- Oswaldo Coimbra é escritor e jornalista
Cem anos, aproximadamente, haviam transcorrido desde a fundação de Belém, quando surgiu, por volta de 1719, no povoado, o conjunto arquitetônico de Santo Alexandre.
Embora fosse o primeiro da cidade, já surgiu digno de ser enquadrado na tendência das construções públicas e religiosas monumentais típicas daquele momento da História do Brasil.
Esta tendência havia sido transplantada de cidades do Oriente português, como Goa, para o Brasil nos meados do século XVII, quando a dominação lusa naquela região começou a periclitar.
Mas até o aparecimento do conjunto arquitetônico de Santo Alexandre, não tinha chegado ao Maranhão/Gram-Pará, estado à parte do Brasil, no reino de Portugal, naquela fase.
As modestas construções iniciais, de Belém, após a fundação do povoado, em 1616, foram erguidas com a influência da experiência dos índios.
E simples emprego de materiais fartamente oferecidos pela vegetação amazônica.
Como cipós longos e resistentes da mata, variadas palmeiras, e, as varas flexíveis, que permitiam erguer casas, no chão batido, com cobertura de pindoba e paredes de palha.
Numa fase seguinte, as construções do povoado passaram a utilizar uma técnica, muito usada naquele período, no Brasil-Colônia, a da taipa.
Consistia ela no seguinte: com um suporte de estacas de madeiras se retinha o barro molhado que, em seguida, era amassado, com as mãos e seco.
A técnica tinha uma variação.
Deixava de ser classificada como taipa de mão e passava a ser chamada de taipa de pilão, quando os construtores, não se valiam somente de simples suportes de madeira para a retenção do barro.
Mas, se utilizavam de moldes ou caixas compridas, dentro das quais ao barro podiam ser acrescentados seixos e algum tipo de aglutinante, como palha ou óleo animal.
Era possível, assim, obter paredes com espessura de, em média, 55 centímetros, as quais eram, depois, recobertas de uma camada de areia e cal.
Quando podiam contar com caixas de madeira de maior largura, os construtores também podiam socar, nelas, junto com o barro, seixos apanhados nos rios ou coletados da superfície dos terrenos.
Assim, conseguiam garantir estruturas resistentes.
A tapia de pilão, tornou-se, então, a técnica preferida, por sua alta existência, nas construções das residências melhores e dos prédios públicos, diz Meira Filho, em “Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará”.
Seria amplamente utilizada durante um extenso período da História do povoado.
Somente a partir das últimas décadas os anos de 1600 é que os jesuítas começaram a construir o conjunto arquitetônico deles.
Eles tinham acumulado experiência construindo suas primeiras edificações no povoado.
Até 1731, quando foi concluída a decoração da igreja de Santo Alexandre, dentro do conjunto monumental, as obras de sua construção ocorreram em diferentes fases.
Com o emprego das várias técnicas conhecidas no povoado, em seus diversos setores.
Desta forma, se pode dizer que o conjunto arquitetônico jesuítico, ao mesmo tempo, resumiu e fez avançar a Historia das edificações de Belém.
Fez avançar porque superou em dimensões e durabilidade as modestas edificações até então levantadas no povoado, por seus empobrecidos moradores.
Cujo número era o de 400 habitantes, no final do século XVII.
Excluídos os índios, os religiosos e os soldados, não computados nos censos.
Ali, no exíguo espaço do povoado, surgiu o modelo de um novo tipo de edificação para Belém.
Algo de dimensões e beleza jamais vistos, até então.
O conjunto arquitetônico ocupou uma área suficientemente ampla para abrigar um quadrilátero inteiro de construções no atual mapa de Belém.
Seu terreno começava num nível mais alto, vizinho ao forte, e, se estendia até um nível mais baixo, vizinho ao do Ver-o-Peso.
Cada face deste quadrilátero corresponde a um quarteirão inteiro da atual Belém.
A face voltada para o Largo da Sé, com as fachadas da igreja e do colégio jesuítico.
A da Rua Padre Champagnat, voltada para o Largo do Palácio.
A da Travessa Marquês de Pombal, voltada para a doca do Ver-o-Peso.
