Relator no Tribunal de Contas da União (TCU) de um dos processos mais sensíveis do sistema financeiro, o do Banco Master, o ministro Jhonatan de Jesus é personagem central de um rastro de R$ 42 milhões em emendas parlamentares destinadas a Roraima que resultaram em obras inacabadas, asfaltos precários e ausência quase total de prestação de contas — especialmente no município de Iracema, reduto político de aliados próximos e principal destino dos recursos. É o que aponta matéria do Estadão desta segunda-feira, 12.
Entre 2020 e 2023, período em que ainda exercia mandato de deputado federal por Roraima, Jhonatan de Jesus indicou dezenas de emendas parlamentares que, na prática, não se converteram em melhorias efetivas para a população. Levantamento e vistorias feitas pelo Estadão revelam estradas vicinais prometidas e nunca recuperadas, trechos recém-asfaltados já tomados por rachaduras, ruas que viram lama no inverno amazônico e até um conjunto habitacional que deveria ter 300 casas, mas onde existe apenas uma construção abandonada.
A maior parte dos recursos foi direcionada a Iracema (RR), município a 95 quilômetros de Boa Vista, governado até 2024 por Jairo Ribeiro (Republicanos), aliado histórico do hoje ministro do TCU. Só a prefeitura local recebeu R$ 11,7 milhões em emendas Pix sem apresentar qualquer relatório de execução, em descumprimento direto a exigências do Supremo Tribunal Federal (STF) e do próprio TCU.
No total, R$ 25,8 milhões enviados por Jhonatan de Jesus via emendas Pix para Roraima não tiveram prestação de contas formalizada.
Estradas fantasmas e obras frágeis
A reportagem percorreu mais de 60 quilômetros de estradas da zona rural de Iracema que deveriam ter sido recuperadas ou asfaltadas com recursos das emendas. O cenário encontrado foi de abandono: vias de terra esburacadas, trechos intrafegáveis no período chuvoso e ausência de qualquer sinalização de obras concluídas.
Um dos exemplos mais emblemáticos é a vicinal 3, cujo asfaltamento custou R$ 13,6 milhões. Embora a obra esteja “em fase final” nos registros oficiais, o asfalto recém-aplicado já apresenta rachaduras visíveis e espessura inferior à prevista no projeto técnico — menos de cinco centímetros em vários pontos.
Os planos de trabalho apresentados pela prefeitura trazem descrições genéricas, erros grosseiros e sequer foram aprovados pelo governo federal. Em um dos documentos, a obra aparece localizada em outro município, São Luiz, a mais de 200 quilômetros de Iracema. Auditorias também identificaram a movimentação de diferentes emendas em uma mesma conta bancária, prática expressamente proibida.
Emendas, política e investigação criminal
Até 2024, Iracema era administrada por Jairo Ribeiro, preso no ano passado sob acusação de compra de votos na eleição municipal. Ele conseguiu eleger como sucessora a aliada Marlene Saraiva, também do Republicanos. A investigação aponta ainda suspeitas de ampliação artificial do eleitorado em um dos principais distritos do município.
Depoimentos obtidos pela reportagem citam repasses de até R$ 250 mil em caixa dois durante a campanha e indicam possível enriquecimento ilícito do ex-prefeito, com aquisição de posto de gasolina, farmácia, hotel e até uma draga para extração de areia de rios. O caso segue em apuração.
Ribeiro sempre foi tratado como aliado de primeira hora de Jhonatan de Jesus, que o chamava publicamente de “irmão”. Quando o então deputado foi aprovado para o TCU, o prefeito chegou a mandar confeccionar camisetas celebrando a amizade.
Vila esquecida e promessas vazias
Na Vila Campos Novos, maior distrito de Iracema e um dos mais pobres, foram prometidos R$ 4,5 milhões para pavimentação de ruas e construção de calçadas. O que se vê são obras incompletas, ruas de terra e moradores convivendo com alagamentos e falta de água.
“Essa rua vira uma piscina. Não passa carro, não passa gente. A gente reclama, mas não adianta”, relatou a aposentada Alzerina Brito, de 67 anos, que precisou cavar um poço para garantir água.
Moradores chegaram a arrancar placas que anunciavam “obra concluída”, indignados com o abandono. “Colocaram a placa, mas a rua continua do mesmo jeito”, disse o venezuelano Henry Cocho, que vive há dez anos na localidade.
Suspensão de repasses e papel do ministro
Diante da ausência de transparência, o ministro do STF Flávio Dino chegou a suspender novos repasses de emendas para Iracema e outros municípios. Os recursos foram liberados posteriormente, sob compromisso de apresentação de planos de trabalho e prestação de contas — exigência que, até agora, não foi cumprida.
Paralelamente, no TCU, Jhonatan de Jesus é relator do processo que apura a atuação do Banco Central na liquidação do Banco Master. O banco e seu controlador, Daniel Vorcaro, são investigados por fraudes no sistema financeiro. Vorcaro chegou a ser preso pela Polícia Federal e atualmente usa tornozeleira eletrônica.
O ministro do TCU chegou a determinar uma inspeção in loco no Banco Central, mas recuou após questionamentos, remetendo a decisão ao plenário da Corte, que está em recesso.
Defesa
Procurado, Jhonatan de Jesus confirmou a indicação das emendas, mas negou qualquer irregularidade. Segundo ele, não há desvio de finalidade, e a responsabilidade pela execução, fiscalização e prestação de contas é exclusiva dos Estados e municípios beneficiados.
“A indicação de emendas não se confunde com a execução dos recursos”, afirmou. O ministro também disse não ter conhecimento de qualquer vínculo entre as emendas e investigações envolvendo políticos locais e declarou que sua relação com prefeitos sempre foi “estritamente institucional”.
A prefeitura de Iracema alegou que os recursos foram aplicados regularmente, mas não explicou por que não apresentou a prestação de contas exigida. Disse ainda que parte do dinheiro foi usada apenas para elaboração de projetos e que os danos em estradas se devem a “invernos rigorosos”.
Já o ex-prefeito Jairo Ribeiro afirmou que sua prisão não tem relação com emendas parlamentares e que sempre contou com o apoio de Jhonatan de Jesus para “ajudar o município em sua infraestrutura”.
Enquanto as explicações se acumulam no papel, no interior de Iracema o que permanece visível são estradas precárias, obras frágeis e milhões de reais públicos sem destino claramente comprovado.















