Não seria surpresa se uma pesquisa sobre a pintura mais conhecida pelos paraenses entre as que compõem o acervo da História da Pintura do Pará colocasse, em primeiro lugar, o quadro “A fundação da cidade de Nossa Senhora de Belém”, pintado em 1906 por Theodoro Braga.
Porque o quadro, não só, há muitos anos, tem sido reproduzido em livros didáticos, jornais e revistas, servindo como ilustração de textos que tratam do ato oficial da fundação do povoado de Belém, em 1616.
Como porque, com o surgimento da internet, ele passou a aparecer, como imagem, tanto nas pesquisas sobre aquele evento histórico, como, nas pesquisas sobre elementos específicos da cena criada por Braga.
Entre outras pesquisas, por exemplo, aquelas sobre a figura do fundadorda cidade, Francisco Caldeira Castelo Branco, a estrutura de defesa em construção, os soldados, os índios da região, trechos da floresta etc.
Muitos paraenses, portanto, estão, sem dúvida, familiarizados com a cena apresentada pelo quadro.
Poucos, porém, sabem que ocorreu em relação a um dos seus elementosmais relevantes, quando a pintura foi apresentada à sociedade local por Antônio Lemos, em 1908.
O intendente de Belém havia sido quem tinha encomendado a obra a Braga.
Logo, dois dos mais ilustres historiadores da época, ArthurVianna e Manuel Barata, questionaram a verdade histórica do forte pintado no quadro.
Eles sustentaram que, naquela ocasião, em Belém, foi construída uma paliçada, e, não um forte, como o pintado por Braga.
Braga reagiu com um ensaio intitulado “A fundação de Belém”,publicado, como anexo, no relatório que
Lemos apresentou ao Conselho Municipal, em 1908.
No ensaio, o pintor relatou a minuciosa pesquisa que fez, no Brasil e no Exterior, para colher informações
sobre todos os elementos que pintou na cena criada por ele.
Quase vinte documentos antigos foram identificados, um a um, por ele, no ensaio, como as fontes de
informações que ele localizou em arquivos e bibliotecas do Brasil, no período em que se preparou para a
a execução daquele seu trabalho.
Como é sabido, Lemos foi expulso do Pará, em 1912.
Depois deste período tumultuado, a restrição ao quadro feita por Vianna e Barata foi sendo esquecida.
E a posição de Braga naquele debate se tornou preponderante.
Não exatamente por ter sido melhor fundamentada. E, sim, por ter sido a única posição que se tornou conhecida
amplamente através de sua expressão visual na obra.
Hoje, se a um colegial de Belém for pedido que desenhe a cena da fundação da cidade, certamente, ele
reproduzirá a que está no quadro de Braga.
O que Vianna e Barata disseram sobre a primeira estrutura de defesa de Belém ficou totalmente ofuscado
pela pintura.
Se uma paliçada tivesse sido pintada no quadro de Braga como teria ficado sua pintura?
A definição mais simples de paliçada apresenta aquela estrutura de defesa como:
“Um conjunto de estacas de madeira, afiadas numa extremidade, que sãofincadas, verticalmente, num terreno,
e que, ligadas entre si, formam uma estrutura de defesa firme”.
Sua construção, portanto, envolve o corte e preparação dos troncos de árvores.
Os estudiosos da História da Engenharia Militar, lembram que a paliçada foi utilizada desde tempos antigos
para proteger determinados locais de ataques de inimigos.
E que seu uso e importância, ao longo da História, demonstraram a relevância que a segurança, em relação à possibilidade de ataques de inimigos, teve para a sobrevivência e prosperidade dos povos antigos.
A necessidade de segurança
Romanos e gregos, segundo estes estudiosos, já utilizavam esse tipo de estrutura para proteger seus territórios. Eles dissem que seu uso se estendeu por várias épocas e culturas, com emprego de diferentes técnicas em sua construção, as quais foram aprimoradas ao longo do tempo.
Assim, a paliçada protegeu cidades, castelos, fortalezas e acampamentos, contribuindo para a manutenção de ordem e da segurança de diferentes comunidades, em vários períodos históricos.
