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Home Colunas

PARÁ – A seita sob duas rodas: os grupos de trabalhadores por aplicativo, tretas e regras

Emanuel Maciel por Emanuel Maciel
16/01/2026
in Colunas
PARÁ – A seita sob duas rodas: os grupos de trabalhadores por aplicativo, tretas e regras

Imagem Ilustrativa

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Está viralizando nas redes sociais o vídeo de um ritual de adesão de novos membros do grupo Guardiões, que é um agrupamento de motociclistas de aplicativo que visa sua autoproteção, no melhor estilo “um por todos e todos por um”.

Esse grupo já conta com centenas de motociclista em Belém e Região Metropolitana, mas agora faz o trabalho de se expandir para o interior do estado do Pará – tanto é que as imagens que viralizaram ocorrem em São Miguel do Guamá.

Não faz muito tempo, eles ficaram conhecidos por prometer parar a capital e impedir a realização da COP-30 caso operações de trânsito contra motociclistas continuassem.

Por volta de 2018, surgido durante pausas para o lanche, os grupos de trabalhadores por aplicativo começaram a ganhar força entre os motoristas de carro. Cansados de inúmeros assaltos, problemas com passageiros e com o aplicativo, a ideia era se unir para solidariedade. A roda furou? Vamos lá ajudar. Passageiro malaco? Vamos lá dar o apoio. Tá com vontade de ir ao banheiro? Tem a casa do parceiro mais próximo.

Com pouco tempo, os grupos foram se modernizando: os membros entravam em aplicativos onde era possível ver a posição de todos durante as horas de trabalho, além disso, ocorria a comunicação via um aplicativo de rádio e grupos de WhatsApp. Tudo funcionava e pelos menos dois grande grupos agrupavam os motoristas membros.

Mas como você sabe, toda boa ideia não resiste ao ímpeto humano e aos poucos pode se corromper. Sabe o livro “A Revolução dos Bichos”? Pois é.

O que era decisão coletiva foi aos poucos se diluindo e virando poder de administradores dos grupos no WhatsApp. Quando os administradores brigavam entre si, surgia um novo grupo, geralmente com o nome parecido. Dentro dos grupos foram surgindo facções, não só por afinidade, mas também por lanches juntos ou parentesco.

Um grande líder era o que sabia atender bem as inúmeras facções, fazendo concessões e agrados, mas também sendo garantista da lei.

Enquanto novos grupos foram surgindo, os grupos maiores eram vanguarda na criação de linguagem e novas engrenagens de funcionamento. Todo membros deveria adquirir um adesivo da equipe e saber a linguagem própria dos motoristas.

Código de comunicação

Na tentativa de driblar possíveis suspeitos, foi adotada uma forma de comunicação bastante conhecida entre membros de forças de segurança, o chamado “Código Q” . A alfabetização nesta linguagem se tornou imprescindível e fator de expulsão caso não fosse seguida. Resumindo bem: QAP: Estou na escuta/Atento; QSL: Entendido/Recebi e entendi; QTA: Cancelar; QTH: Localização; TKS: Obrigado; 5.0: Ruim; 5.5: Bom; dentre outras que foram sendo adicionadas e resinificadas para realidade cotidiana do motorista.

Quem não fazia parte de uma equipe organizada, era chamado de “Lobo Solitário”, o que com o tempo se tornou muito complicado já que se ventilava a ideia de que esses eram as principais vítimas dos bandidos.

Então, se você é Lobo e quisesse entrar no grupo, primeiro você tinha que ser indicado por um membro, o que não era tão difícil, já que bastava algum bate-papo com um colega de profissão durante uma parada para lanche. Ele lhe indicava o contato de alguém da diretoria e começava um tipo de processo seletivo. Você era entrevistado e, se tudo desse certo nesta etapa, eles marcavam para você aparecer em uma reunião do grupo para enfim poder se dizer um membro.

As reuniões ocorriam em lugares como o estacionamento do Mangueirão ou embaixo do elevado da Augusto Montenegro. Os carros com adesivo começavam a chegar e as pautas eram lidas, mas antes, você passava por nova entrevista, mostrava seu aplicativo, comprava o adesivo e, finalmente, era adicionado no grupo e apresentado aos demais.

