Amostras do poço Morpho indicam grau API entre 35 e 40, acima do pré-sal, e Ibama libera perfuração de mais três poços no Amapá
Brasília – A novidade que a Petrobras confirmou na descoberta de hidrocarbonetos no poço exploratório Morpho, no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, em lâmina d’água de 2.886 metros. As primeiras análises das amostras indicam um óleo leve, com grau API entre 35 e 40, patamar superior ao de importantes campos do pré-sal e que o posiciona entre os mais valorizados já encontrados no país.
O anúncio, celebrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chamou o material de “petróleo muito chique”, veio acompanhado do anúncio do Ibama que autorizou a ampliação da campanha exploratória na Margem Equatorial, com a perfuração de novos poços. A decisão ocorre em meio a questionamentos do Ministério Público Federal sobre a transparência do licenciamento e a críticas de ambientalistas, que apontam riscos à maior faixa contínua de manguezais do mundo e ao Grande Sistema de Recifes da Amazônia.
A descoberta e o significado do “petróleo chique”
A confirmação da presença de hidrocarbonetos foi divulgada pela Agência Petrobras em 14 de agosto de 2026, após a constatação do intervalo portador de óleo por meio de perfis elétricos e indicativos em rocha. A presidente da estatal, Magda Chambriard, classificou o resultado como a confirmação do otimismo da companhia em relação à margem equatorial brasileira. “Essa primeira descoberta na costa do Amapá é resultado da dedicação e da competência da Petrobras, que está comprometida com a recomposição das reservas de petróleo e com a segurança energética do país”, declarou.
O que torna o achado especialmente relevante é a qualidade preliminar do óleo. As amostras retiradas do poço Morpho, ainda em análise no Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação da companhia (Cenpes), no Rio de Janeiro, indicam um grau API entre 35 e 40. Na indústria, o grau API é a escala que mede a densidade do petróleo bruto, e a lógica é inversa à da densidade: quanto maior o número, mais leve é o óleo e, em geral, maior tende a ser seu valor para as refinarias, por exigir menos processamento para virar gasolina, diesel e querosene de aviação.
Caso o resultado preliminar se confirme, o óleo do poço Morpho estará entre os mais leves já descobertos no Brasil, em patamar semelhante ao dos petróleos produzidos na Guiana pela ExxonMobil, cujos principais campos apresentam API entre cerca de 32° e 34°. O campo de Liza, por exemplo, tem API de 31,9°, enquanto o poço exploratório Unity Gold alcança 34°. A comparação com o pré-sal brasileiro também ajuda a dimensionar o resultado: Tupi, o maior campo produtor do país, tem API em torno de 28°, Búzios fica perto de 28,5° e Mero varia entre 29° e 30°, dependendo da corrente analisada. Já óleos como o de Marlim, na Bacia de Campos, com API entre 20° e 23°, e o de Jubarte, de cerca de 17°, são considerados mais pesados.
Limites do indicador e o que ainda falta confirmar
Especialistas e geólogos ressalvam, no entanto, que o grau API não determina sozinho a qualidade de um petróleo nem o valor de seu barril. O teor de enxofre, a acidez, a composição química e o perfil de destilação também interferem na avaliação feita pelas refinarias e pelo mercado. Tupi, por exemplo, apresenta teor de enxofre entre 0,26% e 0,37%, Búzios fica na faixa de 0,31% a 0,33% e Mero em aproximadamente 0,30% a 0,31%, o que significa que importantes campos do pré-sal brasileiro também produzem o chamado petróleo doce, de baixo teor de enxofre.
Além disso, não existe um petróleo ideal para todas as refinarias, pois cada unidade é projetada para processar determinadas características de óleo. No Brasil, as refinarias foram tradicionalmente preparadas para o petróleo mais pesado da Bacia de Campos e, com a descoberta do pré-sal, passaram por ajustes para se adaptar a um óleo mais leve, além de a Petrobras importar petróleo justamente para equilibrar as misturas. Por isso, se o petróleo da Foz do Amazonas seguir as características da Guiana e apresentar API na casa dos 30° ou acima, estará em faixa semelhante à de importantes petróleos do pré-sal brasileiro e próxima das principais correntes produzidas hoje na Guiana.
