Enquanto a maioria dos pais descansa durante a noite, a delegada Lisandrea Salvariego permanece vigilante, passando horas monitorando jogos online, conversas em chats e plataformas de redes sociais onde menores de idade se envolvem em desafios perigosos e violentos. Nas telas que ela observa, transmissões ao vivo revelam cenas diárias de abusos sexuais, atos de automutilação e, especialmente, a tortura e o assassinato de animais.
Salvariego integra o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), ligado à Polícia Civil de São Paulo, uma unidade criada inicialmente para investigar os ataques a escolas ocorridos em 2023, quando o Brasil registrou 12 incidentes desse tipo. No entanto, as apurações expandiram-se ao revelar um vasto ecossistema digital, com padrões como propagação de discursos de ódio, estruturas hierárquicas e recompensas baseadas no sofrimento alheio.
O processo inicial do Noad, segundo matéria do portal BBC Brasil, envolve monitoramento discreto para reunir evidências: os agentes se infiltram nesses grupos e assistem aos delitos sem interferir, evitando alertar os envolvidos. A delegada compartilha o impacto emocional: “Há noites em que vou para a cama ainda ouvindo os gritos de gatos e cães… É algo tão revoltante e desumano que nos impulsiona a prosseguir”.
O caso do cão Orelha, um animal comunitário brutalmente espancado até a morte na Praia Brava, em Florianópolis, gerou comoção nacional, mas para Salvariego, isso representa apenas um exemplo de uma realidade recorrente. “Isso se repete quase todas as madrugadas. É triste ver crianças e adolescentes imersos em um universo desconhecido pelos pais, muitas vezes por falta de educação digital”, afirma ela. “Temos incontáveis ‘Orelhas’ sendo assassinados diariamente; para nós, isso virou rotina.
Casos diários de zoossadismo
Nas comunidades de zoossadismo observadas pela delegada, o número de incidentes varia: em algumas noites, há apenas dois ou três, mas já foram registrados até 20 casos, majoritariamente envolvendo cães e gatos sendo torturados e mortos. “A motivação é puramente a violência em si, sem outro propósito além de ganhar fama e status no grupo. É comum matarem o animal com extrema crueldade e depois usarem o sangue para escrever seus nomes”, explica Salvariego. “Atualmente, a escalada da violência é alarmante, especialmente contra animais: só conta se o sofrimento for intenso e prolongado.
Em 27 de janeiro, outro cão comunitário, chamado Abacate, foi morto a tiros de forma intencional em Toledo, no Paraná, com a polícia apurando o ocorrido. A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, destaca que esses episódios revelam o aumento de atos de violência extrema por parte de jovens. Em declaração à BBC News Brasil, ela atribui isso à dessensibilização causada pela exposição constante à violência, agravada pela falta de supervisão parental no uso da internet. “Quem se expõe rotineiramente à violência perde a sensibilidade com o tempo. O que antes repelia passa a ser tolerado”, observa. “Primeiro, assistem e se tornam insensíveis; depois, passam a praticar.
Em um dos grupos monitorados, uma garota sofreu humilhações e abusos sexuais ao vivo, com uma audiência online. Essas transmissões, com pico entre 23h e 3h, atraem de 600 a mil espectadores. A vítima foi forçada a cortar o cabelo, se automutilar, beber água do vaso sanitário e matar um gato, momento em que protestou: “Esse gato não, eu amo esse gato. É o meu gato”.
Essas comunidades não ficam na dark web, mas em plataformas acessíveis via aplicativos em computadores, celulares ou tablets. “Tudo está na superfície: apps, jogos, plataformas e redes sociais ao alcance de todos”, afirma Salvariego. Plataformas como o Discord destacam-se por fomentar núcleos extremistas, onde a violência se intensifica.
Discord facilita crimes
O Discord, lançado em 2015 e com mais de 200 milhões de usuários mensais, começou focado em gamers, mas expandiu-se. A entrada em servidores requer convite via link, criando comunidades fechadas onde o conteúdo é interno, sem ênfase em viralização. “O Discord facilita crimes com recursos como compartilhamento de tela e hierarquias definidas: líderes, oradores e moderadores”, explica a delegada.
O recrutamento ocorre em outras redes, ao identificar interesse em vídeos extremistas, começando sutilmente em jogos como Roblox, Minecraft e Free Fire. “Vídeos curtos no YouTube, YouTube Kids, TikTok ou Instagram, cheios de brainrot, contribuem para a dessensibilização e radicalização online, algo que os pais muitas vezes ignoram”, alerta Salvariego.
Pesquisadores notam falhas na moderação do Discord, delegada aos usuários. “O líder decide quem ordena matar um animal, se automutilar ou cometer estupro virtual”, diz a delegada. A cooperação das plataformas é insuficiente, sem leis brasileiras para acionamentos emergenciais. O Discord não respondeu a questionamentos recentes, mas anteriormente defendeu tolerância zero a ilegalidades e equipes regionais para remoção de conteúdos nocivos.
A polícia infiltra-se nos grupos; em casos urgentes, busca bloquear servidores e preservar dados para investigações.
O zoossadismo online é global e, em alguns países, lucrativo. Em 2023, a BBC expôs redes internacionais comprando gatos para tortura online, com milhares de membros compartilhando e vendendo vídeos. A investigação partiu de adolescentes no Reino Unido que admitiram torturar e matar gatos. Originados na China, esses grupos se espalharam mundialmente, com ativistas documentando 24 grupos ativos de maio de 2023 a 2024, publicando vídeos a cada 14 horas em média. O maior tinha mil membros, e um torturador filmou mais de 200 mortes. No Brasil, não há indícios de lucro, segundo Salvariego.
“Conheço meus inimigos”, diz delegada
No Noad, agentes assistem crimes repetidamente para relatórios. Desde sua criação, resgataram 358 meninas de arenas virtuais, internaram 208 adolescentes, prenderam 58 adultos e salvaram mais de mil animais. Pais ficam surpresos ao serem alertados sobre abusos noturnos. “Se os pais recolhessem celulares à noite, reduziríamos 60% desses crimes, que ocorrem na madrugada”, sugere a delegada.
Salvariego enfrenta ameaças, como um caso em que uma vítima foi forçada a escrever “Lisa” no braço com navalha, postado como “presentinho pra Lisa”. Ela vê isso como motivação: “Conheço meu inimigo e me protejo; as vítimas não”. Para lidar com o estresse, recorre a terapia e escapes pessoais. “É revoltante, mas precisamos combater isso. Estamos colhendo frutos de uma geração dessensibilizada.
Em relação ao comportamento dessas organizações criminosas impulsionadas por ódio extremo contra animais indefesos, é alarmante como elas exploram a vulnerabilidade digital para perpetuar ciclos de violência gratuita, transformando o sofrimento em moeda de status social dentro de comunidades fechadas.
Cultura de crueldade
Esses grupos não só dessensibilizam jovens, mas fomentam uma cultura de crueldade que pode escalar para crimes contra humanos, destacando a urgência de regulamentações mais rígidas em plataformas online e maior conscientização parental sobre os riscos da internet desregulada.
Tal ódio irracional reflete uma falha societal profunda, onde a empatia é erodida pela busca por notoriedade virtual, demandando ações coordenadas entre autoridades, empresas de tecnologia e sociedade para erradicar essas redes tóxicas.















