Quando comprou o jornal Washington Post em 5 de agosto 2013, por US$ 250 milhões (R$ 1,3 bilhão de reais), Jeff Bezos, o bilionário dono da Amazon, justificou o investimento por considerar o jornal uma “instituição fundamental para a democracia” e acreditar que poderia usar sua experiência tecnológica para salvá-lo da crise financeira causada pela internet.
Mudança de planos
Treze anos depois, as coisas não correram como planejado. Bezos se cansou de um “negócio” tão pouco rentável como o jornalismo independente, sistematicamente atacado, processado, perseguido e ridicularizado por um Donald Trump cada vez mais vingativo. O novo publisher mudou de tática, se aliou ao republicano, mas, sem antes encarregar o diretor de redação do jornal, Matt Murray, nomeado por Bezos em 2024, conduzir o “megapassaralho”, como se diz na gíria jornalística para um corte seco de 300 profissionais do Post.
As motivações declaradas na época da compra
Quando comprou o Post, Bezos afirmou que, se o jornal fosse uma empresa de “salgadinhos” em crise, não o teria comprado. Ele via o Post como o “jornal da capital do país mais importante do mundo”, com um papel essencial na vigilância dos governantes. Na época, o jornal estava perdendo receita com a queda da publicidade impressa.
Da crença ao pragmatismo
Bezos acreditava que, como investidor privado, poderia dar o aporte financeiro necessário para o jornal experimentar novos modelos de negócio sem a pressão de lucros imediatos que empresas de capital aberto sofrem.
Fronteiras levantadas pelas ideologias
Se a internet derrubou barreiras geográficas, a ideologia as levantou. O novo dono do Washington Post não estava mais interessado em desnudar presidentes, como o Post provou, em 1974, no escândalo de Watergate, denunciando as trapaças do também republicano Richard Nixon, que resultaram em sua renúncia para escapar de um impeachment certo.
Um púlpito caro até para um bilionário
Analistas políticos sugerem que a compra do Post também ofereceu a Bezos um “púlpito” de influência em Washington D.C., onde as decisões regulatórias afetam diretamente seus outros negócios, como a Amazon. Mas, os custos de uma indústria de produção de notícias com o nível que o jornal atingiu é caro, até para os bilionários.
A guilhotina em ação
Na semana passada, a notícia do corte de 300 profissionais do Post, decapitou um terço ou mais de 800 postos da redação. Foram encerradas seções inteiras do jornal como a resenha de livros e Esportes (em pleno ano de Copa do Mundo, Olimpíada de Inverno e pré-Olimpíada de 2028), valiosas sucursais em todo o Oriente Médio foram fechadas; inúmeros correspondentes mundo afora, dizimados por e-mail.
Substituição pela Inteligência Artificial?
Em entrevista à revista Vanity Fair, o respeitado Marty Baron, que chefiou o Post por oito anos até 2021amealhou dez Prêmios Pulitzer para o jornal e consolidou a instituição como força independente às invectivas de Trump.”Tenho ouvido que a ênfase maior daqui para a frente será em inteligência artificial. Devem estar se iludindo com o que a IA pode realmente fazer. Não sei como a IA cultivará fontes ou apurará o que acontece no mundo”, vaticinou.
IA não substitui o repórter
Marty Baron sustenta que, mesmo sendo uma ferramenta poderosa que deve ser usada, a IA não consegue substituir um repórter. Nem um bom chefe de redação. Em livro publicado dois anos atrás (“Collision of Power”) sobre o primeiro mandato de Trump, Baron relata embates de que Bezos deveria se orgulhar até hoje. Não mais.
— Pode ser o fim, ou o começo de uma era no jornalismo investigativo. O tempo dirá.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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