Filho do presidente é alvo de três inquéritos no STF; governador Brandão nega relação com lobista
Brasília – A Polícia Federal encontrou no celular da lobista Roberta Luchsinger mensagens em que ela afirma que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foi responsável por marcar uma reunião no Palácio do Planalto para o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), e que o presidente teria dito que iria “prosseguir com a liberação da obra dele” no Estado. A revelação faz parte do inquérito que investiga suspeitas de tráfico de influência envolvendo a lobista e o filho do mandatário.
A investigação aponta que Roberta Luchsinger intermediou a contratação, por órgãos vinculados ao governo do Maranhão, de uma empresa de informática do empresário Cleber Ribas, além de atuar em favor dele junto ao governo federal. A partir da quebra de sigilos, a PF também identificou que a lobista mantinha diálogos sobre negócios com o próprio governador Carlos Brandão.
Em outro inquérito, o que apura o escândalo de desvios de aposentadorias do INSS, a recomendação feita por Roberta Luchsinger a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, não chegou a ser seguida pela própria lobista. Em mensagens interceptadas pela Polícia Federal, ela sugere ao Careca que se desfaça dos celulares depois que um envelope com o nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, foi apreendido em uma operação da PF.
A defesa de Luchsinger sustentou que o conselho para descartar os aparelhos foi uma reação impulsiva de gerenciamento de crise, provocada pelo pânico diante da menção ao nome de um amigo famoso. A defesa da lobista negou qualquer intenção de encobrir crimes ou repasses financeiros a autoridades.
A mensagem que liga Lulinha à agenda de Brandão
Em 22 de maio de 2024, Roberta enviou uma mensagem de áudio a Lulinha informando que seria realizada naquele dia uma reunião do governador do Maranhão com o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Na transcrição da PF, a lobista diz: “Ó, só pro cê saber. Brandão hoje vai lá no palácio, que seu pai falou que vai prosseguir com aquela liberação da obra dele. Aí o Marcola vai receber ele 16 horas. Eu já avisei o Brandão que você conseguiu a agenda, então se quiser falar com o governador, tá confirmado às 16h, fazer uma moral, tá?”
Em seguida, ela afirmou a Lulinha que se encontraria com o governador para tratar de “outros assuntos”. No diálogo, o filho do presidente sugere que seria melhor se concentrarem nesses “outros assuntos” durante as tratativas com Carlos Brandão.
A reunião citada por Roberta efetivamente ocorreu. A agenda de Marco Aurélio Santana Ribeiro registra, às 17h40 daquele dia, um encontro com o governador, com a presença de dois outros assessores presidenciais. O tema da reunião é descrito apenas como “Reunião Executiva”.
O pacote de R$ 59 bilhões anunciado um mês depois
Em 21 de junho de 2024, cerca de um mês após a reunião intermediada, o presidente Lula foi a São Luís (MA) e anunciou um pacote de R$ 59 bilhões em obras para o Maranhão dentro do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Entre as medidas, a renovação da concessão do Porto do Itaqui, a construção de um novo berço do terminal e a implantação de um novo corredor de transporte na Avenida Litorânea, uma das principais vias da capital maranhense.
A proximidade temporal entre a articulação relatada pela lobista e o anúncio do pacote levanta questionamentos sobre a influência do filho do presidente nos negócios envolvendo o Estado, ainda que a investigação não tenha, até o momento, estabelecido nexo causal entre os fatos.
Contratos milionários e a atuação da lobista
A 3Structure, empresa de Cleber Ribas, fechou contratos de R$ 5,8 milhões com o governo do Maranhão em 2024, firmados junto ao Porto de Itaqui e à Secretaria de Fazenda. A PF identificou que Ribas contratou Roberta Luchsinger para a defesa de seus interesses e pagou ao menos R$ 2,5 milhões à lobista entre março de 2024 e dezembro de 2025.
A atuação de Roberta, porém, não se restringia ao âmbito estadual. Como mostrou o Estadão, ela também defendia interesses de Cleber Ribas junto ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e outros órgãos do governo federal, conforme expôs em mensagem trocada com o empresário em junho de 2023. Em dezembro de 2023 e abril de 2024, a 3Structure obteve dois contratos de R$ 14,4 milhões e R$ 19,2 milhões com a pasta do governo Lula.