Na época do Império Romano , as comunidades defendidas por paliçadas eram as de soldados em seus
campamentos militares.
As tropas as construíam utilizando as matas adjacentes. Os troncos obtidos nelas eram transformados em
postes de extremidade mais pontiaguda.
Fincados os troncos na terra, surgia a paliçada que desencorajavainvasores e fornecia tempo precioso para os soldados se prepararem para um possível confronto.
A necessidade da construção de uma estrutura de defesa era óbvia para os membros da expedição militar saída de São Luiz, no final de 1615, sob o comando de Castelo Branco, quando eles se instalaram no Gram-Pará.
Pois, eles sabiam, teriam de se preparar não apenas para eventuais as investidas dos nativos, como para ataques de tropas de outros países.
As tropas portuguesas já tinham sido obrigados a construir paliçadas, em outras áreas do Brasil, a fim de garantir a posse delas para Portugal.
Nestor Goulart Reis Filhos escreveu em seu livro “Contribuição ao estudo da evolução urbana do Brasil: 1500 a 1720”:
“As atividades militares constituíram ponto básico da vida e da organização espacial dos centros urbanos, especialmente nos primeiros anos de colonização, quando os portugueses eram obrigados a resguardar a posse dos territórios contra os ataques das potências rivais e dos índios”.
Mas, no período de 1580 a 1640, em que Portugal ficou subjugada à Espanha, a pobreza de recursos de nação portuguesa, para a colonização de várias regiões do país, se fez sentir.
Pesava sobre os integrantes destes núcleos iniciais de cidades, isolados em alguns pontos da costa, praticamente abandonados à própria sorte, e, sob a pressão das tribos e das forças européias rivais, a responsabilidade da defesa.
Escreveu Reis Filho:
“As povoações mais antigas eram quase todas defendidas por cercas ou muros, cujas formas e materiais empregados variavam de acordo com as possibilidades e necessidades. Algumas eram simplesmente de madeira, à moda dos índios”.
O autor acrescenta:
“É de se supor que todas as pessoas participassem ativamente das lutas, sobretudo, quando se processavam juntos às cercas, uma vez que o insucesso significaria automaticamente a liquidação dessa população”.
As cercas de madeiras a que, às vezes, se reduziam as fortificações militares, são igualmente mencionadas por
Pedro Carlos da Silva Telles, no seu livro “História da Engenharia no Brasil: séculos XVI a XIX”.
Silva Telles. apesar de se dedicar, sobretudo, às fortificações imponentes como a de Reis Mago, em Natal, construída por Frias de Mesquita, não deixa de mencionar as aproximadamente 300 precárias cercas, entre as variadas construções militares levantadas pelos portugueses, ao longo da costa brasileira.
Diz ele:
“As primeiras obras de defesa, muros e fortins, eram muito primitivos, consistindo simplesmente em paliçadas de troncos de árvores justapostos, de que havia grande abundância na época”.
A utilização destas cercas pelos portugueses, na busca de garantir a posse do Brasil Colônial era, portanto, como frisa Telles, o resultado da reunião de dois fatores.
A falta de recursos dos colonizadores.
A generosa abundância de um tipo nativo de material de construção, a madeira.
Pobreza de documentação
Nestas precárias fortificações havia até um detalhe que se repetia, em várias regiões: as cercas eram interrompidas nos pontos apropriados à abertura de portas.
Como as portas eram vitais para todo o sistema defensivo, a função de cuidar delas foi atribuída às pessoas de confiança.
Reis Filho menciona dois núcleos urbanos, fora do Gram-Pará, com as tais portas: o de Salvador e o de São Paulo.
Este quadro geral do início da colonização portuguesa das várias regiões do Brasil teve, certamente, grande influência no entendimento alcançado pelos historiadores Vianna e Barata, sobre o que aconteceu no Gram-Pará.
A suposição de que no Gram-Pará houve mera repetição do ocorrido em outras regiões era quase inevitável a estes historiadores diante da dificuldade de reconstituição do começo da colonização brasileira, sobretudo, no campo das suas construções.
Os dois autores que já citamos assinalam tal dificuldade.
