O fantasma da corrupção voltou a rondar o Palácio do Planalto no pior momento possível para a campanha petista. Enquanto a pesquisa BTG/Nexus divulgadas na segunda-feira (3) registra empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro (46% a 45%), o caso envolvendo o ex-chefe de Gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, e a empresária Roberta Luchsinger alimenta a desconfiança do eleitorado e acende o sinal de alerta no comando da campanha do PT. No mesmo cenário, a oficialização da sétima candidatura de Lula na convenção do partido trouxe promessas de “mudança” que contrastam com o desempenho fiscal do governo: arrecadação recorde e déficit bilionário no primeiro semestre.
Empate técnico
A pesquisa BTG/Nexus colocou Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados: 46% a 45% no segundo turno. Há um mês, o petista abria quatro pontos de vantagem sobre o filho de Jair Bolsonaro, o que indica uma trajetória consistente de crescimento do senador do PL. No primeiro turno, o cenário também é de empate dentro da margem de erro, com 41% a 37%, e ambos lideram a rejeição, com 49% cada. O levantamento, porém, foi a campo antes das notícias mais recentes desfavoráveis ao governo.
Viés de alta
A sequência de pesquisas reforça a leitura de que Flávio está em ascensão. Há cinco dias, a Atlas/Bloomberg apontou a maior diferença registrada até aqui: 49% para Lula contra 43% para o bolsonarista. Uma semana atrás, o Datafolha anotou 48% a 43%. A Genial/Quaest, prevista para esta quarta-feira (5), será o ponto de confirmação ou negação do viés: seus números se aproximarão dos do BTG/Nexus ou dos levantamentos que mostram vantagem maior do presidente? A resposta definirá o humor do comitê central da campanha petista.
Acaba de sair os números da nova pesquisa Quaest
Como a Coluna previu, a nova pesquisa Quaest consolida a previsão. Presidente marca 44%, contra 39% do senador. A diferença era de oito pontos em julho. Ressaltando-se que a nova Quaest não captou os novos fatos estarrecedores que envolvem diretamente pessoas do entorno do presidente Lula.
Fantasma da corrupção
O que era apenas estranho tornou-se nebuloso quando Marcola, chefe de gabinete de Lula até cinco dias atrás, foi pressionado a explicar o empréstimo de R$ 249 mil tomado com Roberta Luchsinger, a “amiga de Lulinha”, investigada pela Polícia Federal por suposta ligação com o “Careca do INSS” no inquérito sobre descontos indevidos em aposentadorias. A PF identificou os repasses ao longo de 2025 a partir de conversas extraídas do celular da empresária, período em que Marcola despachava na antessala do presidente. A pergunta que o eleitor faz é direta: por que alguém que ocupava um dos cinco cargos mais importantes da República não recorreu a um banco?
Inquérito sob cerco
O caso tramita no STF e já produziu atritos institucionais. O governo tentou tirar da alçada do ministro André Mendonça o inquérito sobre a suposta participação de Lulinha no escândalo do INSS e chegou a pedir que a AGU agisse contra o magistrado, sob o pretexto de interferência indevida na PF. A defesa de Luchsinger, por sua vez, enviou pedido a Mendonça para que a PGR arquive a investigação, classificando as suspeitas de “exploração política”. O caso envolvendo Marcola é apurado no terceiro inquérito sobre Lulinha, sob relatoria do ministro Flávio Dino.
Pressão sobre o Centrão
A apreensão com o crescimento de Flávio se traduz em mais ousadia. Gente ligada ao governo já amedrontou caciques do Centrão com ameaças de processos criminais para impedir alianças com o bolsonarista. Houve ainda a tentativa de usurpar as atribuições do TSE para punir eleitoralmente Flávio por supostos abusos, acenando com a sua inelegibilidade. Nunca se viu nada semelhante, mas o recado é claro: a eleição não pode ser perdida de jeito nenhum, porque a manutenção dos desmandos depende da reeleição e de um Senado sem maioria acachapante de direita.
Sétima candidatura
No domingo (2), Lula foi oficializado candidato pela sétima vez, em busca do quarto mandato, quase 40 anos depois de sua primeira aparição na cédula. Na convenção do PT, o presidente encarnou um super-herói disposto a salvar o Brasil de vilões de dentro e de fora: prometeu blindar as terras raras da cobiça estrangeira, jurou investir em defesa para que o país jamais seja “invadido” como a Venezuela e anunciou briga com o Congresso para retomar o controle do Orçamento e pôr fim à “promiscuidade” do Fundo Partidário. Para completar a personagem, só faltou a capa vermelha com a estrela do partido.
Lulinha Porreta convencerá?
“Eu não quero o Lulinha Paz e Amor, eu quero o Lulinha Porreta”, discursou o candidato, prometendo “fazer o que a gente ainda não fez”, porque “o básico nós já cuidamos, o povo já está comendo”, com 99,99999% procurando uma picanha imaginária prometida em 2022, como prometeu o maioral dos esquerdedistas. O problema é que essa fantasia é recorrente. Na campanha de 2022, o mesmo Lula prometeu acabar com o orçamento secreto e, uma vez no poder, deixou tudo como estava. O suposto combate ao Fundo Partidário segue a mesma lógica. O eleitor brasileiro está cansado de saber quem ele é e do que é capaz quando está no poder — e a arte de engambelar tem limite.
Contradições do discurso
Se o “salto de qualidade” fosse real, o ajuste fiscal teria ao menos sido mencionado. O tema esteve ausente do palavrório da convenção. O último a falar nisso foi o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que disse ao Valor que o “ajuste fiscal do próximo governo” teria “vários caminhos” e que seria preciso discutir “poupança de longo prazo”. É ultrajante ouvir de um assessor de Lula que, depois de décadas incentivando os brasileiros a gastar o que têm — e, principalmente, o que não têm —, o governo petista agora quer estimular a poupança.
Números que desmentem o demiurgo
Os dados fiscais contradizem até o discurso do candidato à quarta reeleição. O país bateu recorde de arrecadação no primeiro semestre — R$ 1,587 trilhão — e, mesmo assim, fechou o período com déficit de R$ 92,2 bilhões, o segundo pior resultado desde 1997. A dívida pública federal chegou a R$ 9,268 trilhões em junho e deve encerrar o ano em R$ 10,3 trilhões, cerca de 82% do PIB, com custo médio no maior patamar desde a recessão de 2016 na qual a petista Dilma Rousseff enfiou o país. É o retrato de um governo que arrecada mais do que nunca e, ainda assim, aprofunda o desequilíbrio das contas públicas.
Voto como rejeição
Lula pode achar que ainda ilude os incautos com o discurso de “fazer diferente” e “dar um salto de qualidade”. Mas, se vencer a eleição, não será porque os eleitores acreditaram nessa patacoada, e sim porque a ojeriza ao bolsonarismo terá se provado maior do que a hostilidade ao lulopetismo. O empate técnico nas pesquisas sugere que essa equação está mais equilibrada do que o Planalto gostaria — e que o fantasma da corrupção, desta vez, assombra a mesa de quem despacha a poucos metros do cargo mais importante do país.
— Até quando?
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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