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Home Cultura

O afeto fora do comum de Vinicius de Moraes por seu amigo paraense

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
14/06/2026
in Cultura
O afeto fora do comum de Vinicius de Moraes por seu amigo paraense
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Nas complexas e intensas relações afetivas que Vinicius de Moraesestabeleceu com quem o rodeava o status 

de “amigo” tinha enorme valor para ele. 

Era o único status que rivalizava com o de “namorada”.

E, como sabe quem se deu o trabalho de estudar a biografia do poeta, Vinicius foi tido como o inveterado

mulherengo, que casou nove vezes.

Quando foram comemorados os cem anos de nascimento dele, emissoras de televisão exibiram depoimentos

de mulheres e amigos do poeta.

Num destes depoimentos, Toquinho lembrou de algo que ele já havia contado antes.

O poeta tinha determinado que, entre eles, existiria “um casamento sem sexo”. 

Porém, com muito ciúmes de Vinicius, acrescentou o violonista. 

Como os que Vinicius sentiu de Toquinho e de Chico, quando os dois compuseram “Samba de Orly”, sem

chamá-lo para a parceria. 

“Vinicius me chamava de ‘Parceirinho’”, lembrou Carlos Lyra, outro parceiro de Vinicius. 

Já Gilda Matoso, a nona e última esposa do poeta, contou o seguintesobre a amizade de Vinicius

com o jornalista e cronista Antônio Maria. 

Quando estavam casados, Gilda, um dia, encontrou-o pedalando uma bicicleta ergométrica, na casa deles. 

Num exercício físico imposto pelo médico de Vinicius. 

O poeta, porém, chorava. 

Inquieta, ela quis saber o que havia acontecido. 

Vinicius revelou que estava sendo obrigado pelo médico a quebrar um pacto feito com Antônio Maria, que 

àquela altura, já tinha falecido. 

O pacto consistia num compromisso: os dois jamais fariam qualquer movimento corporal que considerassem

inútil, como julgavam aqueles feitos pelos ginastas. 

Chico Buarque tinha seu lugar, neste universo afetivo de Vinicius. 

Numa entrevista a Elifas Andreato, publicada na edição de agosto de 2007, do Almanaque Brasil, Chico disse: 

“No fundo nunca deixei de ver Vinicius como uma extensão do meu pai. Era uma espécie de meu pai. Mais

doido. Que me acompanhava por aí. Um papai de noitadas. Bebedeiras. E, confissões exaustas. Era, às vezes,

o meu pai, numa versão dele ainda criança. Que acabou sendo um meu pai mais íntimo”.

Nenhuma outra ligação afetiva do poeta, no entanto, carregou a originalidade da que ele tinha com Jayme

Ovalle. 


Apenas Ovalle mereceu ser chamado de Poesia, por ele. 

E isto não era pouco. 

Afinal, é o nome da sua mais nobre área de criação.

As palavras com as quais Vinicius se referia a Jayme, o escritor Fernando Sabino transcreveu literalmente

numa de suas crônicas.

Tão impressionantes e comoventes eram estas palavras. 

Dizia Vinicius:

“Jayme é o poeta em estado virgem. A mais bela crisálida de poesia que jamais existiu, desde William Blake.

É o mistério poético em toda a sua inocência, em toda a sua beleza natural. É voo, é transcendência absoluta.

É amor em estado de graça”.

Sabino acolheu estas palavras dele na crônica: “Um gerador de poesia”porque, ele também conviveu com

Jayme e sabia que eram verdadeiras. 

Na crônica, Sabino contou, durante algum tempo, para ele, Ovalle era um mito de contornos imprecisos, cuja

existência ele atribuía, em parte, à imaginação criadora de seus amigos. 

Sabino achava tais amigos mitificavam Ovalle.

Ocorrem que estes amigos eram os maiores artistas da Literatura Nacional, todos ainda vivos, naquela época: 

Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Olegário Mariano, Murilo

Mendes, Mário de Andrade, e, Otto Lara Resende, entre outros.

