Durante o programa Linha de Tiro, que entrevistou a economista e PHD em desenvolvimento sustentável, Maria Amélia Enriquez e o presidente do Sindifisco PA, Charles Alcântara, ficou escancarado que nem a União, muito menos o Estado, têm, nem nunca tiveram, interesse no desenvolvimento sustentável do Pará.
A classe política posterga o debate, ignorando exemplos de outros estados e outros países em que a mineração acabou e não sobrou nada para ninguém, a não ser para os ricos acionistas das mineradoras.
Maria Amélia Enriquez afirmou que na questão dos recursos minerais, o esgotamento da mineração não é apenas o esgotamento físico do recurso e lembrou o que aconteceu no passado com o Chile, que era grande produtor de salitre e depois descobriram um sintético para a produção de adubo de fertilizantes e toda aquela região produtora de salitre se transformou em uma cidade fantasma.
Ela conheceu cidades no Canadá, que eram produtoras de urânio, mas descobriram urânio nos Estados Unidos a um custo muito mais barato e deixaram fechadas ali as minas. “Nós estamos vivendo uma época de intensa mudança tecnológica e nada garante que a mineração de ferro, ou de bauxita ou outros minérios que nós estamos trabalhando, eles vão ter demanda no futuro. Então, o dever de casa da economia mineira é fazer essa ponte entre o presente, que é permanente, e o futuro”, observou.
Sobre o livro da autoria dela, com o título “Mineração, maldição ou dádiva?”, e o que ela pensa hoje, ela disse que é uma dádiva, “porque nenhum outro tipo de atividade econômica permite você ter um volume de recursos tão expressivo, mas se você não souber lidar com isso, assim como quem ganha um bilhete de loteria e gasta de maneira irresponsável, vira uma maldição”.
A economista aponta que hoje tem exemplos de mineração sustentável, como os países escandinavos, por exemplo. “Na Finlândia tem mineração de cobre. A Suíça tem mineração de ferro, pequena, mas tem. E ninguém reclama, porque você tem uma política, uma sequência. Mais do que políticas públicas, nós temos que ter pessoas preparadas”, ensinou.
Para Maria Amélia Enriquez, “essa mentalidade da farinha pouca, meu pirão primeiro – eu quero resolver meu problema hoje, o meu emprego, do meu parente, pilhar o máximo que eu puder do Estado, e o resto eu deixo para depois – isso não pode, é uma atitude muito irresponsável”. A proposta é: tem que pensar estrategicamente, ter consequência e ter gente preparada, porque quem faz o desenvolvimento são pessoas.
Charles Alcântara concordou com a economista e disse que precisamos formar um grupo multidisciplinar no Estado que se aprofunde no tema da mineração; conhecer as experiências internacionais e saber o que deu certo e o que deu errado. Ao seu modo de ver, “nesses anos todos, nós estamos seguindo o exemplo que deu errado, o pior exemplo. Há chances, possibilidades de corrigir isso, sim, mas a cada ano, a cada novo ciclo, a gente vai perdendo isso, porque a gente vai empobrecendo, se descapitalizando e não transformamos isso hoje em potencialidade, porque não conseguimos”.
Ele citou que a indústria da transformação do Pará representa hoje um quarto PIB do que representava em 2.000, segundo a professora Maria Amélia e emprega hoje 7 por cento dos empregos formais. Enquanto isso, a indústria mineral empregou 1,7 por cento dos empregos formais, com toda essa potência, esses números extraordinários.
“Então, a indústria da mineração não empregou, nem emprega, não dinamizou a economia, pelo contrário, ela perpetua a condição de primária, ela desindustrializou o Pará, ela não contribui com tributos. Agora, ela gera muito ganho aos seus acionistas, isso é verdade”, completou.














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