Fundador do Banco Master reformula proposta à PF e detalha supostos repasses a Ciro Nogueira e outras autoridades e financiamento suspeito ligado a Flávio Bolsonaro
Brasília – O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, apresentou uma nova e ampliada proposta de delação premiada à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República. A iniciativa ocorre após a rejeição de um acordo inicial e busca garantir benefícios legais no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga um complexo esquema de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e corrupção de agentes públicos.
A nova proposta traz fatos inéditos que implicam figuras centrais da política nacional, como os senadores Ciro Nogueira e Flávio Bolsonaro, além do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e sinaliza a devolução de até R$ 60 bilhões de reais aos cofres públicos, o que causou incredulidade geral.
A Operação Compliance Zero teve início em 18 de novembro de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a primeira fase das investigações, resultando na prisão inicial de Daniel Vorcaro.
Os agentes federais apuravam indícios de fabricação de carteiras de crédito sem lastro financeiro. Desde então, a operação desdobrou-se em oito fases distintas, revelando uma teia de relações entre o Banco Master e o alto escalão político brasileiro.
Em 4 de março de 2026, durante a terceira fase da operação, Vorcaro voltou a ser preso preventivamente, passando a cumprir detenção na Superintendência da Polícia Federal em Brasília.
A escalada das investigações atingiu o núcleo familiar do ex-banqueiro em 14 de maio, na sexta fase, com a prisão de seu pai, Henrique Vorcaro. Diante do cerco judicial e da liquidação institucional do Banco Master pelo Banco Central, a defesa de Vorcaro passou a articular um acordo de colaboração.
A primeira tentativa de delação foi recusada pelas autoridades sob a justificativa de que as informações fornecidas eram insuficientes. Em resposta, a nova proposta apresentada pelo empresário detalha com maior profundidade o envolvimento de autoridades.
No que tange ao senador Ciro Nogueira, do Progressistas, o documento aponta o suposto pagamento de repasses mensais de 500 mil reais. O objetivo desses pagamentos seria influenciar legislações relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos, além de custear viagens de luxo.
A quinta fase da operação, deflagrada em 7 de maio, já havia mirado o parlamentar com mandados de busca e apreensão.
Outro ponto de destaque na nova proposta de colaboração envolve o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal. Vorcaro detalha um suposto financiamento suspeito para a produção de um documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, operação que estaria atrelada a um contrato de 134 milhões de reais.
A inclusão desse anexo amplia o escopo da investigação para o núcleo político mais próximo ao ex-mandatário.
A esfera de influência do esquema também teria alcançado o poder executivo estadual. A oitava fase da Operação Compliance Zero, realizada em 26 de maio de 2026, teve como alvo o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.
As apurações da Polícia Federal indicam que o conglomerado de Vorcaro teria recebido aportes de cerca de 3 bilhões de reais em recursos públicos fluminenses em diferentes ocasiões. Ademais, o ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, é suspeito de receber propinas materializadas em imóveis de luxo.
Já há, nos meios políticos, notadamente da oposição ao governo, que a não citação dos negócios do Master com os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, torna a nova delação imprestável.
Para viabilizar a aceitação da nova delação, a defesa de Daniel Vorcaro indicou a disposição de aumentar o valor da restituição financeira. O montante, que na proposta original era de 40 bilhões de reais, foi elevado para a cifra de 60 bilhões de reais, o que está causando descrédito uma vez que Vorcaro, mesmo vendendo tudo o que tem não chegaria nem perto desse valor, segundo pessoas a par do processo.
A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República avaliam o material apreendido ao longo dos meses, que inclui milhares de documentos e aproximadamente cem dispositivos eletrônicos, para corroborar as narrativas apresentadas pelo delator.
O avanço da Operação Compliance Zero e a iminente formalização da delação premiada de Daniel Vorcaro representam um marco nas investigações de crimes de colarinho branco no Brasil.
As revelações contidas na nova proposta possuem o potencial de reconfigurar o cenário político nacional, uma vez que atingem lideranças expressivas do Congresso Nacional e ex-chefes do Executivo estadual, mas popa cabeças coroadas do STF.
A devolução de 60 bilhões de reais, caso concretizada, configuraria um dos maiores ressarcimentos da história jurídica do país, o que parece improvável.
O desfecho das negociações entre a defesa do ex-banqueiro, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República determinará os próximos passos do inquérito, que já tramita no Supremo Tribunal Federal devido ao foro privilegiado dos citados, e definirá o grau de responsabilização dos agentes públicos e privados envolvidos no esquema do Banco Master.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















