O caso Banco Master, que estourou em novembro de 2025 com a liquidação da empresa financeira pelo Banco Central e a prisão de Daniel Vorcaro, deixou de ser uma suspeita de fraude bilionária para se tornar o epicentro de uma crise que atinge a classe política em pleno ano eleitoral. A venda de carteiras de crédito sem lastro e a emissão de títulos que a instituição não tinha como honrar abriram caminho para um escândalo que hoje atravessa o Supremo Tribunal Federal (STF). A pergunta é: a Corte terá coragem de investigar um dos seus?
Aparelho
Preso em novembro, Vorcaro teve o celular apreendido pela Polícia Federal. É nesse aparelho que foram encontradas conversas e registros que implicam autoridades do Legislativo e do Judiciário, entre elas os ministros Alexandre de Moraes e José Antonio Dias Toffoli, do STF, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República. A rede de contatos do ex-banqueiro alcançava servidores públicos, inclusive do Banco Central, políticos de diferentes espectros e dirigentes de instituições financeiras.
Benefícios
Os indícios apontam que essas relações envolviam pagamentos, presentes, convites para festas luxuosas e benefícios em troca de informações e de ações favoráveis aos interesses do banco. O que se desenha é um mapa de influência construído com base em favores cruzados, no qual o poder econômico do Master teria se convertido em capital político e jurídico — e vice-versa.
Operação
A Operação Compliance Zero, criada para aprofundar as investigações, já soma dez fases até julho. Originalmente, o ministro Dias Toffoli supervisionava os trabalhos; em fevereiro, o caso passou para André Mendonça, após suspeitas de envolvimento de Toffoli em negócios com um fundo ligado ao Master. A troca de relator, por si só, revela o tamanho da tempestade que se avizinhava no tribunal.
Conflito
A três semanas do primeiro turno das eleições, o caso escalou para um conflito aberto no Supremo. Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de um relatório da PF que detalhou a relação de Moraes com Vorcaro. Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro sugerem que o ministro discutia com ele a possibilidade de uma operação contra o banqueiro — que de fato ocorreu.
Prisão
Em 15 de novembro de 2025, o então dono do Master perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, Vorcaro foi preso no aeroporto quando tentava deixar o Brasil. O relatório indicou ainda que o ministro revisou e editou o contrato de R$ 131 milhões assinado por sua mulher, Viviane Barci de Moraes, pela prestação de serviços ao Master.
Patrocínio
No braço político do escândalo, o Intercept Brasil revelou, em maio, mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro para bancar a produção do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em uma das mensagens, o senador afirma: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”. Segundo a reportagem, Vorcaro pagou R$ 61 milhões.
Negativa
Flávio, que negava qualquer relação com o banqueiro, passou a classificar o pedido como “patrocínio” a um projeto privado, sem negócios irregulares. Em julho, foi aberta investigação sobre o financiamento do filme, que busca esclarecer a origem, o uso e o destino dos recursos — inclusive se parte do dinheiro bancou Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Inquérito
Nesta semana, confirmou-se que Flávio é investigado no inquérito relatado por André Mendonça, que apura os repasses de Vorcaro. O levantamento do sigilo de parte dos documentos, na quinta-feira (10), mostrou que o presidenciável responde por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Ele nega irregularidades e pede transparência total.
Filme
Há ainda outro inquérito no Supremo sobre “Dark Horse”, relatado por Flávio Dino, que investiga a produtora Karina Gama e o roteirista, o deputado Mario Frias (PL). A PF apura se R$ 2 milhões em emendas parlamentares direcionadas por Frias foram usados em contratos não cumpridos por Karina. Operação ordenada por Dino na quinta-feira (10) apreendeu materiais nos endereços dos investigados.
Proximidade
No eixo Moraes, os documentos liberados apontam que o ministro e Vorcaro mantiveram contato frequente e teriam se encontrado pessoalmente mais de uma vez entre março de 2024 e agosto de 2025. Foram revelados contratos milionários entre empresas do banqueiro e o escritório de Viviane Barci de Moraes. Um deles, de R$ 50 milhões, previa pagamento em dinheiro ou entrega de bens; R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jatinho e de um helicóptero.
Gratidão
As mensagens demonstram proximidade e gratidão de Vorcaro em relação a Moraes. Em novembro de 2025, o banqueiro afirmou ter uma “dívida de vida” com o ministro e agradeceu por “tudo”. Em outra conversa, reclamou que um pagamento ao escritório de Viviane não havia sido realizado e classificou a quitação como “o mais importante que temos”, temendo que surgissem “problemas”.
