A história da resistência dos verdadeiros amazônidas contra a destruição da floresta, a grilagem de terras, o roubo de madeira, a garimpagem ilegal e o envenenamento dos rios, sempre foi escrita por lutadores anônimos. Homens e mulheres simples, caboclos, índios e quilombolas. Gente que luta sozinha, do seu jeito. Nunca desiste e nem se deixa humilhar. São os combatentes de todas as horas. Não aparecem na mídia, não se expõem.
Em 2003, fui apresentado em Belém por uma autoridade do Ministério Público do Pará a um jovem de 33 anos chamado Adilson Prestes. Foi um encontro inusitado, como tantos outros na vida deste repórter investigativo. Prestes veio de Novo Progresso até Belém pedir socorro. Estava desesperado, jurado de morte.
Entregou em minhas mãos um dossiê farto, com nomes, origem e ocupação de cada um dos envolvidos naquilo que apontava como bem articulada e afinada orquestra de criminosos focada na sinistra sinfonia de destruição da Amazônia. Todos eram de fora do Pará, como o próprio Prestes e sua família. A diferença estava no fato de que ele não queria a derrubada de árvores, a expulsão de quem já estava na terra, além de não tolerar a invasão de áreas indígenas.
“Eles só pensam neles, em fortunas, dominar tudo, destruir quem estiver pela frente”, resumiu aquele jovem levado até mim, na redação do jornal O Liberal, por um promotor de Justiça. Li o dossiê e só não fiquei estarrecido porque lidava, como lido até hoje, com outros casos complexos de ocupação desordenada da Amazônia na base da bala, da execução sumária, emboscadas, perseguições e crimes de encomenda.
Adilson Prestes era um arquivo vivo e exposto a morrer a qualquer momento. Após entrevistá-lo, fui com ele na Secretaria de Segurança Pública (Segup) e lá contou o que sabia, entregando documentos. Prestes era amigo dos índios caiapós da reserva Baú e andava com eles por dentro da mata, identificando pontos de desmatamento e extração ilegal de madeira, além de pistas clandestinas de grandes traficantes de drogas.
“A região da Terra do Meio é a maior rota de destruição das florestas da Amazônia”, afirmou. Ele conhecia a região como poucos, correndo risco diário.
Corajosamente, denunciou que agentes públicos, ligados às polícias Militar e Civil da região – principalmente de Santarém e Itaituba – esquentavam as costas das ações do crime organizado naquela imensa região que faz fronteira com Mato Grosso. Já havia sido preso a mando de poderosos e era também marcado por quem deveria zelar pela segurança dele.
Além da Segup e do MP, estive com Prestes também na Assembleia Legislativa e no Tribunal de Justiça, onde ele contou as mesmas histórias para alguns desembargadores. Pediu proteção de vida e retornou para Novo Progresso. Talvez fosse muito difícil para ele entrar para o Programa de Proteção a Testemunhas e Pessoas Ameaçadas na Amazônia. Essa oferta, aliás, nem chegou a ser feita. Prestes dizia que sua proteção era Jesus Cristo. No peito, exibia um cordão com a imagem de Cristo.
No começo de 2004, certo dia, escapou da morte. Fugiu para a mata, sob uma chuva de balas de policias militares do Distrito de Moraes de Almeida comandados por um sargento truculento e ligado aos predadores da floresta. Prestes vivia sob o fio da navalha de seus algozes. Até que no dia 4 de julho de 2004, ele não teve saída. Sua hora havia chegado.
Adilson Prestes foi abatido a tiros por um pistoleiro na porta da casa dele, em Novo Progresso, quando abria o portão para encontrar a família. O assassino estava de motocicleta e o aguardava para cumprir ordens. As balas atingiram peito e cabeça. A voz que se levantara em defesa da Amazônia estava calada. O assassino e seus mandantes continuam impunes até hoje.
Como outros heróis anônimos da Amazônia, Adilson Prestes deu a vida por uma causa. Não se rendeu, nem se vendeu. Dezoito anos depois, a luta dele serve como exemplo de coragem aos que se deixam coagir com facilidade e renunciam aos seus direitos.
Pensando bem. Prestes não morreu. Ele está encantado no meio da floresta pela qual tanto lutou. É bom não brincar com ele.