E, a da Ladeira da Memória, voltada para o forte.
“Admirai todo o conjunto arquitetônico, na ampla visão de massa, espaço e movimento.”, pede Leandro Tocantins, no seu livro “Santa Maria de Belém do Grão-Pará”.
O setores que compunham o colégio jesuítico
Capela doméstica: um dos setores mais antigos do conjunto arquitetônico. Ficava por cima da sacristia da Igreja de Santo Alexandre. O acesso à sua porta de entrada obrigava a subida de uma escada.
Tinha as mesmas dimensões da sacristia da igreja, com três janelas que se abriam para o pátio interno do colégio. Seu altar era dedicado a São Francisco de Borja.
A capela dispunha de duas tribunas próximas do altar, além de imagens, ornatos, uma cadeira de talha e bancos grandes. Estes bancos, com encostos, tinham assentos que serviam como tampas de uma espécie de arca, com divisórias, os chamados arquibancos.
Pátio de cima: ficava, ao lado da sacristia da igreja, com varandas ao seu redor. Por seu turno, continha também diversos setores.
Pomar: com parreiras e laranjeiras;
Jardim: de onde eram tiradas as flores que enfeitavam a igreja;
Horta: cheia de couves.
Em volta do pátio de cima, rodeando-no, existiam mais setores do colégio:
Salas de aulas.
Aposento dos padres.
Refeitório dos padres.
Refeitório geral.
Pavilhão Novo: chamado assim porque foi construído depois dos outros pavilhões.
Farmácia
Pavilhão da capela doméstica
Biblioteca: com mais de 2.000 livros, ficava.
Oficina de encadernação: era um anexo da biblioteca.
Aposento do padre superior.
Sala de consultas: para os religiosos atenderem quem os procurava.
Pátio de baixo: estava mais próximo do Ver-o-Peso. Em torno dele havia:
Cozinha.
Cozinha especial para enfermos.
Forno.
Casas de hóspedes.
Oficina de pintura. Onde foi produzida boa parte do acervo de ornamentos da igreja.
Oficina de escultura. Nela, artistas geniais da ordem jesuítica criaram peças também para a igreja, e, para o colégio.
Casa de Torre: Em forma de torre, tinha fachada voltada para o Largo da Sé.
A igreja de Santo Alexandre
Fachada. Tem quatro níveis. Dispõem de seis janelas, três nichos, envasaduras dos sinos e três portas, como registra Maria de Lourdes Sobral, em “As missões religiosas e o barroco no Pará”.
Em sua parte superior, havia uma bela cruz de jaspe, hoje desaparecida. E, nos seus três nichos, estátuas de São Ignácio, São Francisco Xavier e São Francisco da Borja. Nas duas torres, cinco sinos.
Capela-mor. Era dedicada a Francisco Xavier, o jesuíta que se tornou santo.
Profunda, tem teto decorado de elementos geométricos, dispostos numa composição clara, bastante definida, diz Sobral.
Suas paredes eram ornamentadas por telas pintadas que se enquadravam em molduras barrocas de talha dourada, informa a autora.
Capela de Santo Cristo.
Capela de São Bartolomeu.
Capela de Nossa Senhora do Socorro.
Capela de Santo Ignácio.
Capela de Nossa Senhora da Assunção.
Capela de São Miguel.
Capela de Santa Quitéria.
Capela de Santo Alexandre.
Retábulos (painéis de madeira e de argamassa copiada de madeira nos altares). A capela -mor, e, as outras capelas, laterais, são adornadas com retábulos. Deles, Germain Barzin, curador do Museu de Louvre, na França, disse serem alguns dos mais belos que se podem ver no Pará.
Há, esculpidos, nestes retábulos, pelicanos, braços de videiras e cachos de uvas, flores, lírios, espirais, margaridas, nichos, entrelaçamentos de linhas , ramagens, grinaldas, arabescos.
Púlpitos: Mais elogiados ainda que os altares são tidos como impetuosas obras do barroco brasileiro, pelos pesquisadores. Lúcio Costa, no ensaio “Arquitetura dos jesuítas no Brasil”, afirma:
“Revelam um tal fervor, tamanho arrebatamento, que a sua análise não cabe dentro dos limites cometidos de uma crítica objetiva”.
