Onde há fumaça, há fogo: Wolney Queiroz e Gilberto Waller Júnior protagonizam embate que expõe fragilidade na cúpula da instituição, com reflexos na governança
Brasília – Às vésperas de comparecer à última convocação do ano da CPMI da Roubalheira do INSS, onde tem muito a dizer, o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, substituto de Carlos Lupi, demitido por Lula após o escândalo do assalto aos aposentados, uma crescente crise de poder e relacionamento vem se desenrolando nas cocheiras do poder em Brasilia. A disputa entre Queiroz e o presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Gilberto Waller Júnior tem se tornado pública e é o prenúncio de novo abalo na novela do INSS.
O mais recente episódio, ocorrido nesta terça-feira (11), evidenciou o afastamento entre os dois quando o presidente do INSS foi preterido de um evento com servidores da pasta, em Brasília, do qual o ministro participou, intensificando a percepção de uma disputa por influência e comando dentro da autarquia atolada no maior escândalo de sua história.
A escalada dos atritos entre as duas figuras-chave da Previdência Social ganhou novos contornos nesta semana. A ausência de Gilberto Waller Júnior em um evento ministerial com servidores, organizado pelo Ministério da Previdência Social, não passou despercebida. Segundo interlocutores, o presidente do INSS não foi sequer convidado para a ocasião, na qual o INSS foi representado pela vice-presidente da autarquia, Lea Bressy, notadamente mais próxima ao ministro Wolney Queiroz.
Os desdobramentos recentes são fruto de um histórico de intervenções e realinhamentos na gestão do INSS. Conforme apurado, o ministro Wolney Queiroz aproveitou um período de férias de uma semana de Gilberto Waller Júnior para promover mudanças significativas na estrutura do órgão. A diretoria de Gestão de Pessoas do INSS passou a ser ocupada por Yveline Barretto Leitão, que é irmã do prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT).
Além dessa alteração, a vice-presidente Lea Bressy, que atuava como presidente substituta durante o recesso de Waller, nomeou Weslley Aragão Martins para o cargo de coordenador de Gestão do Relacionamento com o Cidadão. Essa indicação, em particular, chama a atenção devido ao histórico de Weslley Martins, que havia sido demitido em maio deste ano da superintendência do INSS no Maranhão. Sua exoneração anterior ocorreu na esteira da “Operação Sem Desconto”, uma investigação que revelou aos brasileiros um esquema criminoso que teria desviado bilhões de aposentados e pensionistas.
Embora a indicação de Martins seja atribuída ao senador Weverton (PDT) — que tem usado todo o seu prestígio político para não ser convocado pela CPMI do INSS —, o próprio parlamentar negou tal envolvimento em conversa com um jornalista que divulgou o diálogo.
Gilberto Waller, por sua vez, disse que estava alheio a essas movimentações durante seu período de férias.
Os embates entre o ministro e o presidente do INSS não são recentes. Em julho, Wolney Queiroz já havia promovido uma redução no poder da gestão do INSS. Curiosamente, Gilberto Waller Júnior havia recebido uma “carta branca” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para implementar modificações na autarquia, como resposta ao escândalo dos descontos indevidos, amplamente divulgado pela imprensa. Essa autonomia, no entanto, parece ter sido progressivamente erodida pela atuação ministerial, não se sabe se com o aval da ala política postada no Palácio do Planalto, ao entorno de Lula.
A tensão entre os dois foi explicitada em um vídeo que circulou entre servidores do INSS. Nas imagens, o ministro Wolney Queiroz, em tom de brincadeira, revela ter “falado mal” de Gilberto Waller para o presidente Lula. O trecho exato, proferido durante um evento de comemoração aos 35 anos do INSS em junho deste ano, demonstra a dinâmica delicada entre eles: “Na primeira conversa que eu tive com o Gilberto, já falei para ele: ‘Olha, prazer em conhecê-lo, mas já falei muito mal de você pro presidente Lula, mas ele disse que está tudo certo’”.
Os dois personagens se recusam a manifestar sobre os ocorridos e a aparente crise interna, tanto o Ministério da Previdência Social quanto o INSS optaram por não emitir posicionamento. A ausência de comentários por parte das instituições reforça a opacidade em torno de uma disputa que pode ter implicações diretas na gestão de um dos mais importantes órgãos da seguridade social brasileira. A continuidade dessa crise pode gerar instabilidade na autarquia, afetando a implementação de políticas públicas e a relação com milhões de beneficiários.
A expectativa do depoimento do ministro Wolney Queiroz é enorme e definirá o futuro de seu papel na pasta.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














