No tribunal selvagem das redes sociais — onde a versão se sobrepõe aos fatos, militantes posam de juízes e qualquer narrativa sem lastro vira “denúncia” — o jornalismo sério precisa reafirmar seu papel: investigar, confrontar documentos, ouvir todos os lados e expor a verdade, mesmo quando ela desagrada os fabricantes de teorias.
Foi esse compromisso, e não a compulsão por lacração digital, que levou o portal Ver-o-Fato a examinar a suspeita espalhada nas redes de que o Instituto de Gestão Previdenciária e Proteção Social do Estado do Pará (IGEPPS), antigo Igeprev, teria aplicado recursos da Previdência Estadual no já falido Banco Master — epicentro de um escândalo bilionário que culminou na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro quando tentava deixar o país em um jatinho.
O caso Master acendeu alertas sobre a governança dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) em muitos Estados e Municípios. Documentos revelam que diversas entidades Brasil afora despejaram valores astronômicos em títulos do banco, num comportamento que autoridades classificam como temerário.
Ao surfar nesse contexto, uma página do Instagram ligada ao MBL Pará – hoje partido Missão – assinada por um militante identificado como Máximo Lima, apontou o dedo para o Pará e publicou uma longa acusação sem apresentar qualquer documento que a sustentasse.
Segundo ele, “circulam nos bastidores gravíssima suspeita” de que o IGEPPS teria arriscado o futuro dos aposentados paraenses ao investir no Banco Master, colocando na berlinda tanto o ex-presidente Giussepp Mendes quanto o atual gestor, Washington “Neném” Albuquerque. A publicação insinua, ainda, um suposto “balcão de negócios” envolvendo governadores e aliados.
Diante da gravidade das afirmações, Ver-o-Fato buscou provas, documentos e as versões oficiais — tarefa que diferencia jornalismo de militância digital. O resultado obtido desmonta a narrativa difundida nas redes.
Veto expresso de investimento
Documentos fornecidos por Giussepp Mendes, ex-presidente do Instituto, mostram exatamente o oposto do que foi divulgado pela página política. Nenhuma aplicação no Banco Master foi autorizada. Ao contrário: “houve veto expresso, por escrito, impedindo qualquer investimento”.
Atas e pareceres de 2024 comprovam isso. Em reunião extraordinária da Diretoria Executiva, registrada na Ata nº 46/2024 de 9 de agosto daquele ano, o Igeprev reconhece que, embora o Banco Master tivesse apresentado documentação regular, ele não atendia aos critérios de segurança, liquidez e risco previstos na Política de Investimentos. A orientação de Mendes foi clara: proibir qualquer aporte, blindando a Previdência Estadual de um golpe que atingiu outros RPPS pelo Brasil.
Mendes foi categórico ao se pronunciar: “sempre zelei pela minha reputação e, enquanto estive à frente do IGEPPS, atuei com absoluta responsabilidade na proteção dos recursos do Estado do Pará. Todas as minhas decisões seguiram os princípios da Administração Pública: legalidade, moralidade, eficiência, publicidade e impessoalidade.”
E reforçou: “qualquer operação envolvendo o Banco Master foi integralmente vetada por mim — medida preventiva e técnica. E isso será facilmente comprovado no curso das investigações. O Estado do Pará não aparece em qualquer irregularidade, e não aparecerá.”
O ex-presidente encaminhou ao portal vários documentos que confirmam suas decisões e concluiu criticando o uso político das redes:
“Matérias sensacionalistas não encontram respaldo nos fatos. Minha trajetória sempre foi marcada pela defesa do interesse público e pela integridade na gestão.”
“RPPS mais eficiente do país”, diz Neném Albuquerque
O atual presidente do Instituto, Washington “Neném” Albuquerque, também respondeu, em nota oficial:
“O IGEPPS não possui qualquer investimento no Banco Master. Todas as aplicações financeiras do Instituto estão disponíveis para consulta pública no site do órgão. O IGEPPS age com responsabilidade e transparência e hoje está entre os três RPPS mais eficientes do país no ranking nacional de investimentos previdenciários.”
Ao fim da apuração, os fatos — sustentados por atas, pareceres e decisões formais — se impõem sobre as versões produzidas no submundo da disputa política nas redes. Entre jornalismo e militância digital, a diferença continua a mesma: um trabalha com provas; o outro, com narrativas e fake news.
DOCUMENTOS

















