A ideia ousada da construção de uma grande imagem de Nossa Senhora de Nazaré no canal fluvial de entrada do porto de Belém, onde existiu a antiga Fortaleza da Barra, estava sendo alimentada pela imprensa, como se ela tivesse acabado de ser concebida por algum desconhecido, naquele ano 2.000.
Isto havia incomodado profundamente a família do conhecido jornalista, Carlos Rocque, já falecido àquela altura.
Num domingo de setembro daquele ano, uma manchete de página de A Província do Pará dizia em letras garrafais que a família de Rocque queria o reconhecimento dele como o criador daquela ideia.
O jornal, já centenário, para o qual Carlos Rocque havia trabalhado, dava, àquela altura,seu último suspiro. Proporcionado pela vinda de São Paulo para Belém, do escritor Nicodemos Sena.
Ele, com seu entusiasmo de santareno, autor de À Espera do Nunca Mais, Nicodemos tentava injetar ânimo na combalida publicação, num esforço que só foi possível sustentar por algumas semanas.
O texto publicado sob aquela manchete, o jornal pediu-me que escrevesse, depois de ouvir os familares de Rocque.
A família dele morava num apartamento da Avenida Braz de Aguiar, no bairro de Nazaré.
Lá, Solange, uma das filhas de Rocque, me disse:
“Eu fiquei indignada porque a ideia da construção da imagem era de meu pai e nenhum jornal mencionou isto. Faz apenas oito meses que papai morreu e parece que já querem se apossar de um projeto dele”.
Luana, a irmã mais velha de Solange afirmou que ficou arrasada com o desconhecimento da relação de seu pai com aquela ideia.
Ela acrescentou:
“Que executem este projeto. Acho ótimo. Até como homenagem a meu pai. Mas que digam quem foi o idealizador”.
Já a viúva do jornalista, Maria da Conceição, revelou que Rocque tinha vontade de fazer uma imagem grande da santa para receber as pessoas que chegam a Belém, em navios.
Ela acrescentou:
“Carlos dizia que ia conseguir isso neste ano de 2.000 porque chegou a falar com o governador, na última entrevista que teve com ele, sobre esta ideia, e, foi autorizado a providenciar a construção da imagem”.
Segundo Luana, Rocque, havia mais de cinco anos, falava desse projeto.
“Papai sempre foi apaixonado por Nossa Senhora de Nazaré. Lembro que ele tinha uma planta que abriu na nossa mesa para nós vermos. Ele inclusive chegou a mostrar esta planta para o governador.
A ligação antiga com o Círio
Luana lembrou que Rocque denominava o plano de construção da imagem de Projeto de Nossa Senhora da Barra, numa referência à Fortaleza da Barra, cuja localização foi solicitada por ele ao 4º Distrito Naval, em 1987.
Na ocasião, o jornalista ocupava o cargo de presidente da Companhia Paraense de Turismo, a Paratur.
A fortaleza, construída em 1685, havia explodido em 1947, depois de ter sido transformada num depósito de dinamite.
A Marinha atendeu o pedido e localizou as ruínas da fortaleza próximo da Barra do Tapanã, e, do Aeroporto de Val-de-Cans.
Ali, provavelmente, Rocque pensava em mandar levantar a imagem enorme.
O jornalista era profundamente ligado à Festa de Nossa Senhora de Nazaré porque seu pai, o empresário Felix Rocque, durante 17 anos, trouxe para Belém os maiores ídolos do rádio brasileiro, por ocasião das festividades nazarenas.
Isto ocorreu nas décadas de 1930 e 1940.
Quando uma viagem de avião,do Rio de Janeiro até nossa capital, demorava mais de um dia.
O pai de Rocque chegou a construir um teatro, o Coliseu, com capacidade para duas mil pessoas, para a exibição destes artistas.
Num único ano, o empresário ocupou cinco casas de espetáculos da cidade, com as companhias que contratava fora de Belém.
Carlos Rocque assistiu a tudo isto na sua infância.
Quando se tornou escritor, mais tarde, incluiu, na sua vasta produção, um livro dedicado inteiramente à História do Círio e da Festa de Nazaré.
A Romaria Fluvial e o Museu do Círio
Seu nome ficaria definitivamente ligado à maior festa religiosa do Pará quando, como presidente da Paratur, Rocque criou, no mesmo ano da década de 1980, a Romaria Fluvial, e, o Museu do Círio.
