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Home Cultura

O grande ator Cláudio Barradas confessou: estava apaixonado, quando resolveu ser padre

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
02/05/2026
in Cultura
O grande ator Cláudio Barradas confessou: estava apaixonado, quando resolveu ser padre
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Não dá para se pensar numa História do Teatro no Pará e no Brasil, sem pensar em Cláudio Barradas.

Esta avaliação da importância do personagem da nossa cultura, cujo nome foi dado ao teatro da Escola de Teatro e Dança, da UFPa, em Belém, foi feita, no dia 26 de outubro de 2021, numa reunião do Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão daquela instituição, por uma integrante daquele órgão, Zélia Amador de Deus.

Zélia, atriz, diretora de teatro, doutora em Ciências Sociais e ex-vice-reitora da UFPa, propôs, naquela reunião, a concessão do título de Professor Emérito da UFPa a Barradas.

Ela argumentou lembrando que ele, além de ator, diretor, encenador, foi também professor de várias gerações de alunos de teatro.

Sua proposta provocou a manifestação de outro membro ilustre daquele conselho, o professor Ernani Chaves.

Ele disse:

 “Eu só gostaria de reiterar que Cláudio Barradas foi, e continua sendo, um grande professor, um grande mestre, que honra a Universidade Federal do Pará. E que, portanto, a concessão desse título não é apenas uma forma de homenageá-lo, como ele merece.

Mas, principalmente, é um modo de agradecer pelo que ele fez por nossa instituição, por várias décadas de trabalho incessante, disciplinado e profícuo”.

O conselho aprovou a proposta de Zélia, por aclamação. 

Barradas morreu no ano passado, no dia 30 de junho, com 95 anos de idade, sem nunca ter abandonado o teatro, como campo de expressão artística, nas suas mais diversas especializações.

Por isto, por mais que pareça inacreditável a quem não o conheceu, a verdade, porém, é que o teatro sequer foi a única área da produção cultural de Barradas. 

Pois, ele foi, também, jornalista, escritor, radioator, teleator e ator de cinema.

E, se tudo isto já não fosse suficiente espantoso, Barradas foi, ainda, padre.

Por 33 anos.

Em 2004, ele era vigário da paróquia de Jesus Ressuscitado, no conjunto Médice, do bairro da Marambaia.

E, na casa paroquial, com 74 anos de idade, concedeu uma longa entrevista a um grupo de pesquisadores da UFPa, dedicados à História do Cinema do Pará.

Tinha o que contar porque havia atuado como ator em filmes de Líbero Luxardo.

Num momento da entrevista, falou do seu ingresso no Seminário, onde começou a estudar para se tornar  padre.

E fez uma confidência inesperada: estava, naquela fase, apaixonado por uma garota de nome Margarida.

A seguir publicamos este trecho da sua entrevista.

Em que circunstância ocorreu sua ida para o seminário?

Entrei para o seminário em janeiro de 1943, com 13 anos de idade. Antes de me tornar seminarista, eu havia estudado no Externato Misto Santa Luzia, e, havia também permanecido por dois anos no Colégio Nazaré. Como no colégio eu fazia parte daqueles que eram considerados bons alunos, os maristas começaram a fazer a minha cabeça para que eu me tornasse religioso.

O colégio já era visto como um lugar para os filhos da elite paraenses?

No colégio havia os alunos que pagavam, e, havia uma turma, separada das restantes, formadas por alunos pobres, entre os quais eu estava. Esta turma ficava instalada numa casa antiga, no meio do prédio recém-construído do colégio. Era identificada com o nome de Escola São José. Cada turma do colégio ficava sob a responsabilidade de um irmão. Quem cuidava da nossa turma era o irmão Ligório, um espanhol baixinho, entroncado. Ele ministrava para nós as aulas de todas as matérias. Era também o sacristão do colégio, e, eu o ajudava nisto.

A escola ficava num espaço segregado do colégio?

Não sei. Sei que, naquela fase, foi feito um novo prédio para o Colégio Nazaré. No centro da área ocupada pelo colégio, havia os campos de esporte, um pátio enorme, e, esta casa onde funcionava a Escola São José, gratuita. Ela existe até hoje, com o nome de Escola Padre Champagnat. Nela se ensinavam as matérias da 3ª e 4ª séries do antigo curso primário. Quando chegou o momento de eu cursar a 4ª série, a escola foi transferida para uma das casas antigas, ao lado do colégio. Fiquei nela nos anos de 1941 e 1942.

Foi assim que foi influenciado a entrar no seminário?

