Estudo sobre crime organizado revela que Comando Vermelho controla garimpos em reservas indígenas na Região Norte e em áreas sob responsabilidade do Governo Federal
Brasília – Apresentado durante a COP30, em Belém, o estudo “Cartografias da Violência na Amazônia 2025”, revelou que o governo federal perde, a cada hora que passa, o controle da infiltração de facções criminosas nas grandes cidades da Região Norte do país, e também nos rincões sob sua jurisdição constitucional: reservas indígenas e terras públicas.
Os sintomas da incompetência do governo federal são explícitos: Pará e Amazonas já bateram recordes de apreensão de cocaína e skank em 2025, e o contrabando de ouro está sem controle.
O estudo alarmante divulgado durante a Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP30), em Belém, revela que 17 facções criminosas, incluindo o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), operam ativamente na Amazônia Legal, dominando mais de um terço dos seus 772 municípios.
A 4ª edição do “Cartografias da Violência na Amazônia” aponta para uma expansão sem precedentes do crime organizado, transformando a região em um hub estratégico para o tráfico internacional de drogas e fomentando atividades ilegais como o “narcogarimpo”, com sérias implicações para a segurança pública, a soberania nacional e as comunidades tradicionais, inclusive indígenas.
O levantamento, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com entidades como os institutos Mãe Crioula e Clima e Sociedade, é considerado um dos mais robustos sobre o avanço dessas organizações na floresta.
A pesquisa foi realizada de novembro de 2024 a setembro de 2025 e sua metodologia incluiu análise de documentos, entrevistas com agentes de segurança pública, líderes de comunidades tradicionais, moradores de municípios de interesse, informações jornalísticas, divulgações de operações policiais e pesquisas de campo in loco.
O Comando Vermelho, facção fundada no Rio de Janeiro há mais de quatro décadas, consolidou sua hegemonia, estendendo seu domínio por 202 cidades da Amazônia Legal.
Em 286 municípios da região, a facção carioca possui presença, e em 84 dessas localidades, como em Santana, no Amapá, há disputas territoriais com outros grupos. O estudo aponta que o CV mantém forte atuação nas rotas fluviais, especialmente no eixo do Rio Solimões, em articulação com a produção peruana e cartéis colombianos, escoando drogas para centros portuários estratégicos como Manaus, Santarém, Barcarena, Belém e Macapá.
A facção também atua como “síndico do garimpo” em algumas regiões, cobrando taxas pela exploração, como na terra indígena Sararé, em Mato Grosso, onde dominou a maior parte da atividade ilegal.
Em contraste, o Primeiro Comando da Capital (PCC), hegemônico em São Paulo, está presente em 90 cidades da Amazônia Legal. Pesquisadores interpretam que, após dominar a “rota caipira” (que liga a fronteira da Bolívia a Estados do Sudeste), a facção busca estabilização na Amazônia, apesar da presença massiva do CV.
O PCC intensificou o uso de rotas aéreas clandestinas, aproveitando pistas de pouso em garimpos ilegais e unidades de conservação. Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que a região se tornou “estratégica não apenas para o tráfico na Amazônia, mas para o tráfico internacional de drogas”, com estimativas de produção de uma tonelada de pasta base de cocaína por dia no Peru, adquirida por cerca de US$ 1 mil e revendida na Europa por até US$ 50 mil.
A lista completa das 17 facções ativas na Amazônia Legal, conforme o estudo, inclui:
- Comando Vermelho (CV)
- Primeiro Comando da Capital (PCC)
- Amigos do Estado (ADE)
- Bonde dos 40 (B40)
- Primeiro Comando do Maranhão (PCM)
- Família Terror do Amapá (FTA)
- União Criminosa do Amapá (UCA)
- Comando Classe A (CCA)
- Bonde dos 13 (B13)
- Bonde dos 777 (dissidência do CV)
- Tropa do Castelar
- Piratas do Solimões
- Bonde do Maluco (BDM)
- Guardiões do Estado (GDE)
- Trem de Aragua (Venezuela)
- Estado Maior Central (EMC) (Colômbia)
- Ex-Farc Acácio Medina (Colômbia)
Esse poderio das facções confirma outro relatório que atesta a perda de poder dos grandes cartéis de drogas nos países produtores: Colômbia, Peru e Bolívia.
