Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, afirma ter recebido empréstimo pessoal já quitado de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha investigada na Operação Sem Desconto, enquanto o PL prepara representação no STF com pedido de quebra de sigilo
Brasília – O ex-chefe de Gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, confirmou na segunda-feira (3) ter recebido dinheiro da empresária e lobista Roberta Luchsinger, investigada na Operação Sem Desconto, que apura fraudes contra a Previdência Social. A revelação, iniciada pelo portal Poder360, ocorre em plena arrancada da campanha de reeleição do petista e já mobiliza a Polícia Federal, que investiga a transação, e o Partido Liberal (PL), que prepara uma representação no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar o caso e pedir a quebra do sigilo do ex-assessor, que deslocado para um dos coordenadores da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em nota enviada à imprensa para comentar a reportagem, Marcola afirmou que os valores recebidos de Roberta correspondem a um empréstimo pessoal, contraído e já quitado entre as partes, e negou qualquer irregularidade, pois disse ter recebido “com surpresa” uma matéria que trata “um empréstimo pessoal contraído e já quitado como algo ilegal” e afirmou que nunca teve “nenhuma relação que caracterize qualquer ilegalidade” no exercício de sua função.
Caberá a Marcola esclarecer o motivo de ter buscado recursos com uma lobista investigada em vez de recorrer ao crédito formal de uma instituição financeira, caminho natural para quem necessita de financiamento. As perguntas que seguem sem resposta dizem respeito ao montante do empréstimo, à taxa de juros combinada e ao prazo de pagamento, dados essenciais para dimensionar a natureza da operação e afastar a suspeita de que os repasses tivessem outra finalidade.
O ex-assessor e agora posicionado como um dos coordenadores da campanha de reeleição de Lula, porém, não informou o montante recebido. A imprensa especula com fontes, que os pagamentos girariam na casa dos R$ 80 mil, informação que não pôde ser confirmada nem quanto ao valor nem quanto à frequência das transferências, das quais quatro pessoas familiarizadas com o assunto teriam conhecimento. A Polícia Federal investiga a transferência feita pela empresária.
A saída do Planalto e o peso sobre a campanha
Marcola ocupou o cargo de chefe de Gabinete de janeiro de 2023 até julho de 2026, praticamente todo o terceiro mandato de Lula, e a data exata da exoneração varia pois, conforme a fonte situam a saída em 21 de julho, até 31 de julho. Oficialmente, a saída foi atribuída à participação na coordenação da campanha pela reeleição do presidente, mas fontes ouvidas pela CNN afirmam que o real motivo foi a descoberta dos pagamentos feitos pela empresária, que teria levado o Planalto a antecipar a exoneração para evitar desgaste ao governo, já que Marcola era considerado um dos auxiliares de maior confiança de Lula. A emissora também registrou que o assessor foi dispensado do cargo pelo próprio presidente, e o portal Itatiaia reforçou a leitura de que a transação teria motivado a saída.
O caso foi tema de conversa de bastidores entre integrantes da cúpula petista durante a convenção que lançou a candidatura de Lula à reeleição, no sábado (1º de agosto). Há apreensão no partido, pois o tema “corrupção” se mostrou aderente ao atual governo de forma negativa e pode prejudicar o desempenho eleitoral da legenda. O ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira, foi procurado pela imprensa e não se manifestou até o momento, o que sinaliza a gravidade do fato.
Quem é Roberta Luchsinger
Roberta Luchsinger ganhou os holofotes durante as investigações sobre as fraudes na Previdência Social por sua proximidade com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso desde 12 de setembro de 2025 e apontado pela Polícia Federal como um dos responsáveis por um esquema de desvios de recursos de fundos de pensão.
A empresária prestou serviços ao lobista e é amiga próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, primogênito do presidente, que hoje é alvo de três inquéritos, inclusive um por tráfico de influência. No início do inquérito sobre as fraudes, em abril de 2025, Lulinha e Roberta foram citados como possíveis participantes do esquema, o que ambos negam.
A relação entre os três ganhou contornos objetivos ao longo da apuração. Em 4 de dezembro de 2025, Lulinha retorna ao noticiário nacional suspeito de ter recebido uma mesada de R$ 300 mil do Careca do INSS.
No mesmo mês, em meio à instalação da CPMI do INSS no Congresso, a empresária foi alvo de busca e apreensão em nova fase da Operação Sem Desconto. Em maio de 2026, Roberta prestou depoimento à PF e disse ter apresentado Lulinha ao lobista, classificando o gesto como “boa educação”, mas negou ter intermediado negócios entre eles, pois afirmou que “jamais apresentou os dois com intuito de negócio” e que “eles nunca tiveram transações comerciais”, além de negar qualquer repasse de pagamento ao filho do presidente.
As versões caíram por terra após os investigadores identificaram ao menos seis viagens de Roberta e Lulinha em que as reservas de passagens aéreas foram registradas sob o mesmo código localizador, incluindo uma ida a Portugal em junho de 2024 e outros cinco trechos nacionais entre abril e junho de 2025, o que a PF considera indício da proximidade entre ambos.
Em uma das etapas da operação, foi apreendido no celular da empresária um áudio em que ela explica ao Careca que os contratos com o Ministério da Saúde seriam firmados por dispensa de licitação, com base na nova lei de licitações e diante do cenário de emergência, mencionando a possibilidade de elaborar um “documento bem robusto” para pedir a dispensa sem explicar quem seria o interlocutor.
O novo inquérito e a posição de Marcola
Marcola também aparece na mira do segundo inquérito aberto pela Polícia Federal para investigar os negócios de Lulinha com o Careca do INSS, desta vez voltado à comercialização de cannabis medicinal.