No Maranhão, Roberta Luchsinger também recebeu outros R$ 4,4 milhões da HSLZ Ltda, empresa contratada pelo governo do Estado para manter o Hospital dos Servidores Públicos do Maranhão, com recursos públicos. Os dados foram obtidos pela investigação por meio de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Questionado sobre o pagamento, o governo do Maranhão afirmou que “não possui ingerência sobre quaisquer empresas privadas”. O diretor-geral do hospital, Plinio Tuzzolo, se recusou a dar explicações, e a HSLZ, em nota, disse que não comenta informações comerciais individualizadas relativas a contratos privados.
Relações com a política maranhense
As conversas encontradas no celular de Roberta revelam ainda sua proximidade com autoridades do governo estadual. Em mensagens a Cleber Ribas sobre a intermediação dos contratos, ela disse que “o presidente do Porto” o havia elogiado e dito “vamos tocar”, e que “o gov autorizou tb”. Segundo a PF, a referência é a Gilberto Lins e Neto, então presidente da Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap), afastado da função em outubro de 2024 pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Roberta e Lulinha também mantiveram relação pessoal com o deputado federal Fabio Macedo (Podemos-MA), um dos principais aliados de Carlos Brandão na bancada estadual, e com a mulher do parlamentar, Lorena Macedo, que atuava como subsecretária de Representação Institucional do Maranhão, cargo com a atribuição de defender interesses do Estado em Brasília. O governo mantém uma casa no Lago Sul, bairro nobre da capital federal, para essa finalidade, situada a menos de cinco quilômetros do endereço que servia como posto avançado de Roberta e Lulinha.

Uma foto obtida pelo Estadão mostra um momento de descontração no município de Barreirinhas (MA), porta de entrada do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com a presença do deputado Fabio, Roberta, Lulinha e Cleber Ribas, acompanhados de seus cônjuges. Em seu perfil no Instagram, Roberta também publicou fotos em que aparece em shows com Lorena e Renata de Abreu Moreira, mulher de Lulinha.
As defesas e os desdobramentos no STF
Procurado pela imprensa para comentar os fatos, Carlos Brandão negou relação com Roberta Luchsinger e afirmou que sua agenda “não depende da articulação de terceiros”, acrescentando que Lula “é um grande aliado do Maranhão, onde grandes obras estão sendo executadas a partir da parceria com o Governo Federal”.
A defesa de Cleber Ribas informou que ele contratou Roberta para “serviços de assessoria em questões de captação de clientes e identificação de oportunidades de negócio no ramo de tecnologia, atividade absolutamente lícita e comum no mercado”, e negou qualquer relação comercial com Fábio Luís Lula da Silva ou contrato com a Dataprev.
O Palácio do Planalto foi procurado e não se manifestou, enquanto a defesa de Lulinha criticou o que chamou de “vazamentos seletivos” que visariam interferir no processo eleitoral.
O caso se insere em um contexto mais amplo de investigações contra o filho do presidente. Lulinha é alvo de três inquéritos no STF por suspeitas de tráfico de influência e corrupção, autorizados pelos ministros André Mendonça e Flávio Dino.
Em paralelo, o governador Carlos Brandão pediu ao Supremo a suspensão de um inquérito relatado por Dino que resultou no afastamento de Daniel Brandão, sobrinho do governador e presidente do Tribunal de Contas do Estado, mas o STF rejeitou, em 21 de agosto de 2026, a ação para barrar a investigação. A defesa de Brandão sustenta que o caso seria de competência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), enquanto Mendonça e Dino planejam manter as investigações sobre Lulinha no STF.
A convergência entre a articulação relatada pela lobista, os contratos milionários firmados com órgãos do governo maranhense e o anúncio do pacote bilionário do Novo PAC compõe um quadro que a Polícia Federal investiga para apurar se houve tráfico de influência no uso de relações pessoais e políticas para favorecer interesses privados, em um caso que promete seguir movimentando o cenário político nacional e estadual nos próximos meses .
Na próxima semana, os institutos de pesquisa de opinião devem começar a medir, em novas pesquisas, o efeito “Lulinha” nos índices de aprovação do presidente Lula.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














