Um novo medicamento contra uma das formas mais agressivas de câncer acaba de abrir uma importante frente no tratamento da doença. O daraxonrasib, comercializado nos Estados Unidos com o nome de Rasonque, demonstrou ser capaz de praticamente dobrar a sobrevida mediana de pacientes com câncer de pâncreas metastático em comparação com a quimioterapia utilizada como padrão após o fracasso do primeiro tratamento.
A aprovação ocorreu em 26 de agosto de 2026, quando a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, autorizou o uso do medicamento para adultos com adenocarcinoma pancreático metastático que já haviam recebido pelo menos uma terapia sistêmica anterior ou que não pudessem receber determinados esquemas de tratamento combinados.
O dado que colocou o novo remédio no centro das atenções veio do estudo clínico de fase 3 RASolute 302 (NCT06625320), uma pesquisa internacional, randomizada e multicêntrica que acompanhou 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático.
No estudo, os participantes foram divididos para receber daraxonrasib ou esquemas de quimioterapia escolhidos como tratamento padrão. Os resultados mostraram uma diferença considerada histórica para uma doença que há décadas apresenta poucas opções terapêuticas.
Os pacientes tratados com daraxonrasib tiveram uma sobrevida global mediana de 13,2 meses, enquanto o grupo submetido à quimioterapia apresentou uma mediana de 6,7 meses. Entre os pacientes com mutações RAS G12, o resultado foi de 13,2 meses contra 6,6 meses.
O medicamento também reduziu o risco de morte em aproximadamente 60%, segundo os dados divulgados pela empresa responsável pelo desenvolvimento e analisados pela FDA.
O estudo foi conduzido sob liderança de Brian M. Wolpin, oncologista e pesquisador ligado ao Dana-Farber Cancer Institute e à Universidade Harvard. Os resultados foram divulgados em abril, ganharam repercussão internacional durante as discussões científicas de 2026 e posteriormente foram publicados no New England Journal of Medicine.
O alvo que durante décadas parecia impossível
O daraxonrasib atua contra proteínas da família RAS, especialmente relacionadas às alterações genéticas que ajudam a impulsionar o crescimento dos tumores.
No câncer pancreático, alterações no gene KRAS estão presentes na grande maioria dos casos. Durante décadas, essas proteínas foram consideradas praticamente impossíveis de bloquear com medicamentos, o que fez do RAS um dos alvos mais desafiadores da pesquisa oncológica.
O novo medicamento é administrado por via oral, uma vez ao dia, e foi desenvolvido pela Revolution Medicines. Diferentemente de terapias capazes de agir apenas sobre uma mutação específica, o daraxonrasib foi projetado para atingir múltiplas formas ativas da família RAS.
Foi justamente essa capacidade mais ampla que chamou a atenção dos pesquisadores. A estratégia permitiu atingir uma característica molecular presente em grande parte dos tumores de pâncreas.
Da divulgação dos resultados à aprovação
A trajetória recente do medicamento foi rápida.
Em 13 de abril de 2026, a Revolution Medicines anunciou os resultados do estudo de fase 3, mostrando que o daraxonrasib havia atingido seus principais objetivos de eficácia e apresentado uma sobrevida significativamente superior à da quimioterapia.
No início de maio de 2026, diante dos resultados e da gravidade da doença, a FDA autorizou um programa de acesso ampliado para determinados pacientes enquanto a análise regulatória continuava.
Em 26 de agosto de 2026, veio a aprovação definitiva para a indicação autorizada nos Estados Unidos. A FDA classificou a decisão como um avanço para pacientes com uma doença historicamente difícil de tratar.
Um novo caminho, mas não uma cura
Apesar da repercussão, os pesquisadores ressaltam que o medicamento não representa a cura do câncer de pâncreas.
O tratamento foi aprovado inicialmente para pacientes com doença metastática e em condições específicas. Além disso, os cientistas ainda estudam por quanto tempo o tumor permanece sensível ao medicamento e como combater possíveis mecanismos de resistência.
Entre os efeitos adversos observados estão reações na pele e problemas gastrointestinais, embora os estudos tenham apontado um perfil de tolerabilidade considerado favorável em comparação com a quimioterapia.
Mesmo assim, o resultado é visto como um divisor de águas. O câncer de pâncreas continua entre os tumores mais letais e frequentemente é descoberto em estágios avançados, quando a cirurgia já não é possível.
Para Brian Wolpin e outros pesquisadores envolvidos no avanço das terapias direcionadas ao RAS, o resultado pode representar o início de uma mudança mais ampla. Novos estudos já investigam se o daraxonrasib poderá beneficiar pacientes em fases mais precoces da doença e se sua combinação com outros medicamentos poderá ampliar ainda mais os resultados.
Enquanto isso, outras linhas de pesquisa também avançam. Um estudo publicado em 9 de julho de 2026, liderado por Jiujie Cui e Liwei Wang, avaliou o inibidor HRS-4642, direcionado especificamente à mutação KRAS G12D, em combinação com quimioterapia. A pesquisa mostrou a expansão das tentativas de transformar as alterações genéticas do tumor em alvos terapêuticos cada vez mais precisos.
Outra investigação publicada em 21 de agosto de 2026, liderada por Alexander G. Raufi, estudou uma combinação de motixafortida, cemiplimabe, gemcitabina e nab-paclitaxel, buscando atacar o ambiente que protege o tumor e dificulta a ação do sistema imunológico.
A corrida agora é para transformar o avanço obtido com o daraxonrasib em apenas o primeiro passo de uma nova geração de tratamentos. Para uma doença que durante décadas acumulou poucos progressos, dobrar a sobrevida mediana em um grande estudo clínico representa mais do que um novo número: representa uma mudança concreta no horizonte dos pacientes.
O novo medicamento ainda enfrenta desafios relacionados ao acesso, ao custo e à necessidade de mais estudos, mas o resultado de 2026 já entra para a história da pesquisa contra o câncer de pâncreas como um dos sinais mais fortes de que um alvo considerado “indomável” pela ciência finalmente começou a ser vencido.
Fonte: reuters.com