Reis Filho diz sobre as primeiras residências:
“Analisar a arquitetura residencial dos dois primeiros séculos de colonização é tarefa das mais difíceis. A pobreza de documentação existente, sobretudo, referente ao primeiro século, é o obstáculo mais sério”.
Por sua vez, Silva Telles constata: a quase totalidade das construções civis do século XVI e da primeira metade do século seguinte desapareceram, devido à precariedade dos materiais de construções utilizados nelas.
Assim, antes mesmo de consultarem o primeiro papel antigo sobre o povoado do qual se originou Belém, Vianna e Barata se defrontaramcom duas situações.
De um lado, um quadro de coincidências do início do processo de colonização de diversas regiões brasileiras.
E, de outro lado, uma incômoda falta de documentação sobre as construções daquele período.
Além destas duas circunstâncias, houve ainda a interferência de um terceiro elemento na compreensão que os historiadores passaram a ter dos primeiros tempos do povoado de Belém.
Os poucos documentos disponíveis, com os quais eles lidaram eram, eram sua maior parte, distanciados pelo menos um século da data de chegada da expedição de Castelo Branco.
E traziam informações que aparentemente demonstravam não ser o Gram-Pará uma exceção dentro do quadro geral da colonização brasileira.
Arthur Vianna, por exemplo, naquele começo do século XX, tomou como base da sua visão sobre o Gram-Pará aquilo que dizia o padre Jacinto de Carvalho, na sua crônica “Princípios do Maranhão”, escritaprovavelmente em 1720.
O padre estivera no Gram-Pará quase oitenta anos depois do desembarque de Castelo Branco.
E dizia na sua crônica que o capitão-mor mandara edificar, no sítio escolhido para o povoado, uma fortificação de madeira.
Afora a crônica do padre, é possível que Arthur Vianna tenha consultado também uma obra menos conhecida de Antônio Monteiro Baena, autor de “Compêndios das Eras das Províncias do Pará”, um dos livros clássicos da História da região.
O apoio em Jacinto de Carvalho
Nesta outra obra, de menor importância, “A sorte de Francisco Caldeira Castelo Branco na sua fundação da capital do Grão–Pará”, publicada em 1850, Baena chama a edificação militar levantada por Castelo Branco de faxina, isto é de cerca, formada por feixes de varas.
Sob a influência de autores como estes, e, diante da falta de documentação contemporânea das primeiras construções de Belém, era natural que Arthur Vianna descrevesse a fortificação levantada por Castelo Branco como de madeira,
E, até avançasse mais identificando-a como uma simples paliçada ou cerca, semelhante às de outras regiões.
Esta descrição do forte vinha apoiada, também, nas mesmas duas razões da utilização das cercas de madeira fora do Gram-Pará.
A escassez dos recursos empregados pelos portugueses na colonização do Brasil.
E, a disponibilidade, na capitania, de um único material de construção – a madeira.
Numa de suas monografias, Viana escreveu que Castelo Branco, “sem recursos para levantar uma boa fortificação, limitou-se a fazer de madeira o forte”.
Neste estudo, “Monografia Paraense”, publicada em 1900, pela Revista do Instituto Geográfico e Etnográfico do Pará, ele chega a supor que esta falta de recursos da expedição do capitão-mor tenha levado seus membros a precisar de “forquilha, palha, barro” para construirem suas habitações.
Eles também teriam tido necessidade de ajuda dos índios para conseguirem alimentos.
Manoel Barata era, como historiador de inicio do século XX, tão ou mais ilustre do que Vianna.
E, seguiu as mesmas trilhas.
Apoiou-se, igualmente, em Jacinto de Carvalho, e, ainda, em outros dois autores antigos, distanciados de mais de um século da fundação de Belém.
Os dois descreviam o forte como de madeira.
Frei Agostinho de Santa Maria, autor de “Santuário Mariano”, de 1722, e, Ayres do Cazal, autor de “Corografia Brasílica” de 1817.
Barata, assim, começou a veicular, em seus textos, uma visão da primeira construção de Belém semelhante a de Vianna.