Lembrou Luana:
“Eu trabalhava com ele, na Paratur, e, ele me disse: – Vamos fazer a romaria fluvial. Eu perguntei: – Nós vamos ter bastante tempo para isto? Ele respondeu: – Vamos fazer agora mesmo, em outubro.
Foi uma correria. Mas a romaria saiu bonita já naquele ano. Papai fez propaganda da procissão fluvial e teve apoio do Iate Clube, da Capitania dos Portos, da Companhia dos Portos do Pará, do 4º Distrito Naval.
Ele se sentia muito orgulhoso de ter criado esta romaria”.
Essa iniciativa do jornalista, felizmente, teve o devido reconhecimento. Depois da romaria, os barcos que exibiram maior criatividade em suas ornamentações são premiado com o Troféu Carlos Rocque.
Por isto, enquanto esteve vivo, ele compareceu sempre à cerimônia de entrega do troféu.
Quanto à organização do Museu do Círio, segundo Luana, Rocque recebeu muita ajuda através de doações.
Por causa de sua dedicação à criação do museu, ele chegou a ser homenageado. Durante um mês, no museu ficaram expostas seus diplomas, suas medalhas, e, seus livros
Contudo, mais tarde, o museu, numa reforma, se transformou em algo diferente daquilo que Rocque tinha criado. Até uma sala de vídeo que exibia imagens da História da procissão chegou a ser desativada.
Solange, a viúva de Rocque, relembrou:
“Rocque se emocionava muito com o círio. Acompanhá-lo era sua maior alegria”.
Outras frustrações vividas por Rocque foram lembradas pelos seus familiares, depois desta referência às alterações ocorrida no Museu do Círio.
Ele as enfrentava porque tinha espírito inquieto e inovador, além de energia inesgotável.
A situação mais chocante para Rocque aconteceu em 1997, como desdobramento de outra iniciativa tomada pelo jornalista em benefício da cultura do Pará.
A da criação do Museu da Cabanagem, atual Memorial da Cabanagem.
As histórias de cabanos
A Cabanagem foi uma das três paixões intelectuais de Rocque.
As outras duas eram as gestões do intendente Antônio Lemos, em Belém, e, os governos de Magalhães Barata.
Sobre estes temas ele não apenas pesquisou como produziu algumas de suas mais importantes obras.
Mais: ajudou a trazer os restos mortais de Lemos, do Rio de Janeiro, depois de mais de 60 anos de sua humilhante expulsão de Belém.
E criou o museu do Barata, na frente da Estação Rodoviária, em São Brás, hoje, o Memorial Magalhães Barata.
Sobre a Cabanagem, ele sabia tudo, na ponta da língua, disse Luana.
Quando ela era criança, Rocque a fazia dormir contando histórias de cabanos.
Segundo Luana, o Museu da Cabanagem foi criado a partir de uma ideia levada por Rocque ao governador Jarder Barbalho, que a aceitou.
Foi animado com aquele aval que Rocque viajou para o Rio de Janeiro, atrás de Oscar Niemeyer.
Lá, ele conseguiu que o arquiteto de Brasília projetasse o Monumento da Cabanagem, sem receber qualquer remuneração.
Depois disto, Rocque foi para Barcarena, à procura dos restos mortais dos cabanos.
Disse Luana:
“O museu era um sonho dele”.
Para decepção de Rocque e da família dele, porém, o museu chegou a ficar inteiramente abandonado, entregue a mendigos e às crianças que cheiravam cola.
Com tristeza, Luana lembrou:
“Lá havia um vitral lindo. Foi todo quebrado”
Luana revelou que Rocque chorou quando viu o museu naquele estado, com ossos dos cabanos queimados.
Também o Museu de Magalhães Barata deixou de existir, tal como Rocque o havia criado, embora ele tenha tido um fim menos triste.
Rocque tinha conseguido transferir para o museu os restos de Barata, assim com sua máscara mortuária.
Ele chegou a ver este acervo ser transferido para o Museu do Estado do Pará.
Apesar de todas estas contrariedades, no entanto, a família de Rocque, no ano 2.000, procurava manter algum otimismo.
