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Home Cultura

O grande intérprete do Brasil, no convívio com seu filho mais famoso

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
19/07/2026
in Cultura
O grande intérprete do Brasil, no convívio com seu filho mais famoso
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Sérgio Buarque de Holanda é considerado como um dos mais importantes intérpretes do Brasil.

Ele analisou criticamente a colonização portuguesa do Brasil, assim como a herança que ela deixou em nossa cultura, nas nossas relacões sociais, e, nas instituição do país.

Segundo Sérgio, a mentalidade colonial ainda influencia a construção do Estado brasileiro e as relações sociais no país.

Sérgio conquistou seu respeitável lugar, dentro da História da Cultura Brasileira, com sua teoria do Homem Cordial, apresentada em 1936, no livro “Raizes do Brasil”.

Segundo a qual, o brasileiro, herdeiro daquela mentalidade colonial portuguesa, é um ser que prioriza a cordialidade. Isto é, os laços emotivos, frente à razão. Isto, entre outras consequências negativas, faz com que, em nossa cultura, não se estabeleça, de maneira concreta, a diferenciação entre âmbito público e o privado.

Pois, como o Estado brasileiro absorve reflexos dessa característica do Homem Cordial, a ocupação dos cargos públicos é guiada pela intimidade com as autoridades, pelos afetos delas, e, não pelascompetências técnicas dos seus pretendentes. 

Segundo Sérgio, o Homem Cordial não gosta da rigidez do funcionamento das instituições. E não aprecia sequer a severidade dos dogmas religiosos, como os que estabelecem a distinção entre o profano e o sagrado.  

O historiador lembrou, como exemplo disto, a intimidade com a qual os brasileiros tratam os santos de sua preferência. Aos quais se referem, usando dimunitivos dos nomes deles. 

Por exemplo, Nossa Senhora de Nazaré é a santa que os paraenses veneram, a ponto de promoverem anualmente, em louvor dela, a maior manifestação católica do planeta, o Círio de Nazaré. 

No entanto, se referem a ela como a “Nazinha”.

Outra consequência da cordialidade brasileira, segundo o historiador, é a resistência à penetração, em nossa sociedade, da impessoalidade imposta pelo capitalismo.

Porque o brasileiro necessita criar intimidade com o outro, como condição de estabelecer qualquer tipo de relação. Um vendedor, por exemplo, para conquistar muitos clientes precisa tornar sua clientela num grupo de amigos.

Além de sociólogo, Sergio foi também, historiador, escritor, crítico literário, jornalista, ativista político.

E pai de sete filhos, a maioria dos quais se deixou influenciar pelo ambiente artístico-musical,  criado por ele e sua esposa, a pianista Maria Amélia Alvim, na casa da família, no bairro do Pacaembu, em São Paulo.

Como consequência, sobretudo, da presença neste ambiente do diplomata, poeta e músico Vinicius de Moraes, amigo de Sérgio, suas filhas, Miucha, Ana de Holanda e Cristina Buarque se tornaram cantoras.

E seu filho, Chico Buarque, hoje com 82 anos de idade, mantem brilhante carreira como compositor, cantor e escritor.   

Foi graças a Chico que os brasileiros puderam conhecer como se deu o convívio de um dos filhos com o consagrado sociólogo e historiador, no interior da família Buarque de Holanda.

Chico só começou falar mais, publicamente, sobre este assunto, apenas dezesseis anos depois da morte de Sérgio, aos 80 anos de idade, em 1982. 

Primeiro, numa longa entrevista a revista Caros Amigos, que ele deu em 1998. 

Depois, em 2010, no artigo dele, “Os dicionários de meu pai”, publicado pela revista Piauí.

Em 1998, na Caros Amigos, ele disse: 


“Só fui tomar conhecimento da importância intelectual do meu pai, já homem feito.

Quando eu era criança, não sabia exatamente o que meu pai tanto fazia naquele escritório dele dentro de nossa casa.

(Ouvia aquele cléc, cléc, cléc, o barulho da máquina. 

Eu não tinha muito ideia de quem era meu pai. 

Mesmo porque até professores, raramente, se referiam a ele como alguém importante. 

Muitas vezes, durante a minha infância toda, me perguntavam se eu era filho do Aurélio Buarque de Holanda. 

E, muitas vezes diziam: 

“Olha o sobrinho do Aurélio”. 