Aberto na última semana de julho com autorização do ministro André Mendonça, do STF, o inquérito vai apurar possíveis ilícitos do primogênito de Lula na área, uma vez que os investigadores suspeitam que Lulinha tenha atuado com Roberta no mercado de canabidiol em favor de empresa ligada ao lobista.
No parecer em que opinou pela abertura, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, mencionou suspeitas relativas a um assessor do gabinete presidencial e a um servidor do Ministério da Saúde, sem citar nomes, e fontes a par do caso confirmaram que esse assessor é Marcola, que aparece em mensagens trocadas por alvos já investigados nas fraudes do INSS. Também estão na mira servidores do Ministério da Saúde e da Anvisa, além do próprio Lulinha.
A condução do caso, contudo, expôs tensões institucionais. A PF tentou evitar a distribuição automática do pedido a Mendonça, relator do caso do INSS, e defendeu que um relator fosse sorteado livremente, o que ampliou o atrito entre a corporação e o gabinete do ministro.
Durante o recesso do Judiciário, o presidente do STF em exercício, Alexandre de Moraes, pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República, e Gonet concordou com a tese de que o novo inquérito tratava de fatos distintos, sem conexão com o anterior, o que descartaria a prevenção. O sorteio eletrônico, porém, selecionou justamente Mendonça, que autorizou a abertura da investigação.
A defesa de Lulinha reagiu com dureza, pois o advogado Marco Aurélio Carvalho classificou como “muito grave” o fato de “setores da PF influenciados pelo bolsonarismo decidam abrir inquéritos com finalidade eleitoral” e afirmou que, se Fábio Luís não fosse filho do presidente, não estaria aberta essa investigação. Carvalho também chamou os pedidos da PF de “pirotecnia” e de tentativa ilegal de “pesca probatória”, em referência a uma investigação genérica sem foco específico, e negou que o filho do presidente tenha gerado vínculos comerciais com o lobista, pois uma testemunha ouvida pela CPI do INSS afirmou que o Careca teria contratado o lobby de Lulinha para ajudar a fechar contrato milionário com o Ministério da Saúde, negociação que não se concretizou.
O PL e a ofensiva no STF
O Partido Liberal prepara uma representação ao STF para pedir a abertura de investigação sobre Marcola e, principalmente, esclarecer se integrantes do Palácio do Planalto tiveram conhecimento prévio de que a Polícia Federal havia alcançado o então auxiliar de confiança do presidente durante uma investigação.
A legenda também defende a quebra do sigilo do ex-chefe de gabinete. Na prática, o movimento do PL transforma o episódio em instrumento político imediato, pois recoloca no centro do debate eleitoral a relação entre o entorno de Lula e os personagens da Operação Sem Desconto, que apura descontos indevidos aplicados a benefícios previdenciários.

O perfil do guardião da agenda
A figura central do episódio é um cientista político de 39 anos, nascido em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, e formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), onde também concluiu o mestrado. Há nove anos Marcola cuida da agenda de Lula, com quem se aproximou ainda mais durante a prisão do presidente em Curitiba, entre 2017 e 2019, período em que se tornou o principal elo do petista com o mundo exterior, encaminhando cartas, livros e recados.
No Palácio do Planalto, é o responsável por filtrar telefonemas e audiências, pois é quase impossível falar com o presidente sem passar por ele, e colegas o descrevem como “atencioso e detalhista”, de “baixo perfil”, características que seriam ideais para garantir a privacidade do assessorado.
Casado com a jornalista Nicole Briones, da EBC, Marcola construiu a carreira na estrutura petista, com passagens pela Assembleia Legislativa de São Paulo, pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e pelo Instituto Lula, sob o comando de Paulo Okamoto, e mantém amizade com Frei Chico, irmão do presidente, e com Gilberto Carvalho, que o teria preparado para a sucessão no cargo.
O apelido, porém, já foi fonte de constrangimentos, pois se confunde com o do líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, e gerou processos movidos por Marcola contra adversários do PT e do presidente, como no caso do panfleto apócrifo atribuído a apoiadores do prefeito eleito de Diadema (SP), Taka Yamauchi (MDB), que rendeu pedido de indenização de R$ 20 mil. O episódio das transferências de Roberta, agora, dá novo contorno a um personagem que sempre preferiu as sombras do poder.
Episódio tem potencial de desgaste na aprovação de Lula
O episódio reúne ingredientes que o transformam em teste para o governo e para a campanha de reeleição de Lula, pois recoloca a palavra “corrupção” no centro do debate público, justamente o tema que os petistas mais temem em ano eleitoral, e o faz por meio de uma ponte entre o núcleo palaciano e personagens centrais da Operação Sem Desconto, que investiga a roubalheira contra aposentados e pensionistas do INSS, um dos escândalos mais sórdidos da história política do país.
A versão oficial da saída de Marcola, apresentada como adesão à campanha, passou a conviver com a leitura de que a exoneração teria sido uma blindagem, o que abre espaço para desgaste político e questionamentos sobre a condução do caso. Além disso, a disputa institucional em torno da relatoria do inquérito da cannabis medicinal, com a PF e o gabinete de Mendonça em rota de colisão, sinaliza que o tema ainda renderá capítulos no STF, que terá de decidir sobre a representação do PL, sobre a eventual quebra de sigilo de Marcola e sobre o avanço das apurações relativas às transferências de Roberta, cujo valor e frequência seguem sem confirmação oficial.
O que se sabe até aqui é que um empréstimo pessoal, pago e quitado na versão do ex-assessor, tornou-se o epicentro de uma crise com potencial de atravessar a campanha presidencial e de expor os limites entre a vida privada de auxiliares palacianos e a linha tênue que separa a política das investigações.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