As pautas envolviam tretas, acontecimentos cotidianos e reafirmação de como o grupo operava. Agora você não estava só.

Com o tempo alguns grupos foram exigindo presença – com chamada diária – e até pagamentos de mensalidade. Ficou dois dias sumido, era chamado para dar explicação. Lembrando que existia um sindicato, mas os diretores e membros desses grupos em sua maioria eram contra por qualificarem esse tipo de organização como corrupta, burocrata e tirana.

Em meados de 2019 e 2020, os grupos já estavam muito fortalecidos. Lembrando que era o ápice do FlaxFlu político entre PT e Bolsonaro, o que também se reproduziu nos grupos. Uma simples sugestão de protesto contra o preço das corridas ou da gasolina, poderia ser interpretado por um administrador bolsonarista como ataque ao seu, na época, presidente – o que por sua vez poderia significar sua expulsão.

Regras, porrada e sem política

Os grupos seguiam regras e uma delas era de não falar de política porque sempre dava em confusão, exclusão e até ameaças. A grande maioria dos motoristas da época eram a favor de Bolsonaro, principalmente pelo ressentimento de terem perdido seus empregos durante o final da administração da Dilma. Então apesar da regra constitucional da comunidade, ela era sempre flexibilizada para defender um lado, independente de qual. Teve caso de administrador expulsando membro por propor uma nova logo que continha vermelho entre as cores. Era nesse nível, mas em linhas gerais os grupos funcionavam.

Os grupos continuaram se desenvolvendo e se multiplicando a cada nova porrada entre os membros. Algumas equipes começaram a ter a fama de mais unidas, outras de playboy, mas uma delas era conhecida por ser perigosa. Era ventilado que essa tal tinha feito um arranjo com seus membros para comprar armas de fogo para sua proteção, seja contra bandidos, contra outras equipes e até para “tribunais”. Não sei até que ponta era verdade, mas causavam temor.

Se houvesse um assalto e o suspeito possivelmente tivesse escondido na baixada, em uma área vermelha da cidade, essa equipe era conhecida por mobilizar seus membros para fazer rondas na região. Em alguns casos, eles até eram recebidos por chefes do crime organizado para reaver o prejuízo e pegar o responsável. Será?

Com os grupos já consolidados, começou a surgir rivalidade, nascidas principalmente de tretas antigas e torneios de futebol. Havia o pensamento de que o motorista estava mergulhado na vida do trabalho e estava perdendo a dimensão do lazer, muito importante para uma vida feliz e saudável. Assim surgiram os torneios de futebol das equipes de motoristas por aplicativo.

O campeonato era levado a sério. Muitas equipes marcavam treinos semanais e o ritmo era intenso. A porrada era certa nas quadras quando clima esquentava, o que muitas vezes passava para as ruas, com membros de grupos rivais fechando uns aos outros. O clima era tenso.

A partir daí foram chegando as novas modalidades de aplicativo, dentre eles os entregadores e motociclistas que, já tendo a experiência de grupos de mototaxistas, aprenderam rápido a desenvolver seu nível de organização. Hoje, nas ruas, mexer com um motoqueiro é certo que mais tarde terá no mínimo um buzinaço na frente da sua residência.

Esse caso da equipe Guardiões demonstra que, aparentemente, agora as equipes começaram a ter seu arranjo inspirado na religião, com um grande líder e rituais. Nas redes sociais alguns comentários chamam de seita. Fato é que, após alguns colegas de profissão zoaram a cerimônia, membros do Guardiões foram até um ponto de encontro de trabalhadores por aplicativo fazer ameaças contra os engraçadinhos. Deu até polícia.

Onde será que isso vai dar?

Após cerimônia de adesão de novos membros: zoação e confusão entre motociclista por aplicativo

Saiba mais: pic.twitter.com/Zv8KsyXfiU

— VER-O-FATO (@verofato) January 15, 2026
Tags: brigasDestaquemotociclista de aplicativomotoristas de aplicativoregras e controleseita
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Emanuel Maciel

Emanuel Maciel

Assina a coluna Observatório do Cotidiano desde 2020, além de colaborador com notícias do dia a dia no Ver-o-fato.

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