E eu fiquei com uma certa aversão ao Aurélio Buarque de Holanda. 

Eu dizia: 

‘Não sou filho, não sou sobrinho. Ele é um primo muito distante do meu pai’. 

Aquilo me chateava um pouco, não queria ser filho do Aurélio. 

Poucas vezes, um professor de História dizia: 

‘Ah, filho do Sérgio Buarque de Hollanda’. 

Mas não era uma referência forte como intelectual. 

O escritório de meu pai era fechado. 

Ele ficava, lá, e, crianças eram indesejadas. 

A não ser a filha preferida. Meu pai tinha a filha preferida. Ela podia entrar. A Ana. 

Todo mundo morria de ciúme dela porque só ela podia ir lá, na cadeira dele, sentava no colo dele, mexia nos papéis dele. O resto não entrava. 

Mas quando comecei a escrever Literatura, antes mesmo de fazer música, era com meu pai que eu dialogava. 

Tive acesso ao escritório através da senha da Literatura, quando levei os meus primeiros escritos, e ele, apesar de eu ser um garoto de quinze anos, levou a sério, me estimulou a escrever. 

Claro, criticando aquilo que estava escrito ali, dizendo: 

‘Você tem de ler mais’. 

Mas levando a sério, observando, lendo, né? 

Eu entrava e saía de fininho. 

Entregava coisas para ele ler. Ia pro quarto, ficava lá, paralisado, duro. E depois voltava. 

E aí meu pai dizia: 

‘Tem de trabalhar mais, tem de ler mais, lê isso, lê aquilo e tal’. 

O primeiro conto que publiquei, no suplemento literário do Estado de S. Paulo, foi o meu pai que encaminhou ao Décio de Almeida Prado. 

É um conto de juventude. 

Isso permanece ainda hoje, como naquela história do poema do João Cabral. 

Meu pai é a pessoa que João imaginava, olhando seu texto por cima do seu ombro. 

Não é sempre, mas muitas vezes é meu pai. 

Quando escrevi ‘Fazenda Modelo’, meu pai ainda era vivo. E eu mostrava para ele os primeiros capítulos. 

Ele leu, até gostou. 

Enfim, eu gostaria, por isto, entre outros motivos, de ter o meu pai vivo. Sinto falta dele. 

Quando termino um livro, seria a primeira pessoa a quem eu mostraria o original. 

Quando já podia entrar no escritório, uma vez, tomei um esporro do Flávio Motta, professor de História da Arte, na FAU e pintor, onde eu estudava, porque andava com um livro.

Era o ‘Macunaíma’, autografado pelo Mário de Andrade, para o meu pai. Primeira edição. 

Eu estava lendo e, aquela coisa, vida de faculdade, você ia para o grêmio, bebia e tal. 

E o Flávio Motta: 

‘O que você está fazendo com esse livro, rapaz?’. 

Hoje, há o meu pai e outras pessoas em relação às quais, às vezes, eu digo: 

‘Isso tem a ver com fulano’. 

De certa forma, alguma coisa que escrevo estabelece uma ponte com algum autor que eu gostaria de ter ao lado naquele momento. 

Não dialogar, como quem diz ‘fulano gostaria disso, meu pai gostaria disso’. 

Nunca, no sentido de eu achar que estou fazendo uma coisa parecida com esse ou aquele autor. 

Isso não acontece comigo em Literatura. 

É engraçado. Por mais que eu admire quinhentos autores, se disserem ‘esse trecho parece com Shakespeare’, não vou ficar contente. 

É evidente que não me acho superior a nenhum desses autores, mas um elogio desses não me satisfaz. 

É engraçado isso porque com Música, se você disser ‘essa coisa lembra Debussy, isso lembra Tom Jobim, isso lembra Vila Lobos’, fico altamente lisonjeado. 

Com Literatura, isso não acontece. 

Parece que me sinto mais dono do que escrevo, em Literatura, do que no caso da Música. 

Mas existe um rigor formal na escrita do meu pai que procuro não desmerecer, quando faço Literatura. 

Na Unicamp reconstituíram a biblioteca do meu pai

A biblioteca dele, atualmente, está na Unicamp. Ficou até muito bom. 

Eles reconstituíram o escritório do meu pai, esse ao qual eu não tinha acesso, com a poltrona, a máquina de escrever, os livros. 

Nesse, posso entrar sem bater na porta. 

