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Home Política

PF aponta senador como sócio oculto do “Careca do INSS” em esquema bilionário

Val-André Mutran por Val-André Mutran
04/08/2026
in Política
PF aponta senador como sócio oculto do “Careca do INSS” em esquema bilionário

Senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo no Senado, é alvo de nova fase da Operação Sem Desconto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Planilha apreendida com contador do esquema lista empresas do “Grupo Senador Weverton”, e o ex-chefe de gabinete do parlamentar, que ocupava o cargo de número 2 da Previdência, foi preso

Brasília – Nova fase da Operação Sem Desconto, deflagrada inicialmente em dezembro de 2025 pela Polícia Federal, colocou o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado, no centro de uma investigação que aponta o parlamentar como beneficiário final e “sustentáculo político” de um esquema bilionário de descontos indevidos em benefícios do INSS. A nona fase da operação nesta terça-feira (4), autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), cumpre 52 mandados de busca e apreensão e 16 prisões preventivas em seis estados e no Distrito Federal, incluindo a do então número 2 do Ministério da Previdência Social, Adroaldo Portal — que já havia sido chefe de gabinete do senador.

A investigação da Polícia Federal sobre o desvio bilionário de recursos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ganhou novo e decisivo capítulo no dia 18 de dezembro de 2025, com a deflagração de mais uma fase da Operação Sem Desconto. Pela primeira vez, um senador da República em pleno exercício do mandato tornou-se alvo direto de buscas da PF no âmbito do caso: Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Luiz Inácio Lula da Silva no Senado e um dos nomes mais influentes do chamado Centrão.

A ação representou um ponto de inflexão em uma investigação que já durava meses. A primeira fase da operação, conduzida em conjunto pela PF e pela Controladoria-Geral da União (CGU) em 23 de abril de 2025, revelara um esquema sofisticado de descontos associativos não autorizados em contracheques de aposentadorias e pensões pagas pelo INSS.

Na ocasião, os investigadores estimaram que as fraudes poderiam alcançar a cifra de R$ 6 bilhões, e ao menos 18 pessoas já haviam sido presas entre políticos e empresários. O principal operador do esquema, Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, foi preso em setembro daquele ano.

A planilha que liga o senador ao esquema

O elemento central que levou a PF a incluir Weverton Rocha no alvo das investigações foi uma planilha apreendida ainda na primeira fase da operação, em abril de 2025, no celular de Alexandre Caetano, contador de empresas ligadas ao Careca do INSS e preso na nova fase. O documento, um arquivo em formato Excel intitulado “Grupo Senador Weverton”, listava diversas empresas e supostamente mapeava a estrutura financeira associada ao esquema criminoso, dividindo-as entre “empresas administradas por Antonio Camilo” e “empresas em sociedade com Antonio Camilo”.

Em relatório da PF citado pelo ministro André Mendonça em sua decisão que autorizou as buscas, o senador é descrito “como liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras de Antonio Camilo”. Os investigadores sustentam que “o enriquecimento de Antônio, portanto, foi viabilizado por suporte político”. A linguagem usada pela corporação é ainda mais contundente: o ministro registrou que a PF alega que Weverton teria “posição de liderança política e possível posto de comando dentro da organização criminosa estruturada por Antonio Carlos Camilo Antunes”.

A suspeita central é a de que o senador atuasse como beneficiário final — ou “sócio oculto” — de operações financeiras estruturadas pela organização criminosa, “recebendo recursos ou benefícios por meio de interpostas pessoas, alguns seus assessores parlamentares”, conforme descreveu o ministro Mendonça no mandato.

Pagamentos a assessores e o elo com o número 2 da Previdência

A decisão do ministro André Mendonça cita registros de pagamentos de propina encontrados em planilhas apreendidas na casa do líder da organização, Antonio Camilo. Entre os nomes listados estão pessoas diretamente ligadas ao senador. Gustavo Gaspar, conhecido como “Gasparzinho”, ex-assessor e considerado “braço direito” de Weverton, aparece associado a um pagamento de R$ 100 mil.

Adroaldo Portal, então secretário-executivo do Ministério da Previdência Social — o número 2 da pasta — e ex-chefe de gabinete do senador, aparece vinculado a um pagamento de R$ 50 mil.

Adroaldo Portal foi preso preventivamente na mesma operação, afastado do cargo e colocado em prisão domiciliar. Há também registros de depósitos em espécie feitos pelo filho de Adroaldo — que também trabalhava no gabinete de Weverton — na conta do pai. Para a PF, esse conjunto de evidências reforça a tese de que o esquema tinha ramificações dentro da própria estrutura governamental e do Congresso Nacional.

A PF chegou a pedir a prisão preventiva do senador, mas o ministro André Mendonça, acompanhando manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), rejeitou a medida, autorizando exclusivamente mandados de busca e apreensão nos endereços do parlamentar. A PGR considerou que as provas contra o senador eram, à época, “frágeis” para justificar a prisão.