Até que Sabino conheceu Ovalle pessoalmente. 

Depois disto, ele escreveu:

“Foi um impacto para a minha vida. Nosso convívio diário, durante quase três anos, era um deslumbramento

permanente para a minha sensibilidade”.

Mas, afinal, quem foi Jayme?

Alguém visto pelos artistas, como dotado de uma criatividade inocente, anárquica e dispersiva, capaz

de espalhar em seu redor influência muito estimulante.

Ovalle nasceu em Belém, em 1894.

Era filho de Mariano, um estroina típico da Belle Époque, que dissipou sua fortuna, acumulada com a

exportação de borracha do Pará, em cassinos suntuosos da Europa, como o de Monte Carlo, no Principado de

Mônaco.

Felizmente, o próprio Vinicius traçou dele seu perfil, quando ainda convivia com ele, num texto com o título 

“Retrato de Jayme Ovalle”.

Por isto, podemos saber mais sobre como o poeta via este amigo tão peculiar, quando Ovalle ainda estava 

vivo.

 Escreveu Vinicius:

“Um dia, em Los Angeles, certa amiga me disse: 

O homem que eu mais vontade de conhecer tenho no mundo chama-se Jayme Ovalle. 

Desde então, ouvi muitas vezes a mesma afirmação feitas pelas pessoas mais díspares.

Realmente, as coisas que se contam sobre Jayme Ovalle são do puro domínio do fabuloso. 

Em Londres, onde estagiava na Delegacia do Tesouro, ele morava no bairro mais elegante da cidade, numa

casa mobiliada apenas de uma cama, um harmônio, um violão, instrumento com que compunha.

E, umas poucas garrafas de uísque. 

Tinha por companheiro a um macaquinho comprado na travessia do Atlântico porque, dizia ele, “era o único

brasileirinho a bordo”.

Da Inglaterra, trouxe Ovalle, com ele, vários volumes de poesia em inglês, um dos quais chamado The Foolish

Bird.

E, uma irlandesa a que chamava Gringuinha.

E, que, por sua vez, o chamava de Tasma, porque dele ouvira, um dia,encantada, a palavra Fantasma. 

Quando residia no Palace Hotel, Ovalle apaixonou-se perdidamente por uma pombinha, que se habituara a

pousar-lhe no parapeito. 

Ovalle vinha direto da Alfândega, onde trabalhava, para dar miolinho de pão à sua columbesca bem-amada. 

Um dia encontraram-no na avenida Rio Branco, na sua sempre empertigada atitude de Embaixador

aposentado.

A chorar, coisa que faz com a maior naturalidade, por trás do monóculo que então usava “porque encontrara

sua pombinha a traí-lo com um miserável pombo”.

Fernando Sabino conta, em seu livro de crônicas de Nova York, A Cidade Vazia, que uma vez Ovalle

telefonou-lhe pedindo que fosse bem depressa ao seu escritório na Delegacia do Tesouro, situado num dos

gigantescos edifícios de Rockefeller Center.

Porque ele tinha a impressão de que estava no céu. 

Fernando Sabino partiu, de carreira, para chegar.

E, encontrar Ovalle todo feliz, rodeado de uma nuvem.

Uma nuvem mesmo, no duro, que encalhara no altíssimo edifício e que Ovalle deixara carinhosamente entrar

pela janela”.

Concluiu Vinicius sobre seu amigo:

“Uma das peculiaridades de Ovalle é ser tio do poeta Augusto Frederico Schmidt, que o chama de Tio Ioiô,

como, de resto, seus demais sobrinhos. 

Sua personalidade extraordinária exerceu influência em muita gente da melhor qualidade.

E, não é difícil encontrar traços ovalleanos na poesia de Manuel Bandeira, por exemplo. 

Suas canções, como “Azulão”, “Berimbau”, ambas com versos de Bandeira, e, “Três pontos de santo” são um

prato dileto de nossas melhores cantoras de câmara.