Os maristas me incentivavam a entrar para a ordem deles. Foi também neste período que recebi o sacramento da crisma, no Colégio Nazaré, das mãos de dom Antônio de Almeida Lustosa, que hoje é candidato a santo.

Foi, igualmente, neste período que você descobriu que tinha uma voz bonita, de soprano?

O meu padrinho de crisma, muito católico, era uma espécie de sósia de dom Alberto Ramos, de quem, aliás, ele foi compadre. Chama-se Osmar de Souza. Ele é cantor e, hoje, funcionário aposentado do Banco do Brasil. Eu queria porque queria ser membro da Cruzada Eucarística. Meu padrinho, ao invés de me levar para junto dos cruzadinhos, me levou para a Basílica de Nazaré e me apresentou ao irmão Pedro. Lá, viram que eu tinha aquela voz belíssima de soprano, e, me encaixaram na Escola Cantorum da basílica.

Você se integrou facilmente ao grupo destes alunos?

A meninada que pertencia à Escola Cantorum jogava futebol todos os dias da semana, menos nos sábados e domingos, das quatro às cinco da tarde, numa área perto da basílica, onde hoje há um estacionamento. Como eu não gostava de futebol, ficava sentado no campo de futebol, olhando os jogos e conversando com um grande amigo meu de infância, o Agostinho Conduru, que também, depois, se tornou um homem de teatro. Não sei se devido a isto – já que eu não era aviadado – passaram a me apelidar de “Rainha”. Mas eu não ligava. O certo é que me achavam metido a besta porque eu não gostava de me envolver com a molecada. Às vezes, nem ia ver estes jogos. O irmão Pedro mandava me buscar em casa e queria saber o que havia acontecido comigo. Quando eu já nem pensava em ser padre, este meu padrinho também me influenciou a entrar no seminário.

Por que você não pensava mais em entrar para o seminário?

Porque eu, garoto, me apaixonei por uma caboclona, grandona, meio vesga, chamada Margarida.

Quem era ela?

Era uma vizinha nossa, muito amiga da mamãe. Eu já morava na Rua Domingos Marreiros. Tínhamos saído do “barracão de zinco” onde eu nasci. Por sinal, quando, depois disto, nós estávamos na casa da Rua Padre Prudêncio, perto do Largo da Trindade, houve uma revolta militar. Minha mãe contava que, por cima de nosso quintal, passavam balas e que, pela nossa rua, passavam feridos. Ela observava tudo, pois era muito curiosa.  Depois, passei quase todo o resto da minha infância na Rua Domingos Marreiro, 566, perto da Casa Quaresma.

A Margarida era uma empregada doméstica?

Não. Tínhamos como vizinhos um casal com um bocado de sobrinhas. Ela era uma destas sobrinhas.

Ela sabia que você estava apaixonado?

Sabia porque depois me mandou uns bilhetes, aliás, muito mal escritos.

E como, afinal, se consumou seu ingresso no seminário?

Meu padrinho aos domingos me levava à basílica deNazaré, depois me levava para almoçar na casa dele, ali perto do Hospital da Ordem Terceira e da agência do Banco do Brasil. Era nesta agência que ele trabalhava, se não me engano, como caixa. A comida da casa dele era gostosíssima. Mas, depois, vinha um momento chato porque ele ia fazer a sua sesta. Eu ficava na sala da casa, sentado numa cadeira dura. Ao lado da cadeira, havia um aparelho de rádio, sempre ligado num programa do Edgar Proença, na PRC-5. Nele, o radialista pedia doação de dinheiro para os hansenianos. Eu achava o programa chatérrimo. Até hoje tenho um trauma relacionado com a música que era usada como seu prefixo – “Fascinação”. Depois da sesta, o meu padrinho, que gostava de freqüentar campo de futebol, ia assistir a jogos. Não me lembro se eu ia junto com ele, ou se pegava um ônibus de volta para minha casa. Sei que, num destes domingos, ele me levou ao arcebispado. Lá, me apresentou a dom Alberto Ramos, compadre dele. Naquela época, o, então, padre Alberto Ramos tinha, entre suas obrigações, a de cuidar das vocações sacerdotais. O padre Alberto, embora fosse jovem, já era nervoso, agitado, como sempre foi depois. Para mim, o padre disse: “Amanhã você entra para o seminário”. Assim, no dia seguinte, uma segunda-feira, eu fui para o seminário, sem sequer ter enxoval próprio. Me puseram no seminário num estalo, quando já nem pensava mais em ser padre.

Como você se sentiu nas primeiras semanas de seminário?

