▪︎ Enquanto o Banco Central garante que os recursos lícitos migraram para grandes bancos, a Polícia Federal pressiona o ex-banqueiro a rastrear e entregar a fortuna desviada para validar sua delação premiada
▪︎ Com apenas R$ 4 milhões em caixa antes da intervenção, banco deixou rombo bilionário coberto pelo FGC, enquanto investigações da Polícia Federal miram fraudes e a atuação da fiscalização
Brasília – A pergunta que não quer calar é: Onde estão os ativos desviados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro? O Banco Central do Brasil confirmou que os recursos oriundos do conglomerado financeiro Master, alvo de liquidação extrajudicial em novembro de 2025, migraram majoritariamente para as maiores instituições bancárias do país. Então, como será possível a nova delação premiada se sustentar se Vorcaro prometeu devolver R$ 60 bilhões?
A declaração, feita pelo diretor de Fiscalização da autarquia, Ailton de Aquino Santos, busca tranquilizar o mercado após uma das mais complexas intervenções financeiras recentes, a qual culminou na prisão do presidente da instituição, Daniel Vorcaro, e exigiu o desembolso de dezenas de bilhões de reais pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A derrocada do Banco Master começou a se desenhar de forma contundente no final de 2024, quando o mercado financeiro passou a suspeitar da falta de liquidez da instituição.
Documentos e investigações apontam que o Banco Central chegou a preparar e adiar ações contra o Master em duas ocasiões naquele ano. Em março de 2025, uma tentativa de salvamento foi ensaiada com o anúncio de que o Banco de Brasília (BRB) compraria a instituição.
Esse episódio, contudo, gerou desdobramentos investigativos severos, uma vez que o diretor Ailton de Aquino Santos foi posteriormente confrontado por conselheiros do BRB e ouvido pela Polícia Federal sob a acusação de ter enviado mensagens solicitando a compra de carteiras de crédito que, mais tarde, comprovaram-se falsas. O Banco Central negou oficialmente que seu diretor tenha recomendado a aquisição de carteiras fraudadas.
A situação tornou-se insustentável no segundo semestre de 2025, culminando na intervenção regulatória. Em 18 de novembro daquele ano, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, do Banco Master de Investimento, do Banco Letsbank e da Master Corretora, devido ao alto custo de captação e a investimentos excessivamente arriscados.
Durante depoimento à Polícia Federal no início de 2026, Ailton de Aquino revelou que o Master possuía apenas quatro milhões de reais em caixa às vésperas da intervenção, um montante irrisório para a magnitude de suas operações.
A crise se expandiu em janeiro de 2026, alcançando a Will Financeira (Will Bank), que também integrava o conglomerado e teve sua liquidação decretada.
Com a falência estrutural do grupo, o Fundo Garantidor de Créditos foi acionado para evitar prejuízos massivos aos correntistas e investidores. Entre 19 de janeiro e 27 de fevereiro de 2026, a entidade realizou o pagamento de 37,7 bilhões de reais aos clientes do Master, Master BI e Letsbank, cobrindo 93,3% do montante garantido.
A estimativa total de necessidade de cobertura pelo fundo ultrapassou a marca de 40 bilhões de reais, consolidando-se como um dos maiores resgates da história do sistema.
O destino dessa injeção bilionária de capital foi esclarecido recentemente por Ailton de Aquino, indicando uma reacomodação natural do mercado. O diretor informou que o dinheiro devolvido aos credores não evadiu o sistema, mas foi redirecionado principalmente para instituições financeiras classificadas nas categorias S1 e S2, que englobam os maiores bancos do país.
Aproximadamente 55% dos fundos reembolsados foram reinvestidos em títulos emitidos por outras instituições financeiras, demonstrando que a confiança dos investidores no sistema bancário nacional permaneceu intacta.
As implicações dessa migração de recursos são significativas para a estabilidade econômica e mitigam temores de uma crise em cadeia. O Banco Central assegura que a liquidação do conglomerado Master não desestabilizou o sistema financeiro, argumentando que os ativos do grupo representavam apenas 0,1% do total de 17 trilhões de reais do Sistema Financeiro Nacional.
O Relatório de Estabilidade Financeira (REF) mais recente corrobora essa visão, indicando alta confiança no sistema brasileiro, embora mantenha alertas sobre riscos fiscais, dívida pública e endividamento das famílias.
Apesar do impacto bilionário para o Fundo Garantidor de Créditos e das investigações em curso pela Polícia Federal sobre fraudes e a conduta de agentes reguladores, a absorção dos recursos por instituições de grande porte atenuou os riscos de contágio sistêmico.
O episódio evidencia a resiliência do Sistema Financeiro Nacional em suportar a quebra de um conglomerado agressivo, ao mesmo tempo em que deixa um legado de questionamentos sobre a tempestividade e a eficácia da fiscalização preventiva no país.
Entretanto, a resposta à pergunta que abre essa reportagem continua um grande mistério.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















