Um dos maiores avanços recentes no combate ao câncer de pâncreas foi apresentado durante o congresso anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), realizado entre 30 de maio e 3 de junho de 2026, em Chicago, nos Estados Unidos. Pesquisadores divulgaram os resultados de um estudo internacional de fase III que avaliou o medicamento experimental daraxonrasib, uma terapia-alvo desenvolvida para bloquear uma das principais mutações responsáveis pelo crescimento desse tipo de tumor.
Os resultados chamaram a atenção da comunidade científica porque o tratamento praticamente dobrou a sobrevida global de pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam recebido quimioterapia sem sucesso. Em uma doença conhecida por sua elevada mortalidade e pela escassez de opções terapêuticas, especialistas classificaram os dados como um dos avanços mais relevantes da última década.
Estudo envolveu cerca de 500 pacientes
O ensaio clínico recrutou aproximadamente 500 pacientes diagnosticados com adenocarcinoma ductal pancreático metastático, a forma mais comum e agressiva da doença. Todos haviam apresentado progressão do câncer após a primeira linha de tratamento baseada em quimioterapia.
Os participantes foram divididos em dois grupos. Um recebeu o novo medicamento oral daraxonrasib, enquanto o outro continuou recebendo o tratamento convencional.
Segundo os pesquisadores, os pacientes tratados com a nova terapia alcançaram uma sobrevida mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses observados entre aqueles que permaneceram apenas com a quimioterapia tradicional. O estudo também apontou uma redução de aproximadamente 60% no risco de morte durante o período analisado.
Como o medicamento funciona
O daraxonrasib pertence a uma nova geração de medicamentos conhecidos como inibidores panRAS. Sua função é bloquear proteínas da família RAS, especialmente a mutação KRAS, presente em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.
Durante décadas, a proteína KRAS foi considerada um dos maiores desafios da oncologia devido à dificuldade de desenvolver medicamentos capazes de inibir sua atividade. Quando mutada, ela mantém sinais contínuos de crescimento celular, favorecendo a proliferação descontrolada das células tumorais.
Ao interromper esse mecanismo, o novo fármaco consegue reduzir o avanço da doença e prolongar significativamente a sobrevida dos pacientes.
Especialistas recebem resultados com entusiasmo
Durante a apresentação dos dados na ASCO, a diretora médica da entidade, Julie Gralow, classificou os resultados como um avanço expressivo para uma doença que historicamente apresenta poucas alternativas terapêuticas.
A oncologista Rachna Shroff, da Universidade do Arizona, afirmou que os dados representam uma sobrevida “sem precedentes” para pacientes com câncer pancreático metastático.
Na Europa, a pesquisadora espanhola Teresa Macarulla, do Hospital Clínic de Barcelona, destacou que o estudo abre novas possibilidades para modificar o tratamento da doença nas próximas décadas. A especialista ressaltou, entretanto, que o medicamento não representa uma cura, mas oferece uma melhora clínica considerada incomum para esse tipo de câncer.
Doença continua entre as mais letais
O câncer de pâncreas permanece como um dos tumores sólidos com pior prognóstico. Em muitos pacientes, o diagnóstico ocorre apenas em estágios avançados porque os sintomas iniciais costumam ser discretos ou inespecíficos.
Entre os principais sinais estão:
- dor abdominal persistente;
- perda rápida de peso;
- icterícia (pele e olhos amarelados);
- perda de apetite;
- fadiga intensa.
Mesmo com os avanços obtidos nos últimos anos, a taxa de sobrevida em cinco anos ainda permanece baixa quando comparada a outros tipos de câncer, reforçando a importância de novas terapias-alvo capazes de aumentar a expectativa e a qualidade de vida dos pacientes.
Próximos passos
Após os resultados positivos do estudo de fase III, os pesquisadores pretendem avaliar o uso do daraxonrasib em fases mais precoces da doença e em combinação com outros tratamentos, como imunoterapia e quimioterapia.
Caso os órgãos reguladores confirmem a eficácia e a segurança do medicamento, a expectativa é que sua aprovação inicial ocorra primeiro nos Estados Unidos, seguida posteriormente pela Europa e outros mercados. O sucesso do estudo também estimula pesquisas semelhantes contra tumores de pulmão e colorretais que apresentam mutações na proteína KRAS.
Fonte: elpais.com