O político e seus vínculos

Weverton Rocha Marques de Sousa, 46 anos, natural de Imperatriz (MA), construiu sua trajetória política a partir do movimento estudantil, tendo sido dirigente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Eleito deputado federal em 2010 como suplente, assumiu a cadeira em 2012 e foi reeleito em 2014. Em 2018, elegeu-se senador com o apoio do então governador Flávio Dino — hoje ministro do STF.

No Senado, tornou-se peça-chave da base governista. É vice-líder do governo Lula e homem de confiança do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). Foi escolhido para relatar pautas de grande sensibilidade política: a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal, e a revisão da Lei de Crimes de Responsabilidade (a nova Lei do Impeachment).

A proximidade com o Palácio do Planalto, no entanto, não o blindou das investigações. Em 2022, candidatou-se ao governo do Maranhão, mas não obteve o apoio de Flávio Dino, que preferiu apoiar Carlos Brandão (PSB), vencedor do pleito. O senador já havia sido alvo de outras investigações — foi absolvido pelo STF no caso Projovem Urbano por ausência de dolo, e respondeu por violação à lei de licitações no caso Costa Rodrigues, ação penal encerrada pelo Tribunal de Justiça do Maranhão em 2022.

Os encontros com o Careca do INSS

O nome de Weverton foi um dos primeiros a surgir ligado ao esquema ainda nas fases iniciais da investigação. O senador admitiu ter se reunido ao menos duas vezes com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Os encontros ocorreram no Senado Federal e na residência do parlamentar em Brasília, durante um “costelão” — churrasco de costela. Em nota enviada ao jornal O Globo à época, Weverton afirmou: “Conheci Antônio Carlos Camilo Antunes em um costelão na minha casa, para a qual ele foi levado por um convidado. Na ocasião, ele se apresentou como empresário do setor farmacêutico”.

A defesa do senador, por sua vez, reitera que ele “não é sócio” do investigado. Questionada pela revista piauí, a assessoria respondeu de forma direta: “Não é”.

O cerco se fecha: CPMI e manutenção na relatoria

A Operação Sem Desconto também reverberou no âmbito do Legislativo. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, instaurada para investigar as fraudes, mencionou o nome de Weverton em seu relatório final, apresentado em 27 de março de 2026. O documento aponta o senador como citado nas investigações e menciona que empresários ligados ao esquema foram alvo de pedidos de prisão por falso testemunho durante a comissão.

Paralelamente, o nome de Weverton Rocha continuou a gerar controvérsia política. Em janeiro de 2026, mesmo sob investigação, o senador foi mantido como relator da indicação de Jorge Messias ao STF. O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Otto Alencar (PSD-BA), confirmou em abril de 2026 que o senador permaneceria na função. “A Secretaria Especial de Assuntos Jurídicos da Casa Civil realizou a entrega da documentação do ministro Jorge Messias para a indicação à vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal”, informou a comissão.

A situação gerou um debate sobre conflito de interesses. A situação agravou-se com a prisão de Adroaldo Portal, ex-chefe de gabinete de Weverton, que havia sido nomeado para o segundo cargo mais alto da Previdência Social. A manutenção do senador como relator de uma indicação vitalícia ao STF enquanto era investigado por suposta participação em um esquema bilionário acendeu alertas entre juristas e parlamentares da oposição.

Senador diz que é inocente

O conjunto de evidências reunidas pela PF até o momento aponta para a sofisticação do esquema. Em coletiva de imprensa em dezembro de 2025, o presidente Lula foi questionado sobre a operação e afirmou: “Não sei quem foi alvo hoje. Se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado. Estou muito leve com relação a essas apurações”. A declaração foi interpretada como um distanciamento do Planalto em relação ao caso.

Ainda sob sigilo, parte dos autos indica que empresas ligadas ao grupo realizaram saques que somam cerca de R$ 200 milhões. Levantamentos preliminares apontam para movimentações financeiras que podem aumentar significativamente esse montante à medida que as investigações avançam.

Em 15 de abril de 2026, o senador Weverton Rocha apresentou parecer favorável à indicação de Jorge Messias ao STF na CCJ, com a sabatina marcada para 28 de abril. O desenrolar do caso coloca o Senado em uma posição delicada: ao mesmo tempo em que um de seus membros mais influentes é investigado por suposta participação no maior esquema de fraudes previdenciárias já descoberto no país, o mesmo parlamentar conduz uma das indicações mais relevantes do governo para o Judiciário.

Com nove fases já deflagradas, a Operação Sem Desconto segue em curso. O volume de documentos, planilhas, quebras de sigilo bancário e depoimentos ainda em análise promete novos desdobramentos — e a suspeita de que o esquema possa ter contaminado outras camadas da administração pública e do Congresso Nacional permanece no centro das atenções. Entretanto, o senador se diz vítima de perseguição política e que vai provar sua inocência. Ele é candidato a reeleição ao Senado.

* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.

Tags: Adroaldo PortalAndre Mendonçacareca do INSSDestaqueEscândalo do INSSgoverno Lulalavagem de dinheiroOperação Sem DescontoPDT e a Previdência SocialPolícia Federalsenador Weverton Rocha
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