Pintura da igreja. A pintura original representava plantas estilizadas e elementos contorcidos em formas espirais. Grande parte daquela pintura foi perdida quando, mais tarde, receberam uma espécie de caiação.
Sacristia. Larga, é, profunda como a capela-mor da igreja. Nela, estão as lápides de duas sepulturas: as do primeiro bispo de Gram-Pará, dom Bartolomeu do Pilar, a do engenheiro-militar e procurador José Velho de Azevedo.
Além de uma grande arca, com vinte e cinco gavetas, munidas de fechaduras e argolas de bronze, usadas para guardar vestes e objetos sagrados.
English translation (tradução para o inglês)
The First Monumental Architectural Complex in Belém
- Oswaldo Coimbra is a writer and journalist
Approximately one hundred years had passed since the founding of Belém when, around 1719, the architectural complex of Santo Alexandre emerged in the settlement.
Although it was the first of its kind in the city, it already appeared worthy of being framed within the trend of monumental public and religious constructions typical of that moment in Brazilian history.
This trend had been transplanted from cities of the Portuguese East, such as Goa, to Brazil in the mid-seventeenth century, when Portuguese domination in that region began to decline.
But until the appearance of the Santo Alexandre architectural complex, it had not reached Maranhão/Grão-Pará, which at that time was a state separate from Brazil within the Kingdom of Portugal.
The first modest constructions of Belém, after the settlement was founded in 1616, were built under the influence of Indigenous experience.
They relied on the simple use of materials abundantly provided by Amazonian vegetation.
These included long and resistant forest lianas, different varieties of palm trees, and flexible rods that made it possible to erect houses on beaten earth, with pindoba-palm roofing and straw walls.
In a later phase, the constructions of the settlement began to employ a technique widely used during that period in colonial Brazil: taipa (rammed earth construction).
This technique consisted of retaining wet clay within a framework of wooden stakes. The clay was then kneaded by hand and left to dry.
The technique also had a variation.
It ceased to be classified as taipa de mão (wattle and daub) and came to be called taipa de pilão (rammed earth) when builders no longer relied only on simple wooden supports to retain the clay.
Instead, they used molds or long wooden boxes inside which pebbles and some binding substance—such as straw or animal oil—could be added to the clay.
In this way it was possible to obtain walls with an average thickness of about 55 centimeters, which were later covered with a layer of sand and lime.
When they could rely on wider wooden molds, builders could also ram pebbles into the clay—stones collected from rivers or gathered from the ground surface.
Thus, they were able to ensure strong structures.
Taipa de pilão therefore became the preferred technique, due to its great resistance, in the construction of better residences and public buildings, according to Meira Filho in Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará.
It would be widely used for a long period in the history of the settlement.
Only from the last decades of the seventeenth century did the Jesuits begin building their architectural complex.
They had accumulated experience from constructing their first buildings in the settlement.
Until 1731, when the decoration of the Church of Santo Alexandre within the monumental complex was completed, construction took place in different phases.
Various techniques known in the settlement were employed in its different sectors.
In this way, it can be said that the Jesuit architectural complex both summarized and advanced the history of building in Belém.
It advanced it because it surpassed, in dimension and durability, the modest buildings that had until then been erected in the settlement by its impoverished inhabitants.
Their number was about 400 residents at the end of the seventeenth century.
This number excluded Indigenous people, religious members, and soldiers, who were not counted in the censuses.
There, within the limited space of the settlement, the model of a new type of building for Belém appeared.
Something of dimensions and beauty never before seen.
The architectural complex occupied an area large enough to encompass an entire quadrilateral of buildings on the current map of Belém.
Its grounds began at a higher level, near the fort, and extended to a lower level near Ver-o-Peso.
Each side of this quadrilateral corresponds to an entire block in present-day Belém.
One side faces Largo da Sé, with the façades of the church and the Jesuit college.
Another runs along Rua Padre Champagnat, facing Largo do Palácio.
A third follows Travessa Marquês de Pombal, facing the Ver-o-Peso dock.
