Perícia encontrou arquivos manipulados, procurações produzidas em massa, assinaturas reaproveitadas e datas incompatíveis com a cronologia apresentada nos documentos. Investigação aponta operações bilionárias envolvendo o Master, a Tirreno e o BRB
Por trás de documentos que, à primeira vista, pareciam capazes de comprovar operações legítimas de crédito, havia uma espécie de fábrica digital. Planilhas alimentavam modelