Tecnologia desenvolvida por cientistas da Amnova Biotech já apresentou resultados promissores em ovelhas e pode iniciar estudos clínicos em 2028
As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de mortes no mundo, mas uma pesquisa liderada pela jovem bióloga argentina Pilar Ferrer está abrindo uma nova perspectiva para pacientes que sofrem infarto do miocárdio. O grupo desenvolveu um hidrogel bioativo injetável, inspirado nas propriedades regenerativas da membrana amniótica humana, que demonstrou restaurar parcialmente o tecido cardíaco lesionado em testes pré-clínicos.
O projeto vem sendo desenvolvido no Instituto de Medicina Traslacional, Trasplante y Bioingeniería (IMETTYB), ligado à Universidad Favaloro e ao CONICET (Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas), e passou a ser conduzido comercialmente pela startup Amnova Biotech, fundada em 2024 para transformar a pesquisa em um tratamento disponível para hospitais.
Um problema que ainda desafia a medicina
Durante um infarto, a interrupção do fluxo sanguíneo provoca a morte de milhões de cardiomiócitos — as células responsáveis pela contração do coração.
Ao contrário do que ocorre com outros tecidos do corpo, o músculo cardíaco praticamente não se regenera. A área lesionada é substituída por uma cicatriz fibrosa, permanente, que reduz a capacidade de bombeamento do coração e pode levar à insuficiência cardíaca.
Hoje, os tratamentos disponíveis conseguem restaurar o fluxo sanguíneo e controlar a evolução da doença, mas não recuperam o músculo perdido.
É justamente essa lacuna que a equipe argentina pretende preencher.
Como surgiu a tecnologia
A pesquisa nasceu durante o doutorado de Pilar Ferrer na Universidad Favaloro, em Buenos Aires.
Ao lado dos pesquisadores Daniela Olea, Mariano Berra e Alejandro Berra, a cientista desenvolveu um biomaterial capaz de reproduzir parte das propriedades biológicas da membrana amniótica, tecido que envolve o feto durante a gestação e que há décadas é utilizado em cirurgias oftalmológicas e tratamentos regenerativos devido às suas propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes.
Em vez de utilizar células-tronco, o grupo criou um hidrogel formado por componentes da matriz extracelular capazes de estimular o próprio organismo a iniciar processos naturais de reparo.
Depois de aplicado diretamente sobre a área lesionada, o material funciona como uma espécie de “andaime biológico”, favorecendo:
- redução da inflamação;
- formação de novos vasos sanguíneos (angiogênese);
- reorganização do tecido cardíaco;
- diminuição da formação de cicatrizes.
Os testes já têm data
Segundo a Amnova Biotech, os primeiros ensaios pré-clínicos em pequenos animais ocorreram entre 2023 e 2024, permitindo validar a segurança inicial do biomaterial.
Na sequência, durante 2025, a equipe iniciou os estudos em ovelhas, consideradas um dos melhores modelos experimentais para doenças cardíacas por possuírem coração com dimensões e funcionamento muito semelhantes aos humanos.
Os resultados divulgados pela empresa mostram que, 28 dias após a aplicação do hidrogel, os animais apresentaram:
- redução significativa da área infartada;
- aumento da vascularização do tecido;
- proliferação de células cardíacas;
- melhora da função ventricular.
Esses dados representam a fase pré-clínica mais avançada do projeto e servirão de base para o pedido de autorização dos estudos em humanos.
Quando começam os testes em pessoas?
A equipe trabalha com a expectativa de iniciar os primeiros ensaios clínicos em humanos em 2028, após a conclusão dos estudos toxicológicos, de segurança e da validação regulatória.
Nessa etapa inicial, o objetivo será avaliar principalmente a segurança do biomaterial antes de medir sua eficácia clínica.
Caso todas as fases sejam concluídas com sucesso, o hidrogel poderá seguir para estudos multicêntricos maiores, processo que normalmente leva vários anos antes da aprovação por órgãos reguladores.
A ciência por trás dos hidrogéis cardíacos
Embora o biomaterial da Amnova ainda esteja em fase de desenvolvimento e seus resultados completos ainda não tenham sido publicados em um periódico científico revisado por pares, a estratégia utilizada possui forte respaldo científico.
Nos últimos anos, diversos estudos publicados em revistas como Nature Reviews Cardiology, Acta Biomaterialia, Bioactive Materials, Advanced Functional Materials e Biomaterials demonstraram que hidrogéis bioativos conseguem:
- reduzir o remodelamento cardíaco após infartos;
- aumentar a sobrevivência de cardiomiócitos;
- estimular angiogênese;
- melhorar a recuperação funcional do ventrículo esquerdo em modelos animais.
Essas pesquisas consolidaram os hidrogéis como uma das áreas mais promissoras da medicina regenerativa cardiovascular.
Um projeto latino-americano com alcance global
Além do potencial científico, o projeto tornou-se um exemplo da crescente capacidade da pesquisa latino-americana em desenvolver tecnologias biomédicas de alto impacto.
A Amnova Biotech recebeu apoio de programas argentinos de inovação e aceleração tecnológica para transformar a pesquisa acadêmica em um produto médico capaz de chegar ao mercado internacional.
Segundo Pilar Ferrer, o objetivo não é substituir procedimentos como angioplastia ou cirurgia de revascularização, mas complementar esses tratamentos, oferecendo uma alternativa capaz de restaurar parte do músculo cardíaco perdido.
Ainda não é uma cura
Apesar da grande repercussão internacional, especialistas alertam que o tratamento permanece em fase experimental.
Até o momento:
- não houve testes clínicos em seres humanos;
- não existe aprovação por agências regulatórias;
- ainda serão necessários vários anos de pesquisas clínicas.
Mesmo assim, os resultados obtidos em animais colocam o hidrogel argentino entre as iniciativas mais promissoras da medicina regenerativa aplicada ao coração.
Se a eficácia observada nas ovelhas for confirmada em humanos, a tecnologia poderá representar uma das maiores mudanças no tratamento do infarto nas últimas décadas, oferecendo pela primeira vez a possibilidade de recuperar parte do tecido cardíaco que hoje é considerado irrecuperável.
Fonte: sciencedirect.com, nature.com