Viagem
A PF identificou ainda mensagens sobre uma viagem de Moraes a Campos do Jordão, em dezembro de 2023. Vorcaro determinou a auxiliares que preparassem uma “experiência completa” para convidados “ultra VIP”, com chef particular, passeios a cavalo e quatro seguranças. A relação também envolvia eventos jurídicos organizados pelo Master em Londres, com participação do ministro em decisões sobre convidados e programação.
Silêncio
Moraes não se pronunciou sobre as investigações. O escritório de Viviane Barci informou que não conduziu causas para Vorcaro no STF e que, desde a liquidação do Master, o contrato foi suspenso. O silêncio, em um caso de tamanha gravidade, alimenta a percepção de que a Corte enfrenta sua mais severa prova de credibilidade.
Crise
A decisão de Mendonça de retirar o sigilo escalou para uma crise institucional. Moraes lançou mão de relatórios de inteligência da PF, sem caráter probatório, para acusar o colega de abuso de autoridade e pediu que ele fosse investigado. A reação de Mendonça veio com ordem de destituição do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, sob a justificativa de que a corporação monitorava ministros.
Recurso
Andrei recorreu, e o pedido foi analisado por Flávio Dino, que devolveu o cargo aos dois dirigentes. Para baixar a fervura, na quarta-feira (9), o presidente do STF, Edson Fachin, tirou de Moraes a relatoria do inquérito das Fake News — no qual pretendia investigar Mendonça — e suspendeu as decisões sobre a direção da PF. Fachin marcou sessão para a próxima terça-feira (15), sem especificar escopo nem se será aberta ou fechada.
Sigilos
Fachin solicitou a Mendonça que abrisse o sigilo de inquéritos do caso Master. Parte foi liberada na noite de quinta (10) e outra começou a ser revelada na sexta. Além do processo sobre Flávio Bolsonaro, houve quebra de sigilo de casos envolvendo Ciro Nogueira (PP-PI), Cláudio Castro (PL-RJ), Jaques Wagner (PT-BA) e Thiago Miranda.
Wagner
A investigação sobre Jaques Wagner apura sua relação com Augusto Lima, ex-sócio do Master, com indícios de vantagens financeiras por meio de repasses a uma empresa ligada a familiares do senador e da aquisição de um apartamento de luxo em Salvador. Wagner nega qualquer ato ilícito ou benefício concedido ao banco.
Emenda
No caso de Ciro Nogueira, apura-se a possível atuação do senador no Congresso em favor de Vorcaro e do Master, com a apresentação da chamada “emenda Master”. A PF aponta indícios de pagamento de vantagens financeiras ao parlamentar, que nega as acusações durante as operações.
Previdência
A investigação que envolve Cláudio Castro apura possíveis irregularidades nos R$ 3,6 bilhões aplicados pelo Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores do Rio, no Banco Master. Segundo os investigadores, teria havido manobra na direção do fundo para viabilizar operações de alto risco. Castro também nega irregularidades.
Endereço
Em desdobramento paralelo, o site ICL Notícias revelou que a Bravo Grafeno, empresa de capacetes ligada a Flávio Bolsonaro, está registrada no mesmo endereço em Brasília que ao menos 16 empresas de Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. A sala 2601, no Edifício Connect Towers, em Águas Claras, também aparece em registros de empresas investigadas na Operação Sem Desconto.
Contabilidade
A Bravo Grafeno utilizava os mesmos serviços de contabilidade do grupo de Antunes. A Voga Serviços Contábeis ocupa outras salas do mesmo andar e presta serviços à empresa de Flávio. Alexandre Caetano dos Reis, ligado à Voga, foi sócio de Antunes e é responsável pela contabilidade do escritório de advocacia do filho do ex-presidente.
Rede
Segundo o relatório final da CPMI do INSS, a Prospect Consultoria Empresarial, registrada no endereço, recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas. Antunes, preso preventivamente desde setembro de 2025, teria operado empresas de fachada para movimentar recursos de descontos irregulares que atingiram mais de 4,3 milhões de aposentados, com prejuízo estimado em R$ 2 bilhões.
Família
A Bravo Grafeno foi aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil. Além de Flávio, Carlos Bolsonaro (PL) aparece no quadro societário, ao lado do empresário Pedro Luiz Dias Leite, do personal trainer Paulo Giordano Bernardi e de Fernando Nascimento Pessoa, ex-assessor de Flávio investigado no caso das rachadinhas. Jair Bolsonaro, que já integrou a sociedade, tornou-se garoto-propaganda da marca.
Implicações
O que une os dois eixos — o Master e o INSS — é a mesma arquitetura de suspeitas: aproximação com o poder, trânsito de recursos e a tentativa de blindagem institucional. Em ano eleitoral, cada revelação pesa sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro e sobre a credibilidade do STF. A sessão de terça-feira (15) será o teste decisivo para saber se a Corte consegue conter a crise ou se o caso Master se tornará seu maior abalo.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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