As amostras do poço Morpho viajaram mais de 2 mil quilômetros por via marítima entre a costa do Amapá e o Rio de Janeiro, em condições controladas para preservar as características originais do óleo e permitir uma avaliação detalhada de densidade, composição e potencial comercial. Por esse motivo, o material não pôde ser transportado por via aérea. Os resultados finais, que precisam confirmar não apenas o grau API, mas também outras características físico-químicas, devem ser conhecidos nas próximas semanas.
A ampliação da campanha exploratória
A descoberta impulsionou a estatal a ampliar sua ofensiva na região. No início de setembro, o Ibama retificou a Licença de Operação nº 1684 e autorizou a Petrobras a perfurar três novos poços contingentes — Manga, Crotalus e Morpho Extensão — além da conclusão do poço Morpho, já em andamento. Com isso, a companhia deixa para trás a fase inicial de perfuração única e passa a executar um plano de quatro perfurações no bloco FZA-M-59, localizado na costa do Amapá. Os nomes dos poços, inspirados em fruta, serpente e borboleta, refletem a padronização da campanha.
A Petrobras é operadora do bloco e detém 100% de participação na área, adquirida na 11ª Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), em 2013, sob regime de concessão. A estatal mantém ainda processos de licenciamento em outros blocos da região, como 57, 86, 88, 125 e 127, todos arrematados na mesma rodada. Em junho do ano passado, adquiriu ainda 10 blocos na Bacia da Foz do Amazonas no 5º Ciclo de Oferta Permanente, todos em parceria com a Exxon, embora vá operar apenas cinco. A expectativa da companhia é que, caso os resultados confirmem a viabilidade comercial, a produção possa começar em até sete anos, consolidando a Margem Equatorial como uma das áreas mais promissoras para o futuro energético do Brasil. A estatal prevê investir US$ 2,5 bilhões em 15 poços na Margem Equatorial até 2030.
O embate ambiental e institucional
A expansão, no entanto, não ocorre sem controvérsia. O Ministério Público Federal apontou divergências entre as informações apresentadas pelo Ibama em audiência e os documentos oficiais. Em abril de 2025, representantes do órgão afirmaram que a atividade seria pontual, com duração de cerca de seis meses, mas os documentos administrativos indicam uma campanha de quatro poços, com atividades previstas até 2029. Para o MPF, essa diferença compromete a transparência do processo e dificulta a avaliação dos impactos ambientais, alertando que uma operação prolongada pode gerar impactos acumulados sobre a fauna marinha, a pesca artesanal e as comunidades tradicionais da região.
A licença também impõe condições ambientais, como inspeções prévias nas sondas, proibição de descarte de resíduos no mar e manutenção de centros de atendimento à fauna, além de exigir que a Petrobras apresente ao Ibama, em até 30 dias, um plano atualizado das atividades. Organizações ambientalistas, por sua vez, criticam a decisão, que ocorreu às vésperas da COP30, realizada em Belém, e apontam risco à maior faixa contínua de manguezais do mundo e ao Grande Sistema de Recifes da Amazônia, além de um suposto enfraquecimento do compromisso climático do país em meio à transição energética. A estatal, por sua vez, defende que sua atuação está alinhada à estratégia de recomposição das reservas e ao atendimento à demanda nacional de energia durante a transição energética justa.
A descoberta tem implicações diretas e imediatas sobre a política energética e a economia do país. Se confirmada a qualidade do óleo, o achado pode aumentar a margem de lucro e a eficiência da Petrobras, reforçar a segurança energética nacional e reposicionar a Margem Equatorial como nova fronteira exploratória, em um momento em que o pré-sal, embora ainda dominante, enfrenta desafios de maturação. Ao mesmo tempo, o avanço coloca o governo Lula diante de um duplo compromisso: de um lado, o discurso de liderança climática, simbolizado pela COP30 e pela transição energética justa; de outro, a aposta na expansão da produção de combustíveis fósseis, que respondem por parcela significativa das emissões globais. O embate entre o potencial econômico do “petróleo chique” e as exigências ambientais e de transparência promete marcar a agenda política e institucional nos próximos meses, com o MPF e a sociedade civil acompanhando de perto cada etapa do licenciamento.
A confirmação da qualidade do óleo leve do poço Morpho, aliada à ampliação da campanha exploratória autorizada pelo Ibama, coloca a Margem Equatorial no centro do debate sobre o futuro energético do Brasil, equilibrando a promessa de uma nova fronteira de riqueza com os riscos ambientais e as cobranças por transparência que ainda cercam a maior aposta exploratória da Petrobras na costa do Amapá.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.















