Michelle Bolsonaro avisou o marido antes de gravar e divulgar o vídeo em que acusa o enteado Flávio Bolsonaro de lhe aplicar uma “punhalada”. Jair Bolsonaro, segundo aliados que acompanharam o episódio de perto, foi comunicado, mas não interferiu nem opinou. “Ele está na Faixa de Gaza. Deixou ela desabafar”, resumiu um interlocutor comum, em referência ao isolamento político do ex-presidente. A ex-primeira-dama teria dito que chegara “ao limite” — não apenas com as acusações vindas de aliados dos filhos, mas também com a entrevista em que Ciro Gomes (PSDB) equiparou Lula e Bolsonaro, em mais um de seus usuais arroubos retóricos desprovidos de provas.
O racha familiar que assombra o PL
A postagem do vídeo, que pegou a todos de surpresa, acendeu um sinal de alerta no PL. O temor, expresso reservadamente por políticos da legenda, é que o imbróglio transmita à opinião pública a imagem de uma família que, incapaz de se entender durante a campanha, teria ainda mais dificuldades para governar.
Os Bolsonaros: apenas uma família comum?
De um lado, Flávio Bolsonaro e seu entorno mais próximo teriam subestimado o impacto da divisão entre o enteado e a madrasta — uma rusga que se arrastou por tempo demais até explodir em praça pública. De outro, a “turma radical” com quem Eduardo Bolsonaro anda desde que se autoexilou nos Estados Unidos é apontada, de forma notável, como responsável pela ruína da campanha do Zero Um.
A paciência esgotada e o pedido de desculpas tardio
Vários aliados vinham tentando pacificar a relação entre Michelle e Flávio há meses, mas sempre esbarraram em dois muros: a resistência dela em fazer um gesto público de apoio e a recusa dele em pedir desculpas pelas afirmações que fez sobre a madrasta depois do discurso dela no Ceará, quando Michelle criticou a aliança local do bolsonarismo com Ciro Gomes.
Desculpas que não convencem
Após os vídeos, Flávio não teve alternativa senão finalmente pedir desculpas publicamente. “Nenhum momento eu ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se eu fiz em algum momento, mais uma vez peço desculpas”, disse o senador nas redes sociais após “o tiro no pé” de Michelle, que também disse reconhecer o trabalho da ex-primeira-dama e “tudo o que ela representa para o Brasil”. Rumores sobre uma possível troca de Flávio por Michelle na chapa circulam, mas não têm confirmação — e, tratando-se dos Bolsonaro, tudo pode acontecer, inclusive nada.
O alívio de Jaques Wagner e a sombra do Banco Master
Enquanto a crise familiar bolsonarista domina as atenções, o senador Jaques Wagner (PT-BA) pode ter sido beneficiado pelo desvio de foco. Cada vez mais envolvido no caso do Banco Master, o petista anunciou na quarta-feira (24) que deixou a liderança do governo no Senado para “provar sua inocência”. A movimentação ocorre em meio a um cenário jurídico igualmente turbulento para outras figuras políticas.

A prisão do vereador do PT e a rejeição da delação do BRB
A semana também foi marcada pela prisão do vereador Senival Moura (PT-SP), detido na manhã de quinta-feira (25) sob suspeita de ligação com o PCC em um esquema de lavagem de dinheiro em empresas de transporte público.
Já no plano jurídico-institucional, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, rejeitou a proposta de delação premiada do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, por considerar as informações de “reduzida utilidade” e sem “ineditismo”.
A delação de Costa ocorreu em paralelo à segunda tentativa de delação do empresário Daniel Vorcaro, também rejeitada. O ministro do STF André Mendonça determinou medidas para que Vorcaro não pudesse se comunicar com Costa.

O brasileiro gasta mais com bets do que com arroz e feijão
Em um retrato alarmante da economia doméstica, o colunista do Estadão Pedro Fernando Nery revela que o brasileiro já desembolsa R$ 30 bilhões por ano com apostas online (bets).
O gasto efetivo, descontados os ganhos, já supera categorias essenciais: o brasileiro gasta mais com bets do que com arroz e feijão, legumes, verduras e frutas. O montante também ultrapassa o mercado fitness e os gastos com bens culturais, como livros, cinema e música.
Os cínicos comemoram
“As bets também já passaram os refrigerantes e estão perto de bater o álcool, e isso pode ocorrer durante a Copa do Mundo”, alerta Nery. A preocupação central recai sobre o impacto nas classes D e E, com a ludopatia — o vício em jogos —, a publicidade abusiva e o superendividamento das famílias. Os cínicos comemoram: atribuem o fato à aprovação das apostas online ao Congresso e ao Governo Lula. Um comentário do artigo disse: “Parabéns ao governo brasileiro que arrumou um meio da classe mais pobre ficar ainda mais pobre pra sustentar clube de futebol.”
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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