Quando um ex-governador do Pará veiculou no jornal de sua família, o artigo com o título de “A festa da Círio”, o mérito de Carlos Rocque na criação do Círio Fluvial se tornou inquestionável.
Ninguém esteve mais bem posicionado do que aquele político para a afirmação pública da autoria da procissão fluvial.
Porque o primeiro Círio Fluvial ocorreu em 1985, como uma realização da companhia de turismo do Pará – a Paratur -, órgão correspondente hoje à Secretaria Estadual de Turismo.
Portanto, no período, entre os anos de 1983 a 1987, no qual aquele político chefiou o Poder Executivo em nosso Estado,.
E quem, na época, dirigia a Paratur, por nomeação dele, era Carlos Rocque.
Naquele artigo, veiculado no dia 9 de outubro de 2001, o ex-governador Jader Barbalho não deixou dúvida:
“O historiador Carlos Rocque, na presidência da Paratur, criou a Romaria Fluvial”.
Porém, aquela não foi a única vez que, naquele cargo, Rocque procurou enriquecer a maior festa religiosa paraense.
Durante sua permanência na direção da Paratur, coube a ele também criar o Museu do Círio.
Outro mérito seu, oficialmente reconhecido, até no site oficial do museu.
Pois, o primeiro texto que se lê nele, começa assim:
“O Museu do Círio foi criado pelo Governo do Estado do Pará, em 09 de outubro de 1986, idealizado pelo jornalista e escritor Carlos Rocque”.
Rocque tinha uma ligação profunda com o Círio.
Quando assumiu a direção da Paratur, havia feito uma longa pesquisa sobre a gigantesca procissão.
E baseado nela tinha escrito a obra a “História do Círio e da Festa de Nazaré”.
Aquela relação de Rocque com o Círio, na verdade, expressava algo maior.
Traduzia uma espécie de compromisso existencial com a cultura amazônica.
Assumido por ele desde os anos de 1970, na sua condição de jornalista especializado em pesquisa histórica.
Afinal, com a mesma intensidade ele já havia se dedicado a outro tema relevante da nossa cultura.
Tinha passado a estudar a História da Política do Pará.
E, se sentia movido pela força dramática da trajetória do melhor prefeito de Belém, Antônio Lemos, que esteve à frente do comando de nossa capital, no período da Belle Époque amazônica, entre os anos de 1897 e 1911.
O nome de Rocque ficaria para sempre associado a este personagem central do período de exuberância da riqueza proporcionada pela exportação da borracha.
Uma riqueza refletida nas valiosas obras da administração de Lemos, como as de construções de praças, esgotos, coretos, quiosques, do Mercado de Ferro, do Crematório, do Necrotério, de arborização etc.
Este desempenho excepcional daquele administrador público Rocque reconstituiu no seu livro “Antônio Lemos e sua época”, publicado em 1973.
Mas, nele, não deixou de também relatar minuciosamente o modo chocante, cruel, desumano como Lemos foi expelido do poder e de Belém, em 1912.
Depois, foi além.
Rocque serviu com dedicação a uma comissão organizada no Pará para assumir o encargo de simbolicamente trazer Lemos de volta a Belém, 60 anos depois de sua expulsão da cidade.
Quando foi, por fim, realizado o translado para Belém de seus restos mortais enterrados num cemitério do Rio do Janeiro.
Na foto comovente daquele evento publicada pelos jornais, em 1972, foi possível reconhecer Rocque segurando uma das alças do caixão de Lemos.
Os anos de 1980 chegaram, e, Rocque passou a se dedicar a outro assunto caro à cultura paraense: a Cabanagem.
Sobre o tema, ele publicou, em 1985, o livro “Cabanagem, epopeia de um povo”.
E, na pesquisa que realizou, se envolveu até com escavações arqueológicas.
As quais, aliás, foram bem-sucedidas.
Pois, permitiram localizar as ossadas de cinco dos maiores líderes do movimento rebelde: Batista Campos, Eduardo Angelim, Antônio Vinagre, Francisco Vinagre e Félix Clemente Malcher.
Todas ficaram reservadas para o Memorial da Cabanagem que o Governo do Pará tinha intenção de construir no Complexo do Entroncamento.
Uma comissão foi constituída para que oficialmente recebesse o encargo de concretizar aquela intenção do governo.
E nela, Rocque assumiu o cargo de secretário executivo.
No período da sua construção, o monumento do memorial pôde contar com o arquiteto de Brasília, Oscar Niemeyer.
Ele tinha sido convidado e havia aceitado a tarefa de elaborar seu projeto.
Uma década se passou.
Nos anos de 1990, quem procurasse por Rocque, iria encontrá-lo mergulhado na pesquisa sobre o militar e político que, embora falecido em 1959, continuou a ser visto como uma das figuras mais relevantes para a política do Pará.
Segundo o jornal O Liberal, numa matéria publicada no dia 20 de junho do ano passado.
Joaquim de Magalhães Cardoso Barata governou o Pará como interventor nomeado por Getúlio Vargas, entre 1943 e 1945.
Depois se manteve senador, por 10 anos.
E, em seguida, foi eleito governador pelos paraenses.
Sobre ele, Rocque juntou um material tão vasto que teve de publicá-lo em dois volumes.
O primeiro volume, ele lançou, em 1998, quando foi comemorado um século do nascimento de Barata, com o título de “Magalhães Barata, o homem, a lenda, o político”
O segundo volume ele só publicaria em 2006, com o título de “Magalhães Barata, o homem, a lenda, o político”.
Mas, no mesmo ano da publicação do primeiro livro, ele tinha se engajado no movimento em prol da construção do Memorial Magalhães Barata, erguido em 1989, em São Brás.
Atuando como secretário executivo da Comissão do Centenário de Nascimento do ex-Governador.
