Desde 2018, piloto e sete indígenas Tiriyó sumiram sem deixar vestígios, enquanto FAB e familiares enfrentam os obstáculos intransponíveis da maior floresta tropical do mundo
Brasília – Sete anos após o desaparecimento do Embraer EMB-720C Minuano (PT-RDZ) em 2 de dezembro de 2018, com oito pessoas a bordo na Floresta Amazônica, o caso permanece um enigma. As buscas oficiais foram suspensas pela Força Aérea Brasileira (FAB) após 14 dias sem vestígios, expondo as extremas dificuldades logísticas e geográficas de resgate na vasta e densa região, enquanto familiares e comunidades indígenas persistem em esforços voluntários sem sucesso.
Em um cenário que sublinha os riscos inerentes à mobilidade na Amazônia, o desaparecimento do avião monomotor fabricado pela Embraer, continua a desafiar as autoridades e a afligir as famílias dos oito ocupantes, incluindo o piloto e sete indígenas da etnia Tiriyó. O incidente, ocorrido entre a aldeia Matawaré, no Parque do Tumucumaque, e Laranjal do Jari, no Amapá, desencadeou uma complexa operação de busca que, apesar da intensidade, não conseguiu localizar qualquer vestígio da aeronave.
O desaparecimento e as buscas oficiais
O avião transportava o piloto Jeziel Barbosa de Moura, com mais de 30 anos de experiência, e sete membros de uma família Tiriyó – um professor, sua esposa, três filhos, uma aposentada e seu genro.
A viagem, contratada pelos indígenas, teve seu último contato cerca de 25 minutos após a decolagem, quando o piloto informou por rádio a necessidade de um pouso de emergência. A partir desse momento, o PT-RDZ e seus ocupantes sumiram na imensidão da floresta fechada, em uma área sem estradas e com acesso fluvial que poderia levar até quatro dias de viagem, predominantemente em território paraense, pela cidade de Almeirim.
A Força Aérea Brasileira (FAB) e o Exército Brasileiro mobilizaram recursos significativos em uma operação que durou 14 dias. A FAB empregou aeronaves como o SC-105 Amazonas SAR, C-130 Hércules e o helicóptero H-60 Black Hawk, acumulando 128 horas de voo e sobrevoando uma área de 12.550 km², equivalente a cerca de 12 mil campos de futebol.
A equipe de 60 militares, coordenada pelo Centro de Coordenação de Busca e Salvamento de Manaus (Salvaero) e pelo Quarto Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta IV), percorreu em linha reta uma distância superior a 20 mil quilômetros – comparável a uma viagem entre São Paulo e Tóquio.
Apesar do empenho, a FAB anunciou a suspensão das buscas em 2018, citando a ausência de vestígios e as severas dificuldades impostas pela mata fechada e pela região montanhosa. O Exército Brasileiro também cancelou sua participação, alegando a falta de suporte de aeronaves para cobrir uma área tão extensa.
Desafios da aviação privada na Amazônia
O caso PT-RDZ evidenciou os obstáculos intransponíveis das operações de busca e resgate na Amazônia. Não há garantias de sucesso nessas operações. São diversos os fatores críticos:
• Floresta densa e “Oceano Verde”: A mata fechada e as copas das árvores dificultam a visibilidade aérea, ocultando aeronaves de pequeno porte mesmo em sobrevoos.
• Vasta extensão territorial e acesso difícil: A baixa densidade demográfica e a pouca infraestrutura terrestre tornam muitas áreas acessíveis apenas por via aérea ou fluvial, exigindo um imenso esforço logístico.
• Falta de infraestrutura de pouso: A decolagem do PT-RDZ ocorreu de uma pista não homologada, o que, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), caracterizou o voo como clandestino e dificultou o rastreamento exato da rota e a delimitação da área de busca. Isso levanta questões sobre a regulamentação e fiscalização de pistas na região.
• Condições climáticas variáveis: As chuvas intensas e a nebulosidade amazônica limitam os voos visuais e o uso de equipamentos sensoriais, além de complicar operações terrestres. Mas, no Alasca, território dos Estados Unidos, as condições também são extremas, mas as estatísticas de sucesso em resgates superam as da região amazônica devido os investimentos alocados pelo governo norte-americano.
• Ausência de sinalizadores modernos: Aeronaves menores frequentemente carecem de sistemas de rastreamento avançados ou caixas-pretas que emitam sinais por longos períodos, um fator determinante para a suspensão das buscas oficiais, como relatado pela filha do piloto: “Esperamos por vestígios que nunca apareceram”.
• Logística complexa: O reabastecimento e a manutenção de aeronaves de busca em áreas isoladas elevam os custos e a complexidade das operações prolongadas. Devido a esses fatores, a FAB concluiu que a probabilidade de encontrar a aeronave ou sobreviventes com os recursos disponíveis havia se esgotado, levando à suspensão das operações oficiais.
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) não publicou um relatório final, já que a aeronave nunca foi localizada.
A mobilização voluntária e o desfecho incerto
Com a suspensão das buscas oficiais, os familiares dos desaparecidos, juntamente com comunidades indígenas, empreenderam esforços próprios. Tribos Tiriyó e de outras etnias organizaram expedições terrestres, utilizando seu profundo conhecimento da selva.
A família do piloto, Jeziel Barbosa, e as famílias indígenas realizaram campanhas de arrecadação (“vaquinhas”) para financiar novas buscas aéreas e terrestres, retomando os esforços em datas simbólicas, como em dezembro de 2019, um ano após o sumiço.
Apelos na mídia e nas redes sociais buscaram manter a visibilidade do caso, mas, apesar de toda a mobilização, nenhuma dessas iniciativas voluntárias conseguiu localizar o avião ou qualquer pista concreta. A persistência dos familiares e das comunidades ressalta a dimensão humana da tragédia e a dificuldade de aceitar a ausência de respostas.
O legado de mistérios aéreos na Amazônia
O desaparecimento do PT-RDZ se insere em um contexto mais amplo de incidentes aéreos na Amazônia, que incluem tanto desfechos trágicos quanto notáveis casos de sobrevivência. Há um legado de outros casos notórios:
• Sobrevivência notável: O caso do piloto Antonio Sena, que em 2021 sobreviveu por 38 dias na selva após a queda de seu Cessna 210, sendo resgatado por coletores de castanha. Mais recentemente, em abril de 2025, o piloto Igor Alves foi encontrado vivo por garimpeiros após cinco dias desaparecido na Terra Indígena Yanomami, em Roraima.
• Descobertas tardias: Um avião que desapareceu em 1979 no Pará foi encontrado apenas 40 anos depois, em 2019, com os restos das vítimas, demonstrando a capacidade da selva de ocultar aeronaves por décadas.
• Mistérios solucionados parcialmente: O Voo Varig 254, em 1989, um Boeing 737 que caiu na selva devido a um erro de navegação, que decolou de Marabá em direção a Belém, teve a aeronave encontrada e vários passageiros sobreviveram ao impacto e ao resgate dois dias depois.
O caso do PT-RDZ, no entanto, persiste como um mistério total. Ao completar sete anos, ele serve como um doloroso lembrete das vulnerabilidades enfrentadas por aqueles que dependem da aviação leve para conectar-se ao mundo exterior da floresta.
A realidade de quem depende exclusivamente desse meio de transporte e a falta de regulamentação de pistas expõem uma lacuna que continua a desafiar políticas públicas e a segurança aérea na região.
Onde um avião some na Amazônia, a selva pode “engolir não apenas os destroços, mas também as respostas”, deixando uma ferida aberta e uma busca incessante por elucidação.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















