindo a apreensão de um submergível com drogas em Lisboa a partir de informações brasileiras.
Sobre as rotas de entrada de armas e drogas, o diretor-geral afirmou que boa parte delas é conhecida, mas há “migração para outro” modal quando há pressão. Ele descreveu a fronteira brasileira como 17 mil quilômetros, com a fronteira Bolívia-Brasil de 3,4 mil quilômetros, superando a fronteira EUA-México, argumentando que um “controle absoluto” é uma utopia.
Para aumentar o custo da circulação nessas rotas, a PF estimava R$ 800 milhões para uma ação mais contundente nas fronteiras, com um projeto mais amplo que superaria “alguns bilhões”.
A discussão sobre cooperação internacional foi enfatizada, com Rodrigues reiterando que não é necessário equiparar o crime organizado ao terrorismo para garantir a cooperação, classificando tal ideia como um “erro técnico”. Ele apresentou dados de extradições, difusões da Interpol e pedidos de cooperação policial internacional, reafirmando que a polícia brasileira está “no nível das melhores polícias do mundo”.
Questionado sobre corrupção, o diretor-geral indicou que a PF possui mais de 130 investigações sobre o tema, além de milhares envolvendo outros crimes relacionados.
A análise do projeto de lei antifacção revelou preocupações da PF. Rodrigues destacou que versões anteriores do projeto “restringiam a atuação da Polícia Federal” e que a proposta atual de “retirada de recursos dos fundos federais, inclusive do Funapol” seria prejudicial, “descapitalizando a Polícia Federal”, em contraste com a necessidade de ampliação do orçamento.
Ele também expressou desacordo com a equiparação entre terrorismo e crime organizado e alertou para a possibilidade de “conflito de normas” com a legislação existente, o que poderia gerar “confusão processual”.
Regulações
A regulação do mercado de criptoativos também foi abordada. O diretor-geral enfatizou a importância de regulamentações, como as do Banco Central para criptomoedas e “contas-bolsão”, para combater a lavagem de dinheiro, mencionando que “segurança pública não é só questão de polícia” e que diversas agências precisam colaborar.
Ele manifestou ser favorável à fiscalização de segmentos como advocacia e contabilidade para evitar “nichos intocáveis” à persecução penal, desde que respeitadas as prerrogativas profissionais e a Constituição.
Infiltração
Sobre a infiltração do crime organizado no poder público via financiamento ilegal de campanhas, Rodrigues informou que a PF atua em parceria com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e apreendeu R$ 30 milhões em dinheiro na última campanha municipal, com desdobramentos já em curso para as próximas eleições.
Em relação ao caso do deputado Estadual “TH Joias”, supostamente representante de uma facção no parlamento do Rio de Janeiro, o diretor-geral confirmou o histórico do deputado e a atuação de uma equipe dedicada da PF no estado, em parceria com Coaf e Receita Federal, para combater o crime organizado.
A migração do cadastro de Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs) do Exército para a PF e a questão da proliferação de armas foram discutidas. Rodrigues reconheceu que a proliferação de armas “fugiu do controle”, com mais de 1,5 milhão de armas nas mãos de CACs. Ele concordou que “quem tem que andar armado é policial”, defendendo um sistema mais restritivo e investimentos em fiscalização e tecnologia, embora os recursos para a tarefa ainda sejam direcionados ao Exército.

Marcos do Val acusa “PF do Lula”
Um momento de tensão na sessão ocorreu quando o senador Marcos do Val (Podemos-ES) fez uma intervenção, acusando a Polícia Federal de “uso coordenado de estrutura do Estado” para “blindar aliados e intimidar opositores”, citando seu próprio caso como exemplo de “perseguição política”.
O senador criticou manchetes jornalísticas e declarações do diretor-geral sobre postagens de fotos de familiares de um delegado e uma acusação de “corrupção de menor”, negando as alegações e questionando a legalidade de buscas e apreensões em seu gabinete.
O diretor-geral, por sua vez, refutou as acusações, enfatizando a imparcialidade da PF e a natureza legal de suas ações, explicando que as postagens subsequentes ao ato inicial do senador incluíram as referências “vivo ou morto” e fotos de familiares, e que o cumprimento de ordens judiciais é feito “mediante ordem judicial”.
O senador Sergio Moro (União-PR) expressou preocupação com a “escalada do crime organizado no país” e a percepção de que a PF não estaria agindo o suficiente, questionando a ausência de forças-tarefa específicas para facções como PCC e Comando Vermelho, ao contrário da dedicada Operação Lesa-Pátria para o 8 de janeiro.
Rodrigues esclareceu que a PF possui grupos permanentes como os Gise (Grupos de Investigações Sensíveis) e as FICCOs para essas finalidades, além da Operação Redentor 2 no Rio de Janeiro. Moro também questionou a ausência de uma “lista dos mais procurados” e criticou a posição do diretor-geral contra a criação de uma Agência Nacional Antimáfia, ao que Rodrigues reiterou que a PF já exerce esse papel e que a criação de um novo órgão seria ineficiente.
O senador Rogério Carvalho (PT-SE) destacou a “agonia” da ocupação territorial por facções e a sofisticação do crime, que alcança o Parlamento e as instituições financeiras. Ele ressaltou a importância de integrar as ações de inteligência e o combate ostensivo para dar uma “resposta efetiva para o povo brasileiro”.
O senador Eduardo Girão (Noco-CE) trouxe à tona a “tragédia humanitária” no Ceará, com a expulsão de famílias e a violência de facções. Ele questionou a suposta perseguição política pela PF e solicitou dados sobre operações no Ceará, a coação de prefeituras e câmaras, e a aplicação do Estatuto de Roma para casos de remoção forçada e ataques a terreiros de umbanda, além de investigar lavagem de dinheiro em casas de apostas .
Em resposta, o diretor-geral Rodrigues reiterou os números de prisões em geral (16.079 em 2023) e no Ceará (11 operações FICCOs, 18 operações PF), enfatizando que a PF não substitui as polícias estaduais, mas coopera, e que sistemas de alerta e acordos com instituições financeiras são ferramentas importantes.
Encerrando a sessão, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), como Líder do Governo, defendeu a Polícia Federal, reiterando a necessidade de cooperação entre as polícias e criticando o projeto de lei antifacção que, segundo ele, “enfraquece a Polícia Federal” e “alivia para os milicianos”.
O relator, senador Alessandro Vieira, reforçou a gravidade do cenário e os números apresentados pela PF, e solicitou a convocação de “Thiego Raimundo, conhecido como TH Joias” para depor.
O presidente Contarato concluiu a reunião agradecendo a todos e ressaltando que a CPI buscaria “pegar toda e qualquer pessoa, principalmente agentes políticos, pessoas que exercem poder”, que dão efetividade às organizações criminosas.
Ele anunciou as próximas oitivas do Diretor de Inteligência da PF e do Diretor de Inteligência Penal da Senappen para as semanas seguintes.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















