Declarações ao TSE para 2026 expõem saltos de R$ 36 mil a R$ 3,8 milhões e de R$ 3,3 mi a R$ 24,5 mi, em meio a investigações e bloqueio de bens
Brasília – Às vésperas do registro oficial das candidaturas para as eleições de 2026, declarações de bens apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) escancararam a disparada patrimonial de parlamentares que concorrem à reeleição, com crescimentos que variam de 48% a 8.850% em poucos anos. Se o salto é “milagre” ou genialidade de gestão pessoal, é impossível concluir, mas uma coisa os une: quando o assunto é turbinar o patrimônio pessoal, direita, esquerda e centro se tornam uma coisa só.
O caso mais emblemático é o do senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, que viu seu patrimônio saltar de R$ 3,3 milhões em 2018 para R$ 24,5 milhões em 2026 — alta de 631% — justamente enquanto é investigado pela Polícia Federal no caso envolvendo o Banco Master.
A reportagem do Ver-o-Fato, baseado nas declarações do DivulgaCand, cruzando dados de registros do Tribunal Superior Eleitoral, reconstitui a cronologia desses aumentos e as explicações oficiais de cada parlamentar.
O “milagre” de Jaques Wagner e a explicação que não convence
O caso que concentra maior atenção é o do senador baiano. Segundo as declarações prestadas ao TSE, Wagner tinha R$ 3.355.966,73 em bens em 2018 e informou R$ 24.522.355,65 para a disputa deste ano, um crescimento de aproximadamente 630% em oito anos. O dado é baseado no sistema DivulgaCand.
A explicação oficial do senador para tamanha evolução repousa, em grande parte, na venda de um terreno em Camaçari, na Bahia, negociado por R$ 13,8 milhões com a SAF do Bahia Esporte Clube e com uma incorporadora. O detalhe que chama a atenção é que, em 2018, o mesmo lote foi declarado por apenas R$ 28 mil. A valorização de 49.185% em oito anos levou o próprio documento a ironizar que o feito “desafia até o Dicastério para as Causas dos Santos”. Sobre o assunto, o senador preferiu não se manifestar aos pedidos de comentário solicitados pela imprensa.
Além do terreno, Wagner declarou a venda de um apartamento no bairro da Vitória, em Salvador, ao prefeito de Conceição do Coité, por R$ 10 milhões — seis vezes o valor do mesmo bem declarado ao TSE. O quadro se agrava com a apreensão de dólares e euros em endereços do senador durante operação da Polícia Federal, que ele atribui a “diárias de viagem” não utilizadas, sem explicar por que não teriam sido devolvidas aos cofres públicos.
O contexto investigativo é decisivo. A PF apura se Wagner recebeu propina de um ex-sócio de Daniel Vorcaro, do Banco Master, para favorecer interesses do empresário no Senado. O bloqueio de bens determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e a suspensão da transferência do terreno de Camaçari pelo cartório responsável reforçam os indícios de enriquecimento ilícito que a Justiça passa a examinar.
A biografia do senador, publicada no site do PT, registra uma vida dedicada à política — sindicalista fundador do partido na Bahia, governador por dois mandatos, ministro em governos petistas e senador desde 2018 —, o que torna a origem da riqueza ainda mais intrigante, pois não há registro de outra atividade remunerada no período além do mandato, cujo subsídio é de R$ 46.366,19 mensais.
O salto de Nikolas Ferreira: de R$ 36 mil a R$ 3,8 milhões
Outro caso de destaque é o do “estridente” deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), uma das vozes com maior penetração na Redes Socais e líder da direita bolsonarista. Segundo dados da Justiça Eleitoral, seu patrimônio cresceu de R$ 36 mil para R$ 3,8 milhões ao longo do primeiro mandato no Congresso. Corrigido pela inflação, o valor declarado em 2022 equivalia a aproximadamente R$ 43,5 mil, o que representa um crescimento de 8.850% na comparação com o pleito mais recente.
A maior parte do patrimônio do parlamentar corresponde a um imóvel financiado, avaliado em R$ 2.231.664,61, enquanto os R$ 1,6 milhão restantes estão distribuídos em aplicações, investimentos, ações e participações empresariais. Em 2022, quando foi eleito vereador de Belo Horizonte pelo PRTB e concorreu a deputado federal, Ferreira havia declarado apenas depósitos bancários, aplicações de renda fixa e caderneta de poupança; no primeiro pleito que disputou, sequer declarou bens.