Segundo Luana, seu pai, antes de morrer havia entregue os originais do segundo volume de sua obra sobre Magalhães Barata à Secult, que o tinha contratado para produzi-lo.
Naquele momento, ela, sua irmã e a viúva de Rocque estavam aguardando a publicação da nova obra dele.
Ao mesmo tempo, Luana acreditava que poderia realizar o projeto de Rocque que ele tinha considerado como o seu “canto do cisne”: a reedição atualizada da sua Grande Enciclopédia da Amazônia.
Cujos volumes haviam sido publicados, em 1967, dois anos antes de outra enciclopedia de autoria dele, a Antologia da Cultura Amazônica, ser lançada.
Uma enorme foto, que certamente lembrava Luana, com frequência, do último projeto de seu pai, era bem visível na parede do apartamento da sua família, na Avenida Braz de Aguiar, onde fui recebido.
Na foto, Rocque está ao lado de Juscelino Kubitschek.
E o ex-presidente examina um dos volumes da Grande Enciclopédia da Amazônia, de Rocque.
Giant Our Lady of Nazareth was to be built in the bay, in front of Belém
The daring idea of constructing a large image of Our Lady of Nazareth in the river channel at the entrance to the port of Belém, where the old Fortaleza da Barra once stood, was being fueled by the press as if it had just been conceived by someone unknown in that year 2000.
This had deeply bothered the family of the well-known journalist, Carlos Rocque, who had already passed away by that time.
On a Sunday in September of that year, a front-page headline in A Província do Pará stated in bold letters that Rocque’s family wanted him recognized as the creator of that idea.
The century-old newspaper, for which Carlos Rocque had worked, was drawing its last breath at that point. This final effort was brought about by the arrival of writer Nicodemos Sena from São Paulo to Belém.
With his enthusiasm as a native of Santarém and author of À Espera do Nunca Mais, Nicodemos attempted to inject spirit into the struggling publication, an effort that could only be sustained for a few weeks.
The newspaper asked me to write the text published under that headline after I had listened to Rocque’s family members.
His family lived in an apartment on Avenida Braz de Aguiar, in the Nazaré neighborhood. There, Solange, one of Rocque’s daughters, told me:
“I was indignant because the idea for the construction of the image belonged to my father and no newspaper mentioned this. It has only been eight months since Papa died, and it seems they already want to take possession of a project of his.”
Luana, Solange’s older sister, stated she was devastated by the lack of recognition regarding her father’s connection to that idea. She added:
“Let them execute this project. I think it’s great. Even as a tribute to my father. But let them say who the visionary was.”
Meanwhile, the journalist’s widow, Maria da Conceição, revealed that Rocque had a desire to make a large image of the saint to welcome people arriving in Belém by ship.
She added: “Carlos used to say he was going to achieve this in this year 2000 because he managed to speak with the governor, in the last interview he had with him, about this idea, and he was authorized to arrange the construction of the image.”
According to Luana, Rocque had been talking about this project for over five years.
“Papa was always passionate about Our Lady of Nazareth. I remember he had a blueprint that he opened on our table for us to see. He even managed to show this blueprint to the governor.”
The long-standing connection with the Círio
Luana recalled that Rocque called the construction plan the “Nossa Senhora da Barra Project,” in reference to the Fortaleza da Barra, whose location he requested from the 4th Naval District in 1987.
At the time, the journalist held the position of president of the Pará Tourism Company, Paratur.
The fortress, built in 1685, had exploded in 1947 after being converted into a dynamite warehouse. The Navy fulfilled the request and located the ruins of the fortress near the Barra do Tapanã and the Val-de-Cans Airport.
It was there, presumably, that Rocque intended to have the massive image erected.
The journalist was deeply connected to the Festival of Our Lady of Nazareth because his father, the businessman Felix Rocque, brought the greatest idols of Brazilian radio to Belém for 17 years during the Nazarene festivities.
This occurred in the 1930s and 1940s, when a plane trip from Rio de Janeiro to our capital took more than a day. Rocque’s father went as far as building a theater, the Coliseu, with a capacity for two thousand people, to showcase these artists.
In a single year, the businessman occupied five of the city’s performance venues with the companies he contracted from outside Belém. Carlos Rocque witnessed all of this during his childhood.
When he later became a writer, he included in his vast production a book entirely dedicated to the History of the Círio and the Festival of Nazareth.