Sempre fui meio romântico. No seminário, eu passei a cuidar de um jardinzinho. E, nele, plantei umas margaridas em homenagem à Margarida. As visitas dominicais – já não me lembro se eram semanais ou quinzenais -, se estendiam das duas horas da tarde às três ou quatro horas. Naquelas ocasiões, chegava lá no seminário a minha família: meus pais e minhas irmãs. Minhas irmãs diziam que detestavam ter que ir para o seminário num domingo. Mas levavam muito doces para mim. Veja só como estava meu estado psicológico. Eu perguntava: “Como vai fulano? Como vai sicrano?”. Na verdade, eu queria saber mesmo era da Margarida, mas nunca perguntei diretamente por ela. Por isto, também ninguém falava nela. Até que depois de uns três meses, sem que eu mencionasse o nome dela, me disseram: “Tu lembras da Margarida? Ela se casou com um primo dela. Na polícia. Estava grávida”. Quando acabou o horário da visita, no dia em que me contaram isto, eu fui ao jardinzinho e destruí todas as margaridas que estava cultivando lá. Mais tarde, transformei este episódio num conto, que nunca foi publicado.

(Ilustração: Cláudio Barradas numa cena da peça “Abraço”, com Zê Charone, no Theatro da Paz)

The Great Actor Cláudio Barradas Confessed:
He Was in Love When He Decided to Become a Priest

It is impossible to think of a History of Theater in Pará and in Brazil without thinking of Cláudio Barradas.

This assessment of the importance of this figure in our culture—whose name was given to the theater of the School of Theater and Dance at UFPA, in Belém—was made on October 26, 2021, during a meeting of the Higher Council for Teaching, Research, and Extension of that institution by one of its members, Zélia Amador de Deus.

Zélia—an actress, theater director, PhD in Social Sciences, and former vice-rector of UFPA—proposed at that meeting that Barradas be granted the title of Professor Emeritus of UFPA.

She argued by recalling that, in addition to being an actor, director, and stage director, he was also a teacher of several generations of theater students.

Her proposal prompted a statement from another distinguished member of that council, Professor Ernani Chaves.

He said:

“I would just like to reiterate that Cláudio Barradas was, and continues to be, a great teacher, a great master, who honors the Federal University of Pará. Therefore, granting this title is not merely a way of honoring him, as he deserves.

But, above all, it is a way of expressing gratitude for what he has done for our institution, for several decades of tireless, disciplined, and fruitful work.”

The council approved Zélia’s proposal by acclamation.

Barradas died last year, on June 30, at the age of 95, without ever having abandoned theater as a field of artistic expression, in its many different forms.

For this reason, however unbelievable it may seem to those who did not know him, the truth is that theater was not even the only area of cultural production in which Barradas was involved.

He was also a journalist, writer, radio actor, television actor, and film actor.

And if all of this were not astonishing enough, Barradas was also a priest.

For 33 years.

In 2004, he was the vicar of the parish of Jesus Ressuscitado, in the Médice housing complex, in the Marambaia neighborhood.

There, in the parish house, at the age of 74, he gave a long interview to a group of UFPA researchers dedicated to the History of Cinema in Pará.

He had much to tell, as he had acted in films by Líbero Luxardo.

At one point in the interview, he spoke about his entry into the seminary, where he began studying to become a priest.

And he made an unexpected confession: at that time, he was in love with a girl named Margarida.

Below we publish this excerpt from his interview.


Under what circumstances did you go to the seminary?

I entered the seminary in January 1943, at the age of 13. Before becoming a seminarian, I had studied at Externato Misto Santa Luzia, and I had also spent two years at Colégio Nazaré. Since I was considered one of the good students, the Marists began to influence me to become a religious.

Was the school already seen as a place for the children of Pará’s elite?

At the school, there were students who paid, and there was also a group, separate from the others, made up of poor students, among whom I was included. This group was housed in an old building located within the newly constructed school complex. It was known as Escola São José. Each class at the school was under the responsibility of a brother. Ours was overseen by Brother Ligório, a short, stocky Spaniard. He taught us all subjects. He was also the school’s sacristan, and I helped him with that.

Was the school located in a segregated space within the institution?

I don’t know. What I do know is that, at that time, a new building was constructed for Colégio Nazaré. In the center of the area occupied by the school, there were sports fields, a huge courtyard, and this house where the free Escola São José operated. It still exists today under the name Escola Padre Champagnat. There, the subjects of the 3rd and 4th grades of the old primary course were taught. When it was time for me to attend the 4th grade, the school was moved to one of the old houses next to the main building. I studied there in 1941 and 1942.