E desses livros, em primeira edição e autografados, como ‘Macunaima’,alguns não estão na Unicamp. Ficaram com a família. 

Tenho ‘O Grande Sertão’, primeira edição, autografada por Guimarães Rosa, dedicada ao meu pai. 

Tenho ‘Vidas Secas’, de Graciliano Ramos. ‘História da Música Brasileira’, do Mário de Andrade. Tenho Oswald de Andrade, algumas primeiras edições, com autógrafo, para o meu pai. 

Tenho ‘O Estrangeiro’, do Camus, dedicado à minha mãe, quando ele esteve no Brasil. Esse eu roubei da minha irmã”.

Em, 2010, na Revista Piauí, Chico acrescentou, num tom brincalhão:


“Pouco antes de morrer, meu pai me chamou ao escritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. 

Era o dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. 

Ficava quase escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete, entre outros livros de consulta que papai mantinha ao alcance da mão numa estante giratória. 

‘Isso pode te servir’, foi mais ou menos o que ele, então, me disse, no seu falar meio grunhido. 

Era como se ele, cansado, me passasse um bastão que, de alguma forma,eu deveria levar adiante. 

E, por um bom tempo, aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas em que eu o folheava à toa. 

O amor aos dicionários, para o sérvio Milorad Pavic, autor de romances-enciclopédias, é um traço infantil no caráter de um homem adulto. 

Palavra puxa palavra, e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo, desenfado, espairecimento, entretém, solaz, recreio, filistria. 

O resultado é que o livro, herdado, já em estado precário, começou a se esfarelar nos meus dedos. 

Encostei-o na estante das relíquias, ao descobrir, num sebo, atrás da Sala Cecilia Meireles, no Rio, o mesmo dicionário, em encadernação de percalina. 

Por dentro, estava em boas condições, apesar de algumas manchas amareladas, e, de trazer, na folha de rosto, a palavra anauê, escrita a caneta-tinteiro. 

Com esse livro escrevi novas canções, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. 

E, ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí, de sebo em sebo, pelo Rio de Janeiro, para me garantir com um dicionário analógico de reserva. 

Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito. 

Fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora. 

Só em São Paulo, adquiri meia dúzia de exemplares, e, ainda arrematei o último à venda na Amazon, antes que algum aventureiro o fizesse. 

Eu já imaginava deter o monopólio, açambarcamento, exclusividade, hegemonia, senhorio, império, de dicionários analógicos da Língua Portuguesa, não fosse pelo senhor João Ubaldo Ribeiro, que, ao que me consta, também teve um.

Quiçá carcomido pelas traças, brocas, carunchos, gusanos, cupins, térmitas, cáries, lagartas-rosadas, gafanhotos, bichos-carpinteiro. 

A horas mortas, eu corria os olhos pela minha prateleira repleta de livros gêmeos, escolhia um a esmo, e, o abria a bel-prazer. 

Então anotava num caderno Moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais

(Ilustração: Sérgio Buarque de Holanda e Chico Buarque)

The Great Interpreter of Brazil, in the

Company of His Most Famous Son

Sérgio Buarque de Holanda is regarded as one of Brazil’s most important interpreters of the nation. 

He critically examined the Portuguese colonization of Brazil, as well as the legacy it left in the country’s culture, social relations, and institutions.

According to Sérgio, the colonial mindset continues to influence the construction of the Brazilian state and the nature of social relations in the country.

He earned his distinguished place in the history of Brazilian culture through his theory of the Cordial Man (Homem Cordial), presented in 1936 in his landmark book Roots of Brazil (Raízes do Brasil).

According to this theory, Brazilians, as heirs to the Portuguese colonial mentality, tend to place cordiality—that is, emotional ties—ahead of reason. 

Among its various negative consequences, this trait has prevented a clear distinction between the public and private spheres from becoming firmly established in Brazilian culture.

Because the Brazilian state itself reflects aspects of the Cordial Man, appointments to public office are often influenced by personal closeness to those in power and by their affections rather than by the technical qualifications of the candidates.

Sérgio also argued that the Cordial Man dislikes the rigidity of institutional structures and even resists the strictness of religious dogmas, such as those that distinguish the sacred from the profane.

As an example, the historian pointed to the familiarity with which Brazilians address the saints they hold dear, often using affectionate diminutives. 

