Desde que o ser humano aprendeu a contar os dias, também passou a marcar a data do fim deles. A História é um desfile interminável de profetas do apocalipse, alguns de túnica e barba longa, outros empunhando gráficos, planilhas e modelos matemáticos. Se antes o fim do mundo vinha em forma de trombetas celestiais e Juízo Final, agora ele chega silencioso, previsto por cientistas trancados em gabinetes refrigerados ou confinados em laboratórios, munidos de equações e café requentado.
A mais antiga previsão apocalíptica conhecida tem cerca de 4.800 anos. De lá para cá, surgiram versões para todos os gostos — incluindo, mais recentemente, até uma nova Arca de Noé, repaginada, provavelmente com Wi-Fi e gerador solar. A maioria dessas profecias nasceu no campo religioso, mas, em 1960, a ciência resolveu entrar oficialmente na disputa pelo anúncio do fim.
Naquele ano, Heinz von Foerster, Patricia Mora e Lawrence Amiot, pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, publicaram um estudo que pretendia calcular cientificamente o “Dia do Juízo”. Usando modelos matemáticos e tendências observadas na sociedade ocidental, o trio cravou uma data nada modesta: 13 de novembro de 2026 seria o “Doomsday”, o dia em que o mundo simplesmente não aguentaria mais existir.
O apocalipse científico não viria com bombas nucleares, asteroides gigantes ou vulcões cuspindo fogo, mas com algo bem mais prosaico — e, ironicamente, bem humano: gente demais. Segundo os pesquisadores, os avanços da medicina estavam inflando perigosamente a curva populacional global. Em 2026, afirmaram, o planeta entraria em colapso porque a produção de alimentos não conseguiria acompanhar tanta boca para alimentar. O resultado seria o caos absoluto e, claro, o fim da vida na Terra.
Ciência desmente ciência
À época, a população mundial girava em torno de três bilhões de pessoas. Hoje, já passamos dos oito bilhões — o que, à primeira vista, parece dar algum crédito tardio aos matemáticos do apocalipse. Para completar o roteiro, bilionários do Vale do Silício e do mercado global parecem ter levado a ideia a sério: há relatos de bunkers luxuosos, refúgios subterrâneos e planos de sobrevivência dignos de filmes de ficção científica.
Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e outros figurões estariam se preparando “por via das dúvidas”, como quem compra guarda-chuva ao ver uma nuvem suspeita no horizonte.
Mas, como costuma acontecer com previsões do fim do mundo, a própria ciência tratou de desmentir a ciência. Estudos posteriores apontaram que os modelos de 1960 ignoraram fatores decisivos, como a queda nas taxas de natalidade em diversos países e os avanços extraordinários na produção e engenharia de alimentos.
Em outras palavras: o planeta não acabou, o supermercado continua abastecido e o apocalipse, mais uma vez, ficou para depois.
No fim das contas, muda o figurino, mas o enredo é o mesmo. Saem os profetas bíblicos, entram os doutores de jaleco. O fim do mundo segue sendo anunciado com pompa — ora por revelação divina, ora por equação matemática —, enquanto a humanidade segue vivendo, errando, se multiplicando e adiando, com notável teimosia, o próprio ponto final.