The River Procession and the Círio Museum
His name would be definitively linked to Pará’s largest religious festival when, as president of Paratur, Rocque created both the River Procession (Romaria Fluvial) and the Círio Museum in the same year during the 1980s.
Luana recalled: “I worked with him at Paratur, and he told me: ‘Let’s do the river procession.’ I asked: ‘Will we have enough time for this?’ He replied: ‘We are going to do it right now, in October.’
It was a rush. But the procession turned out beautiful even in that first year. Papa promoted the fluvial procession and had the support of the Yacht Club, the Port Authority, the Pará Port Company, and the 4th Naval District. He felt very proud to have created this procession.”
Fortunately, this initiative by the journalist received due recognition. Following the procession, the boats that display the greatest creativity in their decorations are awarded the Carlos Rocque Trophy. Because of this, while he was alive, he always attended the trophy presentation ceremony.
As for the organization of the Círio Museum, according to Luana, Rocque received a great deal of help through donations. Because of his dedication to the creation of the museum, he was eventually honored. For one month, his diplomas, medals, and books were exhibited at the museum.
However, later on, during a renovation, the museum was transformed into something different from what Rocque had created. Even a video room that showed images of the history of the procession was deactivated.
Solange, Rocque’s widow, reminisced: “Rocque was very moved by the Círio. Following it was his greatest joy.”
Other frustrations experienced by Rocque were remembered by his family members after this reference to the changes that occurred at the Círio Museum. He faced them because he had a restless and innovative spirit, as well as inexhaustible energy.
The most shocking situation for Rocque happened in 1997, as a result of another initiative taken by the journalist for the benefit of Pará’s culture: the creation of the Museum of the Cabanagem, currently the Memorial da Cabanagem.
Stories of the Cabanos
The Cabanagem was one of Rocque’s three intellectual passions. The other two were the administrations of Intendant Antônio Lemos in Belém and the governments of Magalhães Barata.
On these themes, he not only conducted research but also produced some of his most important works. Furthermore, he helped bring the remains of Lemos from Rio de Janeiro, more than 60 years after his humiliating expulsion from Belém. And he created the Barata museum, in front of the Bus Station in São Brás, today the Magalhães Barata Memorial.
Regarding the Cabanagem, he knew everything by heart, Luana said. When she was a child, Rocque would put her to sleep by telling stories of the cabanos.
According to Luana, the Museum of the Cabanagem was created from an idea Rocque brought to Governor Jader Barbalho, who accepted it. Encouraged by that endorsement, Rocque traveled to Rio de Janeiro to see Oscar Niemeyer.
There, he convinced the architect of Brasília to design the Cabanagem Monument without receiving any payment. After this, Rocque went to Barcarena in search of the remains of the cabanos.
Luana said: “The museum was a dream of his.”
To the disappointment of Rocque and his family, however, the museum eventually became entirely abandoned, left to beggars and children sniffing glue. With sadness, Luana remembered: “There was a beautiful stained-glass window there. It was all broken.”
Luana revealed that Rocque cried when he saw the museum in that state, with the bones of the cabanos burned.
The Magalhães Barata Museum also ceased to exist as Rocque had created it, although it had a less tragic end. Rocque had managed to transfer Barata’s remains to the museum, as well as his death mask. He lived to see this collection transferred to the Museum of the State of Pará.
Despite all these setbacks, however, Rocque’s family in the year 2000 tried to maintain some optimism.
According to Luana, before his death, her father had delivered the manuscripts for the second volume of his work on Magalhães Barata to Secult, which had contracted him to produce it. At that moment, she, her sister, and Rocque’s widow were awaiting the publication of his new work.
At the same time, Luana believed she could realize Rocque’s project, which he had considered his “swan song”: the updated reissue of his Great Encyclopedia of the Amazon. The volumes had been published in 1967, two years before another encyclopedia of his authorship, the Anthology of Amazonian Culture, was launched.
A large photo, which certainly reminded Luana frequently of her father’s last project, was clearly visible on the wall of her family’s apartment on Avenida Braz de Aguiar, where I was received.
In the photo, Rocque is standing next to Juscelino Kubitschek. And the former president is examining one of the volumes of Rocque’s Great Encyclopedia of the Amazon.