Esta visão foi detalhada em dois textos de Barata, “A capela de Santo Cristo” e “As primeiras ruas de Belém”, depois, publicados, em 1973, juntos com outros trabalhos do autor, sob o título geral de “Formação Histórica do Pará”.
No primeiro texto, ele diz que a edificação militar se resumia a uma “improvisada cerca de madeira”.
E acrescenta: a cerca era chamada de forte “simplesmente, talvez, por ser, então, o único de cidade”.
No segundo texto, para enfatizar a precariedade daquela cerca, Barata, como Baena, a designa com a palavra relativa a feixe de varas – faxina.
A cerca, diz o historiador, invocando, também, a escassez de recursos dos portugueses, era suficiente na “curteza de tempo e de meios, para se precaver contra o provável ataque dos índios”.
Segundo Barata, mesmo precariamente, a cerca, de qualquer modo, estabelecia uma linha de defesa que isolava a parte da área mais tarde ocupada pela praça da Matriz (o Largo da Sé).
Barata prossegue, já agora aproximando a descrição que faz da primeira edificação de Belém das fortificações de Salvador e de São Paulo, aquelas constituídas de cercas interrompidas por portas.
Afirma que a cerca de Belém tinha “ao lado do norte, um portão de saída para a praia próxima, onde havia desembarcado Francisco Caldeira”.
(Ilustração: Imagem de uma paliçada)
Was the First “Fort” of Belém
Actually a Wooden Palisade?
It would hardly be surprising if a survey of the painting best known to the people of Pará among those that make up the History of Painting in Pará placed, in first place, The Founding of the City of Nossa Senhora de Belém, painted in 1906 by Theodoro Braga.
This is because, for many years, the painting has been reproduced in textbooks, newspapers, and magazines, serving as an illustration for texts dealing with the official founding of the settlement of Belém in 1616.
Moreover, with the advent of the Internet, it began to appear as an image both in searches concerning that historic event and in searches for specific elements of the scene created by Braga.
These include, for example, searches concerning the city’s founder, Francisco Caldeira Castelo Branco; the defensive structure under construction; the soldiers; the Indigenous people of the region; sections of the forest; and so forth.
Many people from Pará, therefore, are undoubtedly familiar with the scene depicted in the painting.
Few, however, know what happened to one of its most important elements when the painting was presented to the local public by Antônio Lemos in 1908.
The Intendant of Belém was the person who had commissioned the work from Braga.
Soon afterward, two of the most distinguished historians of the period, Arthur Vianna and Manuel Barata, questioned the historical accuracy of the fort depicted in the painting.
They maintained that, at that time, what was built in Belém was a palisade, not a fort like the one painted by Braga.
Braga responded with an essay entitled The Founding of Belém, published as an appendix to the report that Lemos submitted to the Municipal Council in 1908.
In the essay, the painter described in detail the research he had conducted both in Brazil and abroad to gather information about all the elements he had included in the scene he created.
Almost twenty old documents were identified one by one by Braga in the essay as sources of information that he had located in archives and libraries in Brazil while preparing for the execution of his work.
As is well known, Lemos was expelled from Pará in 1912.
After that turbulent period, the objection raised by Vianna and Barata regarding the painting gradually faded from public memory.
Braga’s position in the debate consequently became predominant.
Not because it was necessarily better substantiated, but because it was the only position that became widely known through its visual expression in the painting.
Today, if a school student in Belém were asked to draw the scene of the city’s founding, he would certainly reproduce the one depicted in Braga’s painting.
What Vianna and Barata said about Belém’s first defensive structure was completely overshadowed by the painting.
What would Braga’s painting have looked like if he had depicted a palisade instead?
The simplest definition of a palisade describes this defensive structure as:
“A series of wooden stakes, sharpened at one end, driven vertically into the ground and connected to one another to form a sturdy defensive structure.”
Its construction, therefore, involved cutting and preparing tree trunks.
Scholars of the history of military engineering point out that palisades had been used since ancient times to protect particular locations from enemy attacks.
They also note that their use and importance throughout history demonstrated the crucial role that security against possible enemy attacks played in the survival and prosperity of ancient peoples.
