Michelle Bolsonaro fez o que poucos no círculo bolsonarista ousam: expôs publicamente as entranhas de uma família que sempre se apresentou como bloco monolítico.
Defesa de um ataque misógino
Em 27 minutos de vídeos nas redes sociais, a ex-primeira-dama descreveu, com riqueza de detalhes e emoção contida, o que classifica como humilhação pública e privada imposta pelo enteado e pré-candidato do PL ao Planalto, senador Flávio Bolsonaro. A crise não é episódica — é o ápice de um processo de erosão familiar que vem se desenhando desde dezembro, quando Flávio foi ungido pelo pai como o nome do bolsonarismo na corrida presidencial. Desde então, os dois não mais se falaram.
Ríspido e desrespeitoso
Michelle foi objetiva: “Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou”. O estopim foi a aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará — figura que Michelle classifica como “inimigo declarado” de Jair Bolsonaro. Ao manifestar contrariedade ao acordo, a ex-primeira-dama recebeu, segundo ela, uma ligação de Flávio que selou o rompimento. “Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido.
Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”, relatou. A fala revela não apenas um conflito pessoal, mas uma disputa de narrativas sobre quem detém legitimidade para falar em nome do bolsonarismo. Michelle, que preside o PL Mulher e ajudou a eleger 100 mulheres em 2024, viu-se reduzida a “alguém que chegou ontem” — uma ironia amarga para quem ocupou o posto de primeira-dama da República por quatro anos.
A tríade contra a madrasta
O que torna o episódio particularmente grave no tabuleiro político da direita é a coordenação entre os irmãos Bolsonaro. Michelle afirmou que Flávio, Eduardo e Carlos publicaram textos “bem parecidos uns com os outros, parecia combinado, premeditado”. A declaração sugere que a ex-primeira-dama passou a ser tratada como adversária interna pelo núcleo duro dos filhos de Bolsonaro. Eduardo já havia rompido com a madrasta após desaprovar abertamente sua eventual candidatura à Presidência ou Vice. Flávio, por sua vez, a chamou de “autoritária” um mês antes de ser lançado como pré-candidato. O cerco, aos olhos de Michelle, foi orquestrado.
Pragmatismo versus princípios
No centro da discórdia está um dilema clássico da política brasileira: até onde o pragmatismo eleitoral pode avançar sem desidratar a identidade ideológica de um campo político. Michelle deixou clara sua posição ao afirmar que “não vai trocar valores por pragmatismo político oportunista” e que Ciro Gomes “não terá meu apoio nunca”.
A defesa de um alinhamento mais principista contrasta com a visão de Flávio e dos caciques do PL, que enxergam na aliança cearense uma necessidade eleitoral. O episódio expõe uma fratura que não é apenas familiar — é estratégica, e revela que o bolsonarismo pós-Bolsonaro ainda não encontrou um norte único.
Silêncio, ausência e o caso “Dark Horse”
A tensão, contudo, não nasceu do acaso. Em maio, Michelle já havia gerado desconforto entre os enteados ao evitar defender Flávio publicamente na crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Em evento em Brasília, quando questionada sobre o caso, respondeu que perguntas deveriam ser feitas “ao próprio Flávio”.
Para completar, referiu-se ao ministro Alexandre de Moraes, do STF — algoz político da família — como “irmão em Cristo”, após o magistrado autorizar que Jair Bolsonaro recebesse um cabeleireiro durante a prisão domiciliar. A combinação de silêncio estratégico e gestos de independência política foi lida pelos irmãos Bolsonaro como afastamento deliberado.
O xadrez da sucessão
Nos bastidores do PL, a postura de Michelle é interpretada como um movimento calculado. Ela preserva capital político próprio para o cenário em que Jair Bolsonaro decida rediscutir os rumos da direita para 2026. O fato de não ter se encontrado pessoalmente com Flávio em todo o ano — comunicando-se apenas por intermédios de Rogério Marinho, Valdemar Costa Neto e Damares Alves — sugere que o rompimento já é operacional, não apenas retórico. A ex-primeira-dama, que chegou a indicar que disputaria o Senado pelo Distrito Federal, mantém-se em compasso de espera, “recolhida”, como ela mesma diz, mas longe da neutralidade política.
“Sinuca de bico” — “entre a cruz e a espada”
Enquanto Jair Bolsonaro se vê enredado em um imbróglio familiar sem saída aparente, autêntica “sinuca de bico”; Valdemar Costa Neto encontra-se pressionado entre dois líderes que foram decisivos para transformar o PL na maior legenda do país, no popular: “entre a cruz e a espada”.

Soberania em jogo — AGU defende Moraes nos EUA
Enquanto o clã Bolsonaro se despedaça em público, outro capítulo da novela jurídico-política brasileira ganhou contornos internacionais. A Advocacia-Geral da União ingressou na Justiça dos Estados Unidos pedindo a extinção do processo movido pela Rumble Inc. e pela Trump Media & Technology Group contra o ministro Alexandre de Moraes. O argumento central é de que o magistrado, como autoridade do Estado brasileiro, goza de imunidade de jurisdição — princípio consagrado tanto pelo Direito Internacional quanto pela lei federal americana (Foreign Sovereign Immunity Act).
Um precedente para o Direito Internacional
A ação das empresas americanas contesta decisões de Moraes que suspenderam contas e determinaram bloqueios em plataformas digitais — ordens que atingiram perfis ligados à direita política investigados pelo STF. A AGU sustenta que permitir que tribunais estrangeiros revisem atos jurisdicionais soberanos do Brasil representaria “grave ofensa à imunidade de jurisdição” e violaria o princípio da cortesia internacional.
O caso coloca em xeque um debate delicado: até onde vai a soberania de um país quando suas decisões judiciais impactam empresas e cidadãos de outra nação? A resposta da Justiça americana — que já autorizou a notificação eletrônica de Moraes — pode estabelecer jurisprudência relevante para os limites da atuação de cortes nacionais no ambiente digital globalizado. Nesta semana, a justiça americana aceitou incluir a Advocacia-Geral da União como polo ativo na defesa de Moraes, afastando o julgamento de uma até então inevitável decisão à revelia do réu, Alexandre de Moraes. O caso é inédito e expõe ao Mundo o Supremo Tribunal Federal brasileiro ao incômodo modus operandi de alguns de seus membros: ativistas políticos juramentados.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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