Rocque morreu no ano 2.000.
Tinha ainda elaborado sozinho os livros de três enciclopédias sobre a Amazônia.
Os da “Antologia da Cultura Amazônica”, da “História dos Municípios do Pará”, e, de “A Grande Enciclopédia da Amazônia”.
E, tinha escrito livros esparsos.
Um de pesquisa histórica: “Depoimentos Para a História Política do Pará”.
E dois romances “O Poço dos Anseios Perdidos” e “Logo depois das chuvas”.
Era, então, chamado de “O Repórter da História”.
*Oswaldo Coimbra é escritor e jornalista
(Ilustração: Niemeyer mostra o projeto do memorial a Jader e Rocque)
English translation (Tradução para o inglês)
The Inventor of the River Procession of the Círio and the Rich Legacy of His Creations for Pará
When a former governor of Pará published in his family’s newspaper an article titled “The Feast of the Círio,”the merit of Carlos Rocque in creating the Fluvial Círio became unquestionable.
No one was better positioned than that politician to publicly confirm the authorship of the river procession.
The first Fluvial Círio took place in 1985 as an initiative of the Pará Tourism Company – Paratur, the agency that today corresponds to the State Secretariat of Tourism.
At that time, between 1983 and 1987, the politician in question headed the Executive Branch of our state.
And the person appointed by him to direct Paratur was Carlos Rocque.
In that article, published on October 9, 2001, former governor Jader Barbalho left no room for doubt:
“The historian Carlos Rocque, while serving as president of Paratur, created the River Pilgrimage.”
That, however, was not the only time Rocque, in that position, sought to enrich Pará’s greatest religious celebration.
During his tenure at Paratur, he was also responsible for creating the Círio Museum.
That merit of his is officially acknowledged, even on the museum’s official website, whose opening text reads:
“The Círio Museum was created by the Government of the State of Pará on October 9, 1986, conceived by journalist and writer Carlos Rocque.”
Rocque had a profound connection with the Círio.
When he took over Paratur, he had already carried out extensive research on the gigantic procession.
Based on that research, he wrote the book “History of the Círio and the Feast of Nazaré”.
Rocque’s relationship with the Círio, in fact, expressed something greater:
a kind of existential commitment to Amazonian culture – one he had embraced since the 1970s, as a journalist specialized in historical research.
With the same intensity, he had already devoted himself to another major theme of our culture: the political history of Pará.
He was deeply moved by the dramatic trajectory of Belém’s most outstanding mayor, Antônio Lemos,who governed the capital during the Amazonian Belle Époque, between 1897 and 1911.
Rocque’s name would forever be associated with this central figure of the rubber boom era – a time of great wealththat was reflected in Lemos’s valuable public works: the construction of squares, drainage systems, bandstands, kiosks,the Iron Market, the Crematorium, the Morgue, urban arborization, and more.
Rocque reconstructed this exceptional administrative career in his book “Antônio Lemos and His Time”, published in 1973.
In it, he also described in meticulous detail the shocking, cruel, and inhumane way in which Lemos was expelled from powerand from Belém in 1912.
Later, Rocque went further.
He served with dedication on a committee in Pará that symbolically sought to bringLemos back to Belém,sixty years after his exile.
Eventually, the remains of the former mayor – buried in a Rio de Janeiro cemetery – were brought back to Belém.
In a moving photograph published by newspapers in 1972, Rocque can be seen holding one of the coffin’s handles.
By the 1980s, Rocque had turned his attention to another subject dear to Pará’s culture: the Cabanagem.
He published the book “Cabanagem, Epic of a People” in 1985.
His research even led him to archaeological excavations – which proved successful,
as they revealed the remains of five of the rebellion’s greatest leaders: Batista Campos, Eduardo Angelim, Antônio Vinagre, Francisco Vinagre, and Félix Clemente Malcher.
Those remains were reserved for the Cabanagem Memorial, which the Government of Pará intended to buildin the Entroncamento Complex.
A commission was created to make that plan a reality, and Rocque served as its executive secretary.
During the construction phase, the memorial’s monument benefited from the participation of Brasília’s renowned architect,Oscar Niemeyer, who accepted the invitation to design its project.
A decade later, in the 1990s, Rocque could be found immersed in research on another major figure – the military officer and politician Joaquim de Magalhães Cardoso Barata,
who, though deceased since 1959, continued to be seen as one of Pará’s most significant political personalities.
According to “O Liberal” newspaper, in a report published on June 20 of last year.
Magalhães Barata governed Pará as an interventor appointed by Getúlio Vargas between 1943 and 1945.
He later served as a senator for ten years and was then elected governor by the people of Pará.
Rocque gathered such an extensive body of material on him that he had to publish it in two volumes.
The first volume, “Magalhães Barata: The Man, the Legend, the Politician”, was released in 1998, in commemoration of the centenary of Barata’s birth.
The second volume, with the same title, was published in 2006.
In the same year as the first volume’s release, Rocque became involved in the movement for the constructionof the Magalhães Barata Memorial, erected in 1989 in São Brás.
He served as the executive secretary of the Centennial Commission of the former governor’s birth.
Carlos Rocque passed away in the year 2000.
He had single-handedly written the volumes of three encyclopedic works about the Amazon: “Anthology of Amazonian Culture”, “History of the Municipalities of Pará”, and “The Great Encyclopedia of the Amazon”.
He also authored other books – one of historical research, “Testimonies for the Political History of Pará”,and two novels: “The Well of Lost Desires” and “Right After the Rains”.
He was affectionately known as “The Reporter of History.”
*Oswaldo Coimbra is a writer and journalist
(Illustration: Niemeyer presents the memorial’s design to Jader and Rocque)















