■O colapso iminente da comissão investigativa revela como manobras judiciais e a falta de vontade política se unem para proteger os operadores do maior golpe previdenciário do mundo
■Mais do que um prelúdio para o escândalo do Banco Master, o saque aos cofres do INSS escancara a falência moral das instituições brasileiras. O episódio evidencia um Estado capturado pelo corporativismo e pelo patrimonialismo, onde a alta carga tributária imposta ao cidadão serve para financiar a corrupção, sem qualquer contrapartida em serviços públicos
Brasília – A sessão da CPMI do INSS desta quinta-feira (19) transcorreu sob uma pesada atmosfera de encerramento precoce, consolidando a percepção de que as investigações foram deliberadamente asfixiadas. O que se desenha no horizonte é a interdição de um trabalho que visava desvendar aquele que já é considerado o maior escândalo previdenciário da história do país.
Após 36 sessões, o cenário exposto sugere uma engrenagem alarmante: a orquestração de fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas — com cifras que ultrapassam a marca dos R$ 7 bilhões — não teria prosperado sem o suposto beneplácito de uma rede de proteção institucional.
As denúncias apontam para uma teia de sindicatos do crime que aturaram livremente mediante pagamento de altas somas para garantir a cumplicidade que envolveria desde servidores públicos de alto escalão e figuras de proa do governo federal até políticos influentes e, de forma ainda mais grave, membros da cúpula do Judiciário.
O desfecho melancólico da comissão reforça uma velha e amarga máxima no cenário institucional brasileiro: a de que, quando os interesses dos poderosos se alinham, a impunidade prevalece e o crime, invariavelmente, compensa.
Às vésperas de expirar, a CPMI do INSS transformou-se em um palco que escancara as disfunções da República. De um lado, um Supremo Tribunal Federal (STF) que, na visão de parlamentares, atua para blindar investigados e castrar o poder investigativo do Legislativo. Do outro, a presidência do Senado, que senta em cima do pedido de prorrogação dos trabalhos.
No meio desse fogo cruzado institucional e político, estão as verdadeiras vítimas: aposentados e pensionistas lesados por um esquema criminoso que já rendeu 14 prisões e desviou cifras bilionárias.
A fragilidade dos sistemas de proteção cibernética do INSS abriu caminho para um dos esquemas de fraude mais cruéis da história recente. Criminosos exploraram essas brechas de segurança para desviar parte das aposentadorias de cidadãos extremamente vulneráveis, incluindo idosos acamados e portadores de doenças graves ou incapacitantes.
O golpe, que atinge diretamente uma população de baixa renda após uma vida inteira de contribuições à previdência, escancara não apenas a audácia dos fraudadores, mas, sobretudo, a negligência institucional em garantir a segurança digital básica dos recursos de seus beneficiários.
Ao avançarem as investigações, constatou-se que não é exclusividade apenas o governo socialista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em cujo período que se encerra no final deste ano, proporcionou a explosão da roubalheira. O golpe teve início no governo Temer e não foi estancado no governo Bolsonaro, tornando o golpe altamente lucrativo para os envolvidos.

A sessão
A reunião do colegiado, foi marcada por um duro tom de cobrança. O presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), não poupou críticas às recentes decisões da Suprema Corte que impediram o depoimento de figuras-chave, como Leila Pereira, dona do Banco Crefisa e presidente do Clube de Futebol Palmeiras.
Para Viana, o STF ultrapassou a linha da normalidade constitucional e fere a separação dos Poderes. “Retirar a prerrogativa de convocar testemunhas é esvaziar a CPMI na sua raiz”, disparou o senador. O recado foi claro: o respeito ao Judiciário não pode ser sinônimo de subserviência parlamentar.
A indignação, contudo, não se restringiu ao STF. A letargia do próprio Congresso foi alvo de artilharia pesada. O relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), classificou como “inércia” e “omissão” a postura do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que ignora o requerimento regimental para estender o prazo da investigação, cujo fim está marcado para o dia 28 de março.
O silêncio de Alcolumbre, na prática, soa como um aval tático para que a apuração morra na praia e termine na bancada de um pizzaiolo.
Oitiva
Enquanto os Poderes medem forças, a engrenagem da fraude foi dissecada no depoimento de Artur Ildefonso Brotto Azevedo, principal executivo do Banco C6 Consignado S/A.
Azevedo tentou blindar a instituição financeira com o verniz do jargão corporativo, negando práticas de venda casada e alegando rigorosa “compliance”, formalização de contratos e uso de biometria. A narrativa oficial do banco, no entanto, colide frontalmente com a realidade apurada pela comissão: uma avalanche de denúncias de cobranças indevidas, embutimento de seguros de vida não solicitados e pedidos milionários de ressarcimento.
O abismo entre as defesas corporativas e a realidade das vítimas foi exposto de forma crua pela deputada Coronel Fernanda (PL-MT). A parlamentar lembrou que o esquema sangra o bolso de quem tem menos recursos para se defender — ribeirinhos, trabalhadores rurais, indígenas e quilombolas.
“Aqui em cima, tem dinheiro para pagar advogado. Lá embaixo, não tem dinheiro para pagar nem um vale-transporte para ir a uma defensoria pública”, resumiu, implorando por mais tempo para garantir o ressarcimento dos valores roubados.
A CPMI do INSS não é apenas mais uma comissão em Brasília; é o retrato de um sistema onde fraudes monumentais contra os mais vulneráveis esbarram na proteção judicial e na conveniência política de quem teme a ampliação das apurações.
Resta saber se o compromisso com a verdade, prometido por Viana no encerramento da sessão, terá força institucional suficiente para romper o cerco que tenta abafar o caso.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