Our Lady of Nazareth, for instance, is the patron saint deeply venerated by the people of the state of Pará, who honor her each year with the Círio de Nazaré, the largest Catholic procession on the planet. 

Yet they affectionately refer to her as “Nazinha.”

Another consequence of Brazilian cordiality, according to Sérgio, is society’s resistance to the impersonality imposed by capitalism.

Brazilians, he argued, feel the need to establish personal closeness before forming any kind of relationship. A salesperson, for example, is more likely to succeed by turning customers into friends.

In addition to being a sociologist, Sérgio was also a historian, writer, literary critic, journalist, and political activist.

He was the father of seven children, most of whom were influenced by the artistic and musical atmosphere that he and his wife, the pianist Maria Amélia Alvim, cultivated in their family home in the Pacaembu neighborhood of São Paulo.

This environment was enriched above all by the frequent presence of diplomat, poet, and musician Vinicius de Moraes, one of Sérgio’s close friends.

His daughters Miúcha, Ana de Holanda, and Cristina Buarque became singers.

His son, Chico Buarque—now 82 years old—continues to enjoy a distinguished career as a composer, singer, and writer.

It was through Chico that Brazilians gained a glimpse of what it was like to grow up with the renowned sociologist and historian within the Buarque de Holanda household.

Chico only began speaking publicly about this aspect of his life sixteen years after Sérgio’s death, at the age of eighty, in 1982.

He first did so in a lengthy interview with Caros Amigos magazine in 1998.

He later returned to the subject in his 2010 essay, “My Father’s Dictionaries” (Os dicionários de meu pai), published in Piauímagazine.

In 1998, during an interview with Caros Amigos magazine, Chico Buarque said:

“I only came to realize my father’s intellectual importance after I was already an adult.

When I was a child, I had no real idea what my father spent so much time doing in that study of his at home.

I would hear the click, click, click of the typewriter.

I didn’t really know who my father was.

Even my teachers rarely referred to him as someone important.

Throughout much of my childhood, people would ask whether I was the son of Aurélio Buarque de Holanda.

And they would often say,

‘Look, Aurélio’s nephew.’

I ended up developing a certain aversion to Aurélio Buarque de Holanda.

I’d reply,

‘I’m neither his son nor his nephew. He’s a very distant cousin of my father.’

That bothered me a little. I didn’t want to be Aurélio’s son.

Only occasionally would a history teacher say,

‘Oh, you’re Sérgio Buarque de Holanda’s son.’

But even then, it wasn’t because he was recognized as a major intellectual.

My father’s study was always closed.

He stayed in there, and children were not welcome.

Except for his favorite daughter. My father had a favorite daughter. She was allowed in. Ana.

Everyone was terribly jealous of her because she alone could go into his study, sit in his chair, climb onto his lap, and handle his papers. The rest of us were not allowed in.

But when I started writing literature, even before I began making music, it was with my father that I entered into dialogue.

I gained access to his study through the password of literature, when I brought him my first writings. Even though I was only fifteen years old, he took them seriously and encouraged me to write.

Of course, he criticized what I had written, saying,

‘You need to read more.’

But he took my work seriously. He paid attention. He read it.

I would slip quietly in and out.

I’d leave something for him to read, go back to my room, and wait there, frozen with anxiety.

Then I’d return.

And my father would say,

‘You need to work harder. You need to read more. Read this, read that.’

The first short story I ever published, in the literary supplement of O Estado de S. Paulo, was submitted by my father to Décio de Almeida Prado.

It was a youthful story.

That feeling remains with me even today, much like João Cabral’s poem.

My father is the person João imagined looking over his shoulder while reading his text.

Not always, but very often, that person is my father.

When I wrote Animal Farm (Fazenda Modelo), my father was still alive, and I showed him the first chapters.

He read them and actually liked them.

For that reason, among many others, I wish my father were still alive.

I miss him.

Whenever I finish a book, he would be the first person to whom I would show the manuscript.

Once I was finally allowed into his study, I got a severe scolding from Flávio Motta, a professor of Art History at the School of Architecture and Urbanism, where I studied, and also a painter, because I was carrying around a book.

It was a first edition of Macunaíma, autographed by Mário de Andrade to my father.

I was reading it, but you know what college life is like—you’d go to the student union, have a few drinks, and so on.

Then Flávio Motta said,

‘What on earth are you doing carrying that book around, young man?’