The Need for Security
According to these scholars, the Romans and Greeks already used this type of structure to protect their territories. They say that its use extended across different periods and cultures, employing various construction techniques that were improved over time.
Thus, palisades protected cities, castles, fortresses, and camps, contributing to the maintenance of order and security in different communities throughout history.
During the Roman Empire, the communities protected by palisades were those of soldiers in their military camps.
The troops built them using the forests in the surrounding areas. The tree trunks obtained there were shaped into posts with pointed ends.
Once the trunks had been driven into the ground, the palisade was formed, discouraging invaders and providing the soldiers with precious time to prepare for a possible confrontation.
The need to build a defensive structure was obvious to the members of the military expedition that departed from São Luís at the end of 1615 under the command of Castelo Branco, when they settled in Gram-Pará.
They knew that they would have to prepare themselves not only for possible attacks by the Indigenous peoples, but also for attacks by troops from other countries.
Portuguese troops had already been forced to build palisades in other parts of Brazil in order to secure possession of those territories for Portugal.
Nestor Goulart Reis Filho wrote in his book Contribuição ao Estudo da Evolução Urbana do Brasil: 1500 a 1720 (Contribution to the Study of the Urban Development of Brazil: 1500–1720):
“Military activities constituted a fundamental aspect of the life and spatial organization of urban centers, especially during the first years of colonization, when the Portuguese were obliged to safeguard their possession of the territories against attacks by rival powers and Indigenous peoples.”
But during the period from 1580 to 1640, when Portugal was under Spanish rule, the scarcity of resources available to the Portuguese nation for the colonization of various regions of the country became evident.
The responsibility for defense fell upon the inhabitants of these early settlements, isolated at certain points along the coast, practically abandoned to their own fate and under pressure from both Indigenous tribes and rival European forces.
Reis Filho wrote:
“The oldest settlements were almost all protected by fences or walls, whose forms and materials varied according to their possibilities and needs. Some were made simply of wood, following the manner of the Indigenous peoples.”
The author adds:
“It is reasonable to suppose that everyone actively participated in the fighting, especially when battles took place alongside the fences, since failure would automatically have meant the destruction of the population.”
The wooden fences to which military fortifications were sometimes reduced are also mentioned by Pedro Carlos da Silva Telles in his book História da Engenharia no Brasil: Séculos XVI a XIX (History of Engineering in Brazil: Sixteenth to Nineteenth Centuries).
Although Silva Telles devoted particular attention to imposing fortifications such as Reis Magos Fortress in Natal, built by Frias de Mesquita, he nevertheless mentions the approximately 300 precarious fences among the various military structures erected by the Portuguese along the Brazilian coast.
He writes:
“The first defensive works, walls, and small forts were very primitive, consisting simply of palisades made of juxtaposed tree trunks, which were abundantly available at the time.”
The Portuguese use of these fences in their efforts to secure possession of Colonial Brazil was therefore, as Telles emphasizes, the result of two factors coming together.The colonizers’ lack of resources.
The generous abundance of a native construction material: wood.
A Poverty of Documentation
These precarious fortifications even had a detail that was repeated in several regions: the fences were interrupted at appropriate points to allow for the opening of gates.
Since the gates were vital to the entire defensive system, responsibility for guarding them was entrusted to people who could be trusted.
Reis Filho mentions two urban settlements outside Gram-Pará that had such gates: Salvador and São Paulo.
This general picture of the early Portuguese colonization of the various regions of Brazil certainly had a major influence on the understanding reached by historians Vianna and Barata concerning what happened in Gram-Pará.
The assumption that Gram-Pará had simply repeated what had occurred in other regions was almost inevitable for these historians, given the difficulty of reconstructing the early stages of Brazilian colonization, particularly with regard to its buildings and other structures.
The two authors we have already cited point to this difficulty.
Reis Filho writes about the first residences:
“Analyzing residential architecture during the first two centuries of colonization is one of the most difficult tasks. The scarcity of existing documentation, especially concerning the first century, is the most serious obstacle.”
Silva Telles, for his part, observes that almost all the civil buildings constructed during the sixteenth century and the first half of the following century disappeared because of the precariousness of the construction materials used in them.