The fourth lies along Ladeira da Memória, facing the fort.
“Admire the entire architectural complex in its broad vision of mass, space, and movement,” asks Leandro Tocantins in his book Santa Maria de Belém do Grão-Pará.
The Sectors that Made Up the Jesuit College
Domestic Chapel: one of the oldest sectors of the architectural complex. It stood above the sacristy of the Church of Santo Alexandre. Access to its entrance required climbing a staircase.
It had the same dimensions as the church sacristy and three windows that opened onto the internal courtyard of the college. Its altar was dedicated to Saint Francis Borgia.
The chapel had two tribunes near the altar, as well as images, ornaments, a carved wooden chair, and large benches.
These benches, with backrests, had seats that functioned as lids for a kind of compartmented chest, the so-called arquibancos.
Upper Courtyard: located beside the church sacristy, with verandas around it. It contained several sectors.
Orchard: with grapevines and orange trees.
Garden: from which the flowers that decorated the church were taken.
Vegetable garden: full of cabbages.
Around the upper courtyard were other sectors of the college:
Classrooms
Priests’ quarters
Priests’ refectory
General refectory
New Pavilion: so called because it was built after the other pavilions.
Pharmacy
Pavilion of the Domestic Chapel
Library: it contained more than 2,000 books.
Bookbinding workshop: an annex to the library.
Superior’s quarters.
Consultation room: where the religious received visitors seeking their assistance.
Lower Courtyard
Located closer to Ver-o-Peso. Around it were:
Kitchen
Special kitchen for the sick
Oven
Guest houses
Painting workshop, where a large part of the church’s ornamental collection was produced
Sculpture workshop, where gifted artists of the Jesuit order created pieces for both the church and the college
Tower House
Built in the shape of a tower, with its façade facing Largo da Sé.
The Church of Santo Alexandre
Façade: four levels. It contains six windows, three niches, bell openings, and three doors, as recorded by Maria de Lourdes Sobral in As missões religiosas e o barroco no Pará.
In its upper part there was once a beautiful jasper cross, now missing.
In the three niches stood statues of Saint Ignatius, Saint Francis Xavier, and Saint Francis Borgia.
The two towers housed five bells.
Main Chapel: dedicated to Francis Xavier, the Jesuit who became a saint.
Deep in structure, it has a ceiling decorated with geometric elements arranged in a clear and well-defined composition, notes Sobral.
Its walls were ornamented with painted canvases framed by gilded baroque woodcarvings.
Side Chapels
Chapel of Santo Cristo
Chapel of Saint Bartholomew
Chapel of Our Lady of Succor
Chapel of Saint Ignatius
Chapel of Our Lady of the Assumption
Chapel of Saint Michael
Chapel of Saint Quitéria
Chapel of Santo Alexandre
Altarpieces
The main chapel and the side chapels are adorned with altarpieces (panels of wood and wood-imitating mortar used in altars).
Of them, Germain Bazin, curator of the Louvre Museum in France, said that some are among the most beautiful that can be seen in Pará.
Carved into these altarpieces are pelicans, vine branches and clusters of grapes, flowers, lilies, spirals, daisies, niches, interlacing lines, foliage, garlands, and arabesques.
Pulpits
Even more praised than the altars, they are considered by researchers to be impetuous works of Brazilian Baroque.
Lúcio Costa, in the essay Architecture of the Jesuits in Brazil, wrote:
“They reveal such fervor, such rapture, that their analysis does not fit within the modest limits of objective criticism.”
Painting of the Church
The original painting represented stylized plants and twisted elements in spiral forms.
Much of this painting was later lost when the walls received a kind of whitewashing.
Sacristy
Wide and as deep as the church’s main chapel.
Inside are the tombstones of two burials: that of the first bishop of Grão-Pará, Dom Bartolomeu do Pilar, and that of the military engineer and procurator José Velho de Azevedo.
There is also a large chest with twenty-five drawers fitted with locks and bronze rings, used to store vestments and sacred objects.
(Illustration: The façades of the college and the church; behind them the complex occupied an entire quadrilateral of present-day Belém.)