Eduardo Braga: patrimônio quase dobra em quatro anos
O senador Eduardo Braga (MDB-AM), que busca mais oito anos no Senado, declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 60.278.559,10, quase o dobro dos R$ 35.789.885,79 informados em 2022, quando concorreu ao governo do Amazonas. A alta, em quatro anos, foi de quase 70% — ou 63,9% considerando a inflação do período pelo IGP-M.
Grande parte do patrimônio está concentrada em investimentos no mercado de ações. Braga declarou R$ 14.900.288,24 a receber em dividendos acumulados até 2025, além de 30 mil ações da Vale (R$ 2.037.854,72), 33.200 ações da Petrobras (R$ 1.086.570,39) e 9.800 ações da JBS (R$ 749.980,77). Entre os bens de uso pessoal, listou R$ 40 mil em relógios, um jet ski de R$ 40 mil, uma lancha de R$ 200 mil e um Mercedes-Benz 2010 avaliado em R$ 295 mil. Em nota, o senador atribuiu o crescimento “à rentabilidade de suas empresas, somada ao patrimônio familiar”, e destacou apresentar a declaração do Imposto de Renda à Justiça Eleitoral desde 1990, com “todo o patrimônio de origem conhecida e legal”.
O ranking parcial e suas limitações metodológicas
O documento que embasa esta reportagem adota uma hipótese de trabalho para ordenar os maiores crescimentos patrimoniais entre 2022 e 2026, com base em declarações do DivulgaCand e em levantamentos de livre acesso público. O ranking parcial verificável é o seguinte:
Paulo Pimenta (PT-RS), candidato a senador: de R$ 192,8 mil (2022) para R$ 1,87 milhão (2026), alta de 870%;
Geraldo Alckmin (PSB), candidato a vice-presidente: de R$ 1,0 milhão para R$ 3,3 milhões, alta de 227,3%;
Chico Alencar (PSOL-RJ), candidato a deputado federal: de R$ 192 mil para R$ 961 mil, alta de 400%;
Décio Lima (PT-SC), candidato a senador: de R$ 1,49 milhão para R$ 3,17 milhões, alta de 113%;
Rogério Correia (PT-MG), candidato a deputado federal: de R$ 717 mil para R$ 1,1 milhão, alta de 53%;
Rui Falcão (PT-SP), candidato a deputado federal: de R$ 614 mil para R$ 912 mil, alta de 48,5%.
Manuela D’Ávila (PSOL-RS), candidata a senadora: R$ 455 mil (2020) → R$ 1,376 mi (2026) = +202% em 6 anos.
Rui Costa (PT-BA), candidato a senador: R$ 674 mil (2018) → R$ 1,264 mi (2026) = +87% em 8 anos.
Não foi possível confirmar com segurança o top 10 completo entre as mais de 8.229 candidaturas declaradas ao TSE, pois o índice mais abrangente localizado é uma aplicação interativa baseada em JavaScript cujos dados não puderam ser extraídos.
Há ainda viés de seleção das fontes, o que pode deixar de fora nomes de outros espectros com crescimento ainda maior. Os percentuais não foram corrigidos pela inflação acumulada no período, e, conforme aponta a DW Brasil, candidatos declaram imóveis pelo valor de compra, e não de mercado, o que pode distorcer a evolução patrimonial.
Os partidos têm até 15 de agosto para registrar candidaturas, e o DivulgaCand se atualiza a cada 60 minutos, de modo que o ranking pode mudar conforme novos registros entram.
Eleitor intrigado
Os números reunidos nesta reportagem revelam um fenômeno que atravessa o espectro político e que, em vários casos, desafia a lógica financeira convencional, gerando desconfianças óbvias nos eleitores.
Se é legítimo que patrimônios cresçam por investimentos, heranças ou rendimentos lícitos — como sustenta Eduardo Braga —, a magnitude de saltos como os de Jaques Wagner (631% em oito anos) e Nikolas Ferreira (8.850% em quatro anos) impõe um escrutínio que vai além da fé pública de cada um deles.
No caso do senador baiano, o crescimento patrimonial coincide com uma investigação da Polícia Federal, com bloqueio de bens determinado pelo STF e com a suspensão cartorária de uma venda milionária, o que torna a necessidade de explicação ainda mais urgente.
Caberá à Justiça Eleitoral, ao Ministério Público e ao eleitorado decidir se esses “milagres” têm explicação terrena ou se configuram indícios de enriquecimento ilícito. Enquanto as respostas não vêm, resta ao cidadão acompanhar, com os dados do DivulgaCand em mãos, quem de fato explica a origem de sua riqueza — e quem prefere o silêncio.
O espaço seguirá aberto para as explicações dos citados.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















