Quem trabalha em área rural certamente já ganhou hortaliças, legumes e frutas como gratidão de um camponês. Como estrangeiro daquela realidade, minha primeira vez sendo presenteado foi com certa retidão. Afinal, como receber assim, de graça, de quem já tem tão pouco?! Eu não sabia de nada.
Na madrugada, enquanto a cidade com seus supermercados e feiras ainda dorme, um produtor rural já está a caminho da roça após um café com bolo de macaxeira. Deixa o filho mais novo no ponto do precário ônibus escolar e segue com os mais velhos até o roçado. É um trabalho duro até chegar na nossa mesa.
Pouco mais que um ano, após a preparação do solo, plantio, adubação, capina, irrigação e, se não houver intercorrências, finalmente o plantio, momento ápice de felicidade. Tanta felicidade que até transborda um “cadinho” para o professor do filho ou o médico que atende na comunidade. Mas o trabalho não pára.
Após separar o que fica para família e o que será vendido, o transporte leva mais de um ano de trabalho até as feiras e mercados, muitas das vezes valendo centavos. Você reclama do preço, mas compra. O produtor também reclama do preço, mas volta ao trabalho.
Uma das primeiras vezes que peguei carona no ramal para sair da comunidade, avistei um carro bem antigo, com um senhor de feição cansada, porém risonho e empolgado. Na cidade, a imagem daquela idoso poderia até ser confundida com um morador em situação de rua, mas durante a conversa descobri que ele tinha tanta terra e cabeças de gado que valia mais que a renda somada de todas gerações da minha família.
É porque grande parte deles são assim, simples. Uma simplicidade que choca nossa euforia e ansiedade urbana.
Quando chego com presentes, quem gosta é minha mãe que logo diz que na cidade tal fruta está cara e que essa tem gosto de fruta de verdade. Imagina quando eu ganhar um gado dos bingos que são vendidos na comunidade. Ou melhor, gado é como eu chamo, pois eles se referem ao nome especifico de cada raça.
É um conhecimento incrível, um outro universo, que muitas vezes é tão mal compreendido e desvalorizado por quem reclama, mas está sempre de prato cheio na cidade.
Os participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 de Belém, Ananindeua e Marituba, no Pará, tiveram que escrever sobre “A valorização dos trabalhadores rurais no Brasil”. Quem já teve a oportunidade de vivenciar um pouco desse universo certamente se deu bem.















