Novo observatório da NASA vai investigar a energia escura, rastrear a matéria escura e procurar milhares de planetas fora do Sistema Solar
A humanidade acaba de ganhar uma nova janela para observar o Universo. A NASA lançou no domingo, 30, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, um dos mais poderosos instrumentos já construídos para realizar grandes levantamentos do cosmos. A missão partiu do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX.
Agora, o observatório inicia uma viagem de aproximadamente três meses até o ponto de Lagrange L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra. É de lá que o Roman deverá começar a construir um dos mais completos mapas tridimensionais já produzidos do Universo, investigando bilhões de galáxias e alguns dos maiores mistérios da ciência moderna.
O principal deles é a chamada energia escura, uma força ainda desconhecida que parece estar acelerando a expansão do Universo.
Uma câmera com visão 100 vezes maior que a do Hubble
A grande força do Roman está em sua capacidade de observar áreas gigantescas do céu sem abrir mão de imagens de alta resolução.
Seu principal instrumento, o Wide Field Instrument, possui uma câmera infravermelha de 300 megapixels e um campo de visão cerca de 100 vezes maior que o do Telescópio Espacial Hubble. Na prática, isso permitirá que o novo observatório registre enormes regiões do céu em uma velocidade muito superior à de telescópios capazes de fazer observações profundas, mas de áreas menores.
A comparação com o Hubble, no entanto, pode ser enganosa. Enquanto o famoso telescópio espacial é capaz de investigar uma pequena região com enorme detalhamento, o Roman foi projetado para fazer algo diferente: observar o Universo em escala panorâmica.
Essa capacidade permitirá à NASA analisar como as galáxias estão distribuídas no espaço e como se organizaram ao longo de bilhões de anos. A expectativa é que os dados produzidos pela missão ajudem a revelar a estrutura invisível que sustenta o cosmos.
O mapa do Universo invisível
Grande parte do que existe no Universo não pode ser vista diretamente.
A matéria comum — formada por estrelas, planetas, gases e tudo o que conhecemos — representa apenas uma pequena parcela do conteúdo cósmico. O restante é dominado por dois grandes enigmas: a matéria escura e a energia escura.
A matéria escura não emite luz e nunca foi observada diretamente, mas sua presença é percebida pela influência gravitacional que exerce sobre galáxias e aglomerados de galáxias.
Já a energia escura é ainda mais misteriosa. Ela é considerada a principal responsável pela aceleração da expansão do Universo, descoberta no final da década de 1990. Apesar de décadas de estudos, os cientistas ainda não sabem exatamente o que ela é.
O Roman tentará responder a essas perguntas usando diferentes técnicas. Uma delas será observar milhões de galáxias e medir como a gravidade distorce levemente a luz que chega até o telescópio, um efeito conhecido como lente gravitacional.
Ao analisar essas deformações, os pesquisadores poderão rastrear regiões onde há grandes concentrações de matéria escura, mesmo sem conseguir enxergá-la.
O observatório também estudará a distância e o brilho de supernovas, além da distribuição de galáxias pelo espaço. Juntos, esses dados deverão ajudar os cientistas a reconstruir a história da expansão cósmica.
Tecnologia de espionagem adaptada para a ciência
Uma das histórias mais curiosas por trás do Roman envolve seu espelho principal.
O equipamento, com capacidade comparável à do Hubble, tem origem em tecnologia desenvolvida para fins de reconhecimento espacial. O hardware foi transferido pelo National Reconnaissance Office, agência de inteligência dos Estados Unidos, e acabou sendo reaproveitado pela NASA para uma missão científica.
A mudança de destino simboliza uma das características do projeto: tecnologia capaz de observar a Terra foi transformada em uma ferramenta para observar bilhões de anos-luz além dela.
Com esse conjunto óptico, combinado à maior câmera infravermelha já enviada ao espaço, o Roman deverá realizar levantamentos cósmicos em uma escala sem precedentes.
Uma máquina de descobrir novos mundos
A missão também não se limitará às galáxias e aos mistérios do Universo distante.
O telescópio será usado para procurar milhares de exoplanetas, incluindo mundos localizados a grandes distâncias da Terra e planetas que podem ser difíceis de detectar pelos métodos tradicionais.
O Roman deverá realizar observações por microlente gravitacional, uma técnica capaz de identificar planetas quando a gravidade de uma estrela e de seus possíveis mundos provoca uma amplificação temporária da luz de uma estrela localizada ainda mais longe.
Essa estratégia pode ajudar os cientistas a encontrar planetas muito distantes de suas estrelas e até objetos que vagam sozinhos pelo espaço, sem orbitar um Sol.
Além disso, a missão transporta um coronógrafo experimental, tecnologia projetada para bloquear a luz de estrelas e tentar observar diretamente planetas que orbitam ao seu redor.
O equipamento funcionará como uma espécie de eclipse artificial, escondendo o brilho da estrela para permitir que objetos muito mais fracos se tornem visíveis.
Se a tecnologia funcionar como esperado, poderá representar um passo importante para futuras missões espaciais que pretendem fotografar planetas semelhantes à Terra e, eventualmente, procurar sinais de condições favoráveis à vida.
Roman, Euclid e a nova corrida para entender o cosmos
O lançamento do Roman também inaugura uma nova fase na astronomia espacial.
Ele chega para atuar em um cenário que já conta com o telescópio Euclid, da Agência Espacial Europeia, lançado para estudar a matéria escura e a energia escura, e com o James Webb, que realiza observações profundas do Universo com um nível extraordinário de detalhamento.
As missões possuem características diferentes e complementares.
O Euclid está produzindo grandes mapas do cosmos em uma ampla faixa do céu. O Roman, por sua vez, deverá ampliar esse trabalho com uma capacidade de observação infravermelha de alta resolução e levantamentos extremamente rápidos. Já o James Webb funciona como uma espécie de observatório de precisão, capaz de investigar com profundidade alvos específicos.
A combinação dessas diferentes missões poderá oferecer aos cientistas uma visão mais completa do Universo do que nunca.
As primeiras imagens devem levar tempo
Apesar do lançamento bem-sucedido, o Roman ainda não começará imediatamente suas observações científicas.
O telescópio levará cerca de três meses para chegar à região onde ficará estacionado. Depois, os instrumentos precisarão passar por uma série de testes e calibrações antes do início da missão científica.
As primeiras imagens e resultados devem começar a ser divulgados em 2027.
A missão principal foi planejada para durar pelo menos cinco anos, embora a vida operacional possa ser estendida. Durante esse período, o observatório deverá acumular uma quantidade gigantesca de informações sobre galáxias, estrelas, supernovas, matéria escura e planetas fora do Sistema Solar.
A expectativa é que o Roman produza um dos maiores conjuntos de dados astronômicos da história.
Mais do que gerar imagens impressionantes do espaço, o telescópio foi criado para responder perguntas fundamentais: por que o Universo está se expandindo cada vez mais rápido? Do que é feita a matéria invisível que molda as galáxias? Quantos planetas existem na Via Láctea?
As respostas podem levar anos para surgir. Mas, depois de décadas de planejamento e desenvolvimento, a nova máquina da NASA já está a caminho.
E, quando começar a observar, poderá mostrar que o maior território ainda desconhecido pela humanidade não está em nenhum ponto da Terra, mas espalhado por todo o Universo.
Fonte:euronews.com















