Ela e ele tiveram as prisões mantidas ontem pela justiça de São Paulo durante audiência de custódia
A Justiça de São Paulo manteve neste sábado (17), após audiência de custódia, as prisões da delegada recém-empossada Layla Lima Ayub, de 36 anos, e de seu namorado, Jardel Neto Pereira da Cruz, o “Dedel”, apontado como uma das lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Pará. Investigada por vínculos diretos com o crime organizado, Layla admitiu falhas ao prestar depoimento à Corregedoria da Polícia Civil: “Dei bobeira”, afirmou. Em seguida, fez uma ressalva que ampliou o alcance das apurações: “Não errei sozinha”.
Ao decretar a prisão da delegada, o juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital, argumentou, com perplexidade, que a infiltração do crime organizado na máquina pública deixou de ser uma “lenda”.
Para o magistrado, os indícios reunidos – incluindo gravações, fotografias, termos de audiência e a presença de um líder da facção na cerimônia de posse da delegada – demonstram uma “ousadia absurda” e revelam uma estratégia da facção para influir diretamente nas decisões do Estado, aproximando o País de um narcoestado.
“Se o fato já não fosse de extrema gravidade, poucas vezes vistas, causando surpresa até àqueles que laboram na Justiça Criminal há anos, se comprovado, demonstra uma ousadia absurda e um total deboche das autoridades públicas quando um suposto integrante do alto escalão do PCC, com condenações criminais, suspeito de ser responsável por possíveis atentados contra a vida de juízes e outros agentes da Segurança Pública, comparece à cerimônia de posse de sua companheira como Delegada de Polícia do Estado de São Paulo que, novamente, em tese, estaria atuando em conjunto com o crime organizado”, assinalou o juiz na decisão.
Em outro trecho, o juiz escreveu: “Sem dúvida alguma, e já fiz tal afirmação em outros processos, se o Brasil ainda não se tornou um narcoestado, a distância para isso é mínima. A infiltração do crime organizado no Poder Público é evidente. Aliás, quanto mais o Estado demorar a reconhecer esse fato notório, mais difícil será a normalização da situação.”
O magistrado também lembrou a demora do poder público em reconhecer a atuação da facção em São Paulo: “Para se ter uma ideia, o Estado de São Paulo somente reconheceu a existência do PCC após nove anos de sua existência, e ainda assim porque houve uma rebelião em mais de trinta presídios, em 18 de fevereiro de 2001, quando lençóis com a sigla PCC foram exibidos em diversos estabelecimentos prisionais para que ninguém mais tivesse dúvida de sua existência.”
Segundo o Estadão, Layla foi levada algemada, sob escolta da Polícia Militar, ao Fórum da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista, onde uma juíza confirmou a legalidade da prisão temporária decretada contra ela. O mesmo ocorreu com Jardel “Dedel”, que também passou por audiência de custódia e teve a detenção mantida. Esse tipo de audiência não reavalia o mérito da investigação, mas verifica a regularidade do cumprimento do mandado e eventuais abusos.
A prisão da delegada foi decretada pela 2.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital, com prazo inicial de 30 dias, prorrogável por igual período. Nesse intervalo, o Ministério Público de São Paulo pretende ouvir novas testemunhas. A investigação teve início a partir de uma denúncia anônima encaminhada à Corregedoria da Polícia Civil e culminou na Operação Serpens, deflagrada na sexta-feira (16), que levou à prisão do casal.
De acordo com o Estadão, a Corregedoria indiciou Layla por exercício irregular da profissão, integrar organização criminosa, falsidade ideológica e associação para o tráfico. Na noite de sexta, ela foi interrogada por cerca de cinco horas. Parte do depoimento concentrou-se na compra da padaria Bom Jesus, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Os investigadores suspeitam que o estabelecimento tenha sido usado para lavar dinheiro do tráfico. Layla nega, mas admitiu saber que um integrante do PCC teria sido usado como “laranja” na administração do negócio.
Investigadores ouvidos pelo jornal relataram surpresa com a postura da delegada durante o interrogatório, destacando sua “frieza, inteligência e preparo”, além da capacidade de suportar forte pressão psicológica. Após a audiência, Layla foi transferida para a carceragem do 6.º Distrito Policial, no Cambuci, região central da capital.
Recém-empossada como delegada da Polícia Civil de São Paulo, Layla foi presa em um sobrado na zona oeste da cidade, onde estava com Jardel “Dedel”. No local, os agentes apreenderam dois celulares e um chip adicional. Em depoimento, ela reconheceu que cometeu “uma bobeira” ao atuar como advogada de um faccionado do Comando Vermelho em uma audiência de custódia realizada em 28 de dezembro, em Marabá (PA), apenas dez dias após sua posse como delegada, ocorrida em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, com a presença do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Ela suspeita do ex-marido
Layla afirmou que já havia solicitado o cancelamento de sua inscrição na OAB, mas, mesmo sem a formalização do desligamento, participou da audiência. “Dei bobeira”, repetiu. Apesar de não se declarar inocente, acrescentou: “Não errei sozinha”.
Ainda conforme o Estadão, a delegada demonstrou irritação ao falar do ex-marido, um delegado de Polícia no Pará, e suspeita que ele tenha impulsionado denúncias que chegaram ao Gaeco e à Corregedoria. A primeira informação sobre suas ligações com o crime organizado teria sido encaminhada de forma anônima aos promotores e investigadores.
Layla relatou ter uma filha de 18 anos e contou sua trajetória profissional: ingressou na Polícia Militar do Espírito Santo, chegou à patente de cabo, casou-se com um policial militar e, posteriormente, acompanhou o então marido ao Pará, onde ele se tornou delegado. Lá, formou-se em Direito e abriu um escritório de advocacia. Foi nesse período que passou a defender Jardel “Dedel”, preso por tráfico e apontado como líder do PCC em Marabá. Segundo ela, acabou se envolvendo afetivamente com o cliente, conseguiu sua liberdade provisória e, depois, separou-se do marido para viver com o faccionado.
Ao ser presa, Layla não negou os vínculos com a facção e admitiu que Jardel é “batizado” no PCC. A decisão judicial que determinou sua prisão atendeu a uma representação do delegado Kleber de Oliveira Granja, da Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo.
Layla Lima Ayub será indiciada por quatro crimes: exercício irregular da profissão, integrar organização criminosa, falsidade ideológica e associação para o tráfico