Was that how you were influenced to enter the seminary?

The Marists encouraged me to join their order. It was also during this period that I received the sacrament of confirmation at Colégio Nazaré, from Dom Antônio de Almeida Lustosa, who is now a candidate for sainthood.

Was it also during this period that you discovered you had a beautiful soprano voice?

My confirmation sponsor, a very devout Catholic, looked somewhat like Dom Alberto Ramos—indeed, he was his compadre. His name is Osmar de Souza. He is a singer and is now a retired employee of Banco do Brasil. I really wanted to join the Eucharistic Crusade. But instead of taking me there, my sponsor took me to the Basilica of Nazaré and introduced me to Brother Pedro. There, they noticed that I had a very beautiful soprano voice and placed me in the Escola Cantorum of the basilica.

Did you easily integrate into the group of students?

The boys from the Escola Cantorum played soccer every day of the week, except Saturdays and Sundays, from four to five in the afternoon, in an area near the basilica where there is now a parking lot. Since I didn’t like soccer, I would sit on the field, watching the games and talking to a childhood friend of mine, Agostinho Conduru, who later also became a man of the theater. I don’t know if it was because of that—since I wasn’t effeminate—they started calling me “Queen.” But I didn’t mind. The truth is they thought I was stuck-up because I didn’t like mingling with the other boys. Sometimes I wouldn’t even go watch the games. Brother Pedro would send for me at home and wanted to know what had happened. When I was no longer even thinking about becoming a priest, this same sponsor influenced me to enter the seminary.

Why were you no longer thinking about entering the seminary?

Because, as a boy, I fell in love with a big, somewhat cross-eyed cabocla girl named Margarida.

Who was she?

She was a neighbor of ours, very close to my mother. At that time, I was already living on Domingos Marreiros Street. We had left the “tin shack” where I was born. By the way, when we later lived on Padre Prudêncio Street, near Largo da Trindade, there was a military revolt. My mother used to say that bullets flew over our backyard and that wounded people passed through our street. She observed everything, as she was very curious. After that, I spent almost the rest of my childhood at 566 Domingos Marreiros Street, near Casa Quaresma.

Was Margarida a domestic worker?

No. Our neighbors were a couple who had many nieces. She was one of those nieces.

Did she know you were in love?

Yes, because she later sent me some notes—very poorly written ones, by the way.

And how did your entry into the seminary finally happen?

On Sundays, my sponsor would take me to the Basilica of Nazaré, then to lunch at his house, near the Hospital of the Third Order and the Banco do Brasil branch where he worked, I believe, as a cashier. The food at his house was delicious. But afterward came a dull moment, because he would take his afternoon nap. I would stay in the living room, sitting on a hard chair. Next to it was a radio, always tuned to a program by Edgar Proença on PRC-5. In it, the broadcaster asked for donations for people with Hansen’s disease. I found the program extremely boring. To this day, I have a kind of trauma associated with the song used as its theme—“Fascination.” After his nap, my sponsor, who liked going to soccer matches, would go to the games. I don’t remember whether I went with him or took a bus home. What I do know is that, on one of those Sundays, he took me to the archbishop’s residence. There, he introduced me to Dom Alberto Ramos, his compadre. At that time, Father Alberto Ramos was responsible for fostering priestly vocations. Although he was young, he was already nervous and restless, as he always remained. He told me: “Tomorrow you enter the seminary.” And so, the next day, a Monday, I went to the seminary, without even having my own layette. They placed me in the seminary just like that, when I was no longer even thinking about becoming a priest.

How did you feel in the first weeks at the seminary?

I have always been somewhat romantic. At the seminary, I began taking care of a small garden. In it, I planted daisies in honor of Margarida. Sunday visits—whether weekly or biweekly, I no longer remember—took place from two in the afternoon until three or four. On those occasions, my family would come: my parents and my sisters. My sisters said they hated having to go to the seminary on Sundays. But they brought me lots of sweets. Just imagine my psychological state. I would ask, “How is so-and-so? How is this person?” In truth, I wanted to know about Margarida, but I never asked directly. So no one mentioned her. Until, after about three months, without my ever bringing up her name, they said: “Do you remember Margarida? She married one of her cousins. A policeman. She was pregnant.” When visiting hours ended that day, I went to my little garden and destroyed all the daisies I had planted there. Later, I turned this episode into a short story, which was never published.


(Illustration: Cláudio Barradas in a scene from the play “Abraço,” with Zê Charone, at Theatro da Paz)

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Oswaldo Coimbra

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Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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