Thus, even before consulting the first surviving document concerning the settlement from which Belém originated, Vianna and Barata were confronted with two circumstances.
On the one hand, there was a pattern of similarities in the early stages of the colonization process in various regions of Brazil.
On the other, there was an unsettling lack of documentation concerning the buildings and structures of that period.
In addition to these two circumstances, there was a third element that influenced the way historians came to understand the earliest years of the settlement of Belém.
The few documents available to them were, for the most part, at least a century removed from the date of Castelo Branco’s expedition.
And they contained information that apparently showed that Gram-Pará was not an exception within the broader pattern of Brazilian colonization.
Arthur Vianna, for example, at the beginning of the twentieth century, based his understanding of Gram-Pará on what Father Jacinto de Carvalho wrote in his chronicle Princípios do Maranhão, probably written in 1720.
The priest had been in Gram-Pará almost eighty years after Castelo Branco’s landing.
In his chronicle, he stated that the captain-major had ordered the construction of a wooden fortification at the site chosen for the settlement.
Apart from the priest’s chronicle, it is possible that Arthur Vianna also consulted a lesser-known work by Antônio Monteiro Baena, the author of Compêndios das Eras das Províncias do Pará, one of the classic works on the history of the region.
The Reliance on Jacinto de Carvalho
In another, less important work, A Sorte de Francisco Caldeira Castelo Branco na Sua Fundação da Capital do Grão-Pará, published in 1850, Baena referred to the military structure erected by Castelo Branco as a faxina—that is, a fence made of bundles of branches.
Under the influence of authors such as these, and in view of the lack of contemporary documentation concerning Belém’s earliest structures, it was natural for Arthur Vianna to describe the fortification erected by Castelo Branco as being made of wood.
He went even further, identifying it as a simple palisade or fence, similar to those found in other regions.
This description of the fort was supported by the same two reasons that explained the use of wooden fences outside Gram-Pará:
The scarcity of resources available to the Portuguese for the colonization of Brazil.
And the availability, in the captaincy, of a single construction material—wood.
In one of his monographs, Vianna wrote that Castelo Branco, “without the resources to erect a proper fortification, limited himself to building the fort out of wood.”
In this study, Monografia Paraense, published in 1900 by the Revista do Instituto Geográfico e Etnográfico do Pará, he even suggested that the lack of resources faced by the captain-major’s expedition may have forced its members to use “forked branches, straw, and clay” to build their dwellings.
They would also have needed the help of the Indigenous people to obtain food.
Manoel Barata was, as a historian at the beginning of the twentieth century, every bit as distinguished as Vianna, if not more so.
And he followed the same path.
He likewise relied on Jacinto de Carvalho, as well as on two other early authors who lived more than a century after the founding of Belém.
Both described the fort as being made of wood.
They were Friar Agostinho de Santa Maria, author of Santuário Mariano, published in 1722, and Ayres do Cazal, author of Corografia Brasílica, published in 1817.
Barata thus began to disseminate in his writings a view of Belém’s first structure similar to Vianna’s.
This view was detailed in two of Barata’s texts, A Capela de Santo Cristo and As Primeiras Ruas de Belém, later published together with other works by the author in 1973 under the general title Formação Histórica do Pará.
In the first text, he says that the military structure amounted to an “improvised wooden fence.”
He adds that the fence was called a fort “simply, perhaps, because at the time it was the city’s only one.”
In the second text, to emphasize the precarious nature of that fence, Barata, like Baena, refers to it using the word associated with a bundle of branches—faxina.
The fence, the historian says, also invoking the Portuguese shortage of resources, was sufficient, “given the shortness of time and means, to guard against the probable attack of the Indians.”
According to Barata, despite its precariousness, the fence nevertheless established a defensive line that isolated the portion of the area that would later be occupied by Matriz Square (Largo da Sé).
Barata goes on, now bringing his description of Belém’s first structure closer to the fortifications of Salvador and São Paulo, which consisted of fences interrupted by gates.
He states that the Belém fence had, “on its northern side, a gate leading to the nearby beach, where Francisco Caldeira had landed.”
(Illustration: Image of a palisade)















