O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma frente de investigação que pode expor mais um capítulo delicado da convivência entre grandes obras de energia e povos indígenas na Amazônia. A apuração mira os impactos sofridos por comunidades do Baixo Teles Pires e do Alto Tapajós, no Pará, após a situação de emergência declarada na Usina Hidrelétrica de Colíder, no Mato Grosso. O caso vai muito além de um problema técnico: envolve riscos ambientais sérios, ameaça à segurança de milhares de pessoas e o velho histórico de invisibilidade dos povos tradicionais diante de empreendimentos que, em tese, deveriam ter mecanismos claros de prevenção e comunicação.
Segundo denúncia apresentada por lideranças indígenas, uma “repentina cheia do rio” colocou em risco aldeias inteiras, que não receberam qualquer aviso prévio. O documento “Emergência Teles Pires”, elaborado pela Associação Dace, do povo Munduruku, aponta que o nível do rio subiu mais de dois metros e depois baixou de forma brusca, causando morte de peixes, ameaça aos tracajás e contaminação da água utilizada para consumo.
A nota é enfática: “As empresas que administram as barragens de Colíder, Teles Pires e São Manoel não informaram para os povos indígenas que isso iria acontecer”.
O MPF, ao abrir o Procedimento Administrativo nº 1.23.002.000643/2025-40, determinou como primeiras medidas a requisição de informações à Eletrobras — atual controladora da usina — e à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Ambas terão que apresentar cópia do Plano de Ação Emergencial (PAE) e detalhar as medidas de segurança e comunicação adotadas.
A procuradora da República Thaís Medeiros da Costa também pediu acesso, junto ao Ministério Público Estadual de Mato Grosso, ao procedimento que acompanha a situação de alerta da hidrelétrica.
A Eletrobras reconheceu que, desde 15 de agosto, foi necessário um “rebaixamento controlado” do reservatório, após a classificação de segurança da barragem passar de “atenção” para “alerta”. O motivo: falhas nos drenos da barragem, estruturas essenciais para liberar a pressão da água acumulada. O quadro levou à ativação do PAE. A empresa, que assumiu a usina da Copel em maio deste ano, afirma que segue recomendações técnicas de especialistas e que as medidas adotadas têm caráter preventivo.
A realidade ignorada
Mas as comunidades não se satisfazem com relatórios técnicos. A crítica é direta: “Falta informação segura, direta e diária para as comunidades”, cobra a Associação Dace, exigindo sua inclusão imediata no Plano de Ação Emergencial, com garantias de auxílio em caso de agravamento da crise.
Ou seja, a barragem de Colíder, vendida como símbolo de modernização energética, pode se tornar também um exemplo de como o planejamento estatal e privado falha ao ignorar a realidade dos povos que vivem às margens dos rios. O silêncio das empresas diante de comunidades impactadas é mais que uma falha de comunicação: é uma negligência que, em contextos amazônicos, significa colocar em risco modos de vida, alimentação e saúde.
No fundo, a situação expõe um dilema que já deveria estar superado: até quando populações indígenas e ribeirinhas serão as últimas a saber de decisões que mexem com sua sobrevivência? O alerta técnico em Colíder é, na prática, um alerta social.
Se a água sobe e desce sem aviso, a confiança também desmorona. E, neste caso, não há reforço estrutural que dê conta de reparar a falta de humanidade na condução do processo.