O estudo também notou a atuação associada da facção carioca Amigos dos Amigos (ADA) com o Bonde dos 40 em municípios maranhenses. Embora não contabilizados como facção autônoma, sua presença é vista com atenção por indicar um possível aumento de atuação futura. A pesquisa constatou ainda que, em três anos de mapeamento, o Comando Vermelho está em consolidação, enquanto o PCC busca estabilizar sua influência, com atuação mais localizada em Coari (AM) e Estados como Roraima. Outras facções, como o Bonde dos 40, operam no Maranhão e Mato Grosso (26 municípios), a Família Terror do Amapá no Amapá e Pará (8 municípios), e o Comando Classe A em 4 municípios.
O estudo aponta que 344 dos 772 municípios amazônicos (44,6%) apresentam alguma evidência de presença de facções, demonstrando um processo de capilarização que ultrapassa os grandes centros urbanos. Desse total, 258 municípios (33,4%) registram a atuação de apenas uma facção, enquanto 86 (11,1%) veem disputas entre duas ou mais organizações criminosas. Este cenário representa quase o dobro do número de municípios com facções mapeadas na 2ª edição do estudo, em 2023, que registrava 178 municípios, evidenciando uma rápida expansão territorial.
As consequências dessa expansão são severas. A Amazônia Legal registrou 8.047 mortes violentas intencionais em 2024, uma taxa de 27,3 assassinatos por 100 mil habitantes, 31% superior à média nacional. O Amapá se destacou como o Estado mais violento da região e do País, com taxa de 45,1 por 100 mil habitantes. Estados como Acre (com facções em todos os seus 22 municípios), Mato Grosso (92 municípios, 65,24%) e Pará (91 municípios, 63,19%) são os mais afetados.
A atuação de facções afeta diretamente comunidades indígenas, que são utilizadas como pontos de passagem e estrutura logística para o transporte de drogas e outras atividades ilícitas. A terra indígena Sararé, em Mato Grosso, e a Terra Indígena Yanomami, em Roraima, registraram desmatamentos significativos em 2024, evidenciando a pressão crescente sobre essas áreas. Ilona Szabó, presidente do Instituto Igarapé, defende que o combate às facções deve incluir alternativas econômicas para a população local, buscando transformar “ecossistemas de economias ilícitas em ecossistemas de empreendimentos verdes” para manter a floresta viva e evitar a cooptação de moradores.
Este cenário de disputa na rota amazônica se intensificou após 2016, com a morte do narcotraficante Jorge Rafaat, o “Rei da Fronteira”, no Paraguai, o que teria fortalecido o PCC. Pesquisadores avaliam que o atual momento do narcotráfico na Amazônia indica uma transição da consolidação de rotas para um maior controle territorial, característica do Comando Vermelho, que busca a ampliação de serviços nessas cidades. O PCC, por sua vez, focado no “atacado” e no tráfico internacional, concentra-se em cidades estratégicas para a exportação de drogas. A pesquisa sublinha que a expansão das facções constitui um dos principais desafios à segurança pública, à governança territorial e à soberania nacional na Amazônia.

Ofensiva das facções no Pará
No Pará, a ofensiva das facções criminosas é estarrecedora. Segundo o estudo adverte:
☞ 91 dos municípios paraenses têm presença de facções (aprox. 63% do estado).
☞ O estado está entre os três mais afetados proporcionalmente (junto com Mato Grosso e Acre).
☞ A presença de facções está fortemente associada a áreas de fronteira florestal, garimpo ilegal, extração de madeira, rotas fluviais e polos urbanos estratégicos.
Ainda segundo o estudo, as áreas de maior risco no estado são compostas por três grandes eixos críticos:
a) Eixo Tapajós – BR-163 – garimpo e madeira
- Municípios como Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso aparecem como áreas de forte infiltração criminosa.
- O crime organizado opera:
- controle de portos clandestinos,
- proteção armada para garimpos ilegais,
- rotas de fuga e lavagem de ouro.
b) Calha Norte
- Região de difícil presença estatal (Oriximiná, Almeirim, Monte Alegre).
- Facções se beneficiam do isolamento geográfico e do fluxo transfronteiriço de mercadorias ilícitas.
c) Região Metropolitana de Belém
- Belém, Ananindeua e Marituba mantêm altos índices de violência letal.