E, foram grandemente popularizadas nos Estados Unidos pelo esplêndido álbum da intérprete brasileira Elsie

Houston”.

 Ovalle morreu, em 1955, de enfarte, aos 61 anos.

Vinicius escreveu para ele este poema com o título “A última viagem de Jayme Ovalle”:

“Ovalle não queria a Morte/

Mas era dele tão querida/ Que o amor da Morte foi mais forte/ Que o amor de Ovalle à vida./

E, foi, assim, que a Morte, um dia / Levou-o em bela carruagem /A viajar – Ah!, que alegria! /

Ovalle sempre adora viagem! /

Foram por montes e por vales / E tanto a Morte se aprazia/ Que fosse o mundo só de Ovalles /

E nunca mais ninguém morria” .

(Ilustração: Vinicius acende cigarro de Valle, entre eles Otto Resende)

Vinicius de Moraes’ Unusual

Affection for His Friend from Pará

In the complex and intense emotional relationships that Vinicius de Moraes established with those around 

him, the status of “friend” held enormous value for him.

It was the only status that rivaled that of “girlfriend.”

And, as anyone who has taken the trouble to study the poet’s biography knows, Vinicius was regarded as an 

inveterate womanizer who married nine times.

When the centenary of his birth was celebrated, television networks aired testimonies from women and friends 

of the poet.

In one of these testimonies, Toquinho recalled something he had mentioned before.

The poet had decreed that there would exist between them “a marriage without sex.”

But one marked by Vinicius’ intense jealousy, the guitarist added.

Such as the jealousy Vinicius felt toward Toquinho and Chico when the two composed “Samba de Orly” 

without inviting him into the partnership.

“Vinicius used to call me ‘Little Partner,’” recalled Carlos Lyra, another of Vinicius’ collaborators.

Gilda Matoso, the poet’s ninth and last wife, told the following story about Vinicius’ friendship with the 

journalist and columnist Antônio Maria.

While they were married, Gilda one day found him pedaling an exercise bicycle in their home.

It was a physical exercise prescribed by Vinicius’ doctor.

The poet, however, was crying.

Alarmed, she asked what had happened.

Vinicius revealed that the doctor was forcing him to break a pact he had made with Antônio Maria, who had 

already passed away by then.

The pact consisted of a commitment that neither of them would ever make any bodily movement they 

considered useless, such as those performed by gymnasts.

Chico Buarque had his own place within Vinicius’ emotional universe.

In an interview with Elifas Andreato, published in the August 2007 edition of Almanaque Brasil, Chico said:

“Deep down, I never stopped seeing Vinicius as an extension of my father. He was a kind of father to me. 

Crazier. Someone who accompanied me around. A father for nights out. Drinking sessions. And endless 

confessions. Sometimes he was my father in a version that was still a child himself. In the end, he became a 

more intimate father to me.”

No other emotional bond of the poet, however, carried the originality of the one he had with Jayme Ovalle.

Only Ovalle deserved to be called Poetry by him.

And that was no small thing.

After all, poetry was the name of Vinicius’ noblest field of creation.

The words with which Vinicius referred to Jayme were transcribed literally by the writer Fernando Sabino in 

one of his chronicles.

Such words were astonishing and moving.

Vinicius said:

“Jayme is the poet in a virgin state. The most beautiful chrysalis of poetry that has ever existed since William 

Blake. He is the poetic mystery in all its innocence, in all its natural beauty. He is flight, absolute 

transcendence. He is love in a state of grace.”

Sabino included these words in his chronicle “A Generator of Poetry” because he too had lived alongside 

Jayme and knew they were true.

In the chronicle, Sabino recounted that for some time Ovalle had been, to him, a myth with imprecise contours 

whose existence he partly attributed to the creative imagination of his friends.

Sabino believed that these friends mythologized Ovalle.

The fact was that those friends were the greatest artists of Brazilian literature, all still alive at the time:

Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Olegário 

Mariano, Mário de Andrade, Otto Lara Resende, among others.

Then Sabino met Ovalle in person.