Today, besides my father, there are other people about whom I sometimes think,

‘This has something to do with so-and-so.’

In a way, something I write creates a bridge to an author I wish could be beside me at that moment.

Not because I think,

‘So-and-so would like this,’ or ‘My father would like this.’

Never in the sense of believing that I’m writing something similar to this or that author.

That never happens to me in literature.

It’s curious. No matter how much I admire five hundred different writers, if someone says,

‘This passage sounds like Shakespeare,’

I won’t be pleased.

Obviously, I don’t think I’m superior to any of those authors, but that kind of compliment doesn’t satisfy me.

It’s funny because it’s exactly the opposite with music.

If someone says,

‘This reminds me of Debussy, Tom Jobim, or Villa-Lobos,’

I feel deeply honored.

With literature, it’s different.

I seem to feel a greater sense of ownership over what I write in literature than over what I compose in music.

But there is a formal rigor in my father’s writing that I try not to fall short of whenever I write literature.”

At Unicamp, They Recreated My Father’s Library

His library is now housed at the University of Campinas (Unicamp). They did a wonderful job.

They recreated my father’s study—the very room I was never allowed to enter—with his armchair, typewriter, and books.

Now I can walk in without even knocking on the door.

Some of those books, however, especially the first editions bearing personal inscriptions—such as Macunaíma—are not at Unicamp. They remained with the family.

I own a first edition of The Devil to Pay in the Backlands (Grande Sertão: Veredas), inscribed by João Guimarães Rosa to my father.

I also have Barren Lives (Vidas Secas), by Graciliano Ramos; History of Brazilian Music (História da Música Brasileira), by Mário de Andrade; and several first editions by Oswald de Andrade, all personally inscribed to my father.

I also have The Stranger (L’Étranger), by Albert Camus, dedicated to my mother when he visited Brazil.

That one I stole from my sister.”

In 2010, writing for Piauí magazine, Chico added, in a playful tone:

“Shortly before he died, my father called me into his study and handed me a black-covered book I had never seen before.

It was Francisco Ferreira dos Santos Azevedo’s Analogical Dictionary.

It had been almost hidden beside the five large volumes of the Caldas Aulete Dictionary, among the reference books my father always kept within reach on a revolving bookshelf.

‘This may be useful to you,’ was more or less what he said, in his characteristically gruff manner.

It was as if, weary, he were passing me a baton that I should somehow carry forward.

For a long time, that book helped me put the finishing touches on my novels and song lyrics, not to mention the countless hours I spent leafing through it for no particular reason.

According to the Serbian writer Milorad Pavić, author of encyclopedia-like novels, a love of dictionaries is a childlike trait preserved in an adult man.

One word leads to another, and digging through the Analogical Dictionary gradually became for me a pastime, a diversion, a relaxation, an amusement, a solace, a recreation.

Eventually, the inherited volume, already in fragile condition, began to crumble in my hands.

I placed it on the shelf reserved for treasured relics after discovering, in a secondhand bookstore behind the Cecília Meireles Hall in Rio de Janeiro, another copy of the same dictionary, bound in percaline cloth.

Inside, it was in good condition, despite a few yellowed stains and the word anauê, written in fountain pen on the title page.

With that copy, I wrote new songs, solved riddles, and completed countless crossword puzzles.

When it too began to show signs of wear, I started going from one used bookstore to another throughout Rio de Janeiro to secure a backup copy.

I found two, but I still wasn’t satisfied.

I became addicted to the hunt.

I began searching bookstores all over Brazil.

In São Paulo alone, I acquired half a dozen copies, and I even bought the last one available on Amazon before some adventurous collector could get it.

I had begun to imagine that I held the monopoly—the exclusive dominion, supremacy, and empire—over analogical dictionaries of the Portuguese language, were it not for João Ubaldo Ribeiro, who, as far as I know, also owned one.

Perhaps his copy had already been devoured by moths, woodworms, beetles, grubs, termites, borers, caterpillars, grasshoppers, and every imaginable book-eating creature.

In idle moments, I would let my eyes wander across my shelf filled with identical volumes, pick one at random, and open it wherever it pleased me.

Then I would write the most precious words in a Moleskine notebook, hoping to refine my vocabulary with which I might astonish young women and overwhelm my rivals.”

(Ilustração: Sérgio Buarque de Holanda and Chico Buarque)

Tags: artistaschico buarqueculturaDestaquefamososHistória
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Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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