- Disputa por pontos de tráfico e controle de bairros periféricos permanece intensa.
☛ Altamira
Um dos municípios interiores com forte domínio de facções. O relatório menciona que facções regionalizadas, como a Comando Classe A (CCA), têm se expandido em Altamira. Há associação com rotas logísticas, extração ilegal e disputas territoriais.
☛ Itaituba
Aparece no relatório como município-eixo do garimpo e madeira ilegal no eixo Tapajós/BR-163, afetado pela presença de organizações criminosas que exploram essas rotas.
☛ Novo Progresso
Outro município que é citado em conexão com avanço da presença de facções em áreas de fronteira florestal, extração e rotas de ilicitude.
☛ Belém (capital e região metropolitana)
A região metropolitana da capital aparece com alta incidência de violência letal em bairros periféricos, além de disputa por controle territorial, tráfico e presença de facções na periferia.
☛ Marabá
Município destacado por sua localização estratégica e influência de facções, com implicações para carregamento de madeira, minério e rotas interiores.
Com o avanço das facções mais organizadas, as forças de segurança do Estado, debalde o que é propagandeado nos meios de massa de comunicação, não retrata a situação de calamidade da segurança pública. As conexões entre crime organizado e crimes ambientais estão se consolidando como tática de atuação do Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que disputam entre si o controle das rotas de transporte de drogas, armas e ouro.
O Pará aparece como um dos estados onde mais se sobrepõem facções e crimes ambientais, conforme o relatório:
- Garimpo ilegal (ouro)
- Extração irregular de madeira
- Grilagem e avanço sobre unidades de conservação
- Lavagem de dinheiro com o contrabando de madeira e do ouro através de empresas de fachada
- Cobrança de taxas (“pedágio”) por rotas fluviais.
As facções atuam como garantidoras armadas do funcionamento dessas atividades e também usam a logística dos ilícitos ambientais para transportar armas e drogas.
Violência letal
O Pará registra altos níveis de homicídios em municípios com forte presença de facções. O relatório identifica correlação entre: aumento da disputa territorial, avanço de economias ilegais e o crescimento da violência contra lideranças ambientais e comunitárias. Regiões de floresta em conflito territorial apresentam risco elevado para indígenas, quilombolas, ribeirinhos e agricultores.
Infraestrutura criminosa
O relatório descreve que no Pará há portos clandestinos ao longo de rios extensos — Tapajós, Xingu, Tocantins. Rotas fluviais como principal meio de transporte de drogas e ouro ilegal. Acesso facilitado a armamentos, inclusive transfronteiriços e pontos de corrupção institucional, sobretudo em áreas de fiscalização ambiental e fundiária.

Por que o Pará é estratégico para o crime organizado
Três fatores principais foram identificados como essenciais para o crescimento da presença do crime organizado na Amazônia:
- Geografia logística – rede hidrográfica massiva, acesso ao Atlântico, BR-163.
- Economias ilegais lucrativas – ouro, madeira, terras, tráfico.
- Baixa presença estatal – fiscalização limitada, difícil acesso, baixa cobertura policial em zonas remotas.
O relatório enfatiza que, sem atuação territorial integrada (União, Estado, municípios), o Pará permanecerá vulnerável.
COP30 discutiu o relatório
Durante a COP30, realizada em Belém, os autores do estudo evidenciaram que:
- O Pará é exemplo concreto de como crime organizado afeta metas climáticas.
- A destruição ambiental passa por redes de crime transnacional, e não apenas pequenos infratores.
- O fortalecimento institucional na Amazônia precisa incluir segurança pública, inteligência e controle de ilícitos.
Recomendações específicas para o Pará
O relatório aponta diretrizes como o reforço da presença permanente do Estado em regiões críticas (Tapajós, Calha Norte). A integração entre órgãos ambientais e de segurança. Investimento em inteligência para rastreamento de ouro e madeira. Programas sociais e infraestruturais para reduzir a dependência econômica de atividades ilegais e maior fiscalização de portos e hidrovias.
O Estado do Pará aparece como uma das áreas mais críticas da Amazônia no avanço do crime organizado, tendo impacto direto na segurança pública, na proteção ambiental e na agenda climática. O relatório destaca que enfrentar o problema requer ação territorial integrada, inteligência e presença estatal contínua.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