Afterward, he wrote:

“It was a life-changing impact. Our daily companionship for nearly three years was a permanent enchantment 

for my sensibility.”

But who, after all, was Jayme?

He was someone regarded by artists as possessing an innocent, anarchic, and diffuse creativity, capable of 

spreading a highly stimulating influence around him.

Ovalle was born in Belém in 1894.

He was the son of Mariano, a typical bon vivant of the Belle Époque who squandered the fortune accumulated 

through Pará’s rubber exports in the luxurious casinos of Europe, such as the casino of Monte Carlo in the 

Principality of Monaco.

Fortunately, Vinicius himself outlined his profile while they were still living together, in a text entitled 

“Portrait of Jayme Ovalle.”

Because of this, we can better understand how the poet viewed this peculiar friend while Ovalle was still alive.

Vinicius wrote:

“One day, in Los Angeles, a friend told me:

‘The man I most wish to meet in the world is named Jayme Ovalle.’

Since then, I have heard the same statement many times from the most diverse people.

Indeed, the stories told about Jayme Ovalle belong entirely to the realm of fable.

In London, where he was serving an internship at the Treasury Delegation, he lived in the city’s most elegant 

district, in a house furnished only with a bed, a harmonium, a guitar—an instrument on which he composed—

and a few bottles of whisky.

His companion was a little monkey purchased during the Atlantic crossing because, as he said, ‘he was the 

only little Brazilian on board.’

From England, Ovalle brought back several volumes of English poetry, one of them called The Foolish Bird.

And also an Irish woman whom he called Little Foreigner.

She, in turn, called him Tasma because one day she had heard him utter the word Fantasma with delight.

While living at the Palace Hotel, Ovalle fell hopelessly in love with a little dove that had become accustomed 

to landing on his windowsill.

Ovalle would come straight from Customs, where he worked, to feed breadcrumbs to his columbine beloved.

One day he was found on Rio Branco Avenue, standing in his usual upright posture of a retired ambassador.

He was crying—which he did quite naturally—behind the monocle he wore at the time, ‘because he had caught 

his little dove betraying him with a miserable pigeon.’

Fernando Sabino recounts in his New York chronicle collection, The Empty City, that one day Ovalle 

telephoned him, asking him to rush to his office at the Treasury Delegation, located in one of Rockefeller 

Center’s gigantic buildings.

Because he had the impression that he was in heaven.

Fernando Sabino hurried there.

And found Ovalle delighted, surrounded by a cloud.

A real cloud indeed, stranded against the skyscraper, which Ovalle had affectionately allowed to enter through 

the window.”

Vinicius concluded about his friend:

“One of Ovalle’s peculiarities is that he was the uncle of the poet Augusto Frederico Schmidt, who called him 

Uncle Ioiô, as did his other nephews.

His extraordinary personality influenced many people of the highest quality.

And it is not difficult to find Ovallean traces in the poetry of Manuel Bandeira, for example.

His songs, such as ‘Azulão,’ ‘Berimbau’—both with lyrics by Bandeira—and ‘Três Pontos de Santo,’ are 

favorite pieces among our finest chamber singers.

They were also greatly popularized in the United States through the splendid album recorded by the Brazilian 

interpreter Elsie Houston.”

Ovalle died of a heart attack in 1955 at the age of sixty-one.

Vinicius wrote for him a poem entitled “The Last Journey of Jayme Ovalle”:

“Ovalle did not want Death,
Yet she loved him so dearly
That Death’s love proved stronger
Than Ovalle’s love for life.

And thus one day Death
Carried him away in a beautiful carriage
To travel—Ah! what joy!
Ovalle always adored traveling!

They crossed mountains and valleys,
And Death was so delighted
That she wished the world were filled only with Ovalles,
And that no one would ever die again.”

(Illustration: Vinicius lights Ovalle’s cigarette; between them stands Otto Lara Resende.)

Tags: culturaDestaqueEstado do ParáLiteraturaVinicius de Moraes
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Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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