Morreu nesta terça-feira (8), em Belém, a professora, pesquisadora e ativista Zélia Amador de Deus, aos 74 anos. Filha de empregada doméstica, nascida em uma fazenda na Ilha do Marajó e criada pelos avós na capital paraense, Zélia transformou a própria história em instrumento de luta coletiva e se tornou uma das maiores vozes do movimento negro na Amazônia e no país.
Professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), Zélia fazia tratamento contra um câncer de mama e passou mal na tarde desta terça. Ela foi levada a um hospital, onde faleceu. O velório será no Teatro Waldemar Henrique, em Belém, a partir das 22h desta terça.
A trajetória de Zélia é inseparável da história das políticas de igualdade racial no Brasil. Em 1980, foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), marco da reorganização do movimento negro no fim da ditadura. Fundou também o Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM-UFPA) e presidiu a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN).
Foi uma das articuladoras nacionais para a implantação do sistema de cotas para pessoas negras nas universidades públicas. Em 2001, integrou a delegação brasileira na Conferência Mundial contra o Racismo da ONU, em Durban, na África do Sul — experiência que, segundo ela, fortaleceu a cobrança por ações afirmativas no Brasil.
“Minha avó me dizia ‘tu és preta, mas não baixa tua cabeça'”, lembrou Zélia em entrevista. Aluna de escola pública, chegou a dar aulas para colegas para pagar a passagem de ônibus. “Eu me safei pela educação.”
A educação, para ela, era a principal ferramenta para enfrentar as desigualdades que a população negra acumula “em todas as esferas: saúde, educação, perspectiva de vida”.
Mesmo doente, seguiu ativa e sendo homenageada. Em 2019 recebeu o título de professora emérita da UFPA. Em 2021 foi premiada pela BrazilFoundation em Nova York e virou tema do documentário “Amador, Zélia” e de samba-enredo em Belém. No último dia 18 de agosto, há menos de um mês, participou emocionada do plantio de um baobá em sua homenagem no Campus Guamá da UFPA.
“Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós”, disse na ocasião.
Zélia deixa um legado de pesquisa, militância e afeto que formou gerações de estudantes, ativistas e professores negros na Amazônia. Uma mulher que não apenas denunciou o racismo, mas abriu caminhos — na universidade, nas políticas públicas e na vida — para que outros não precisassem baixar a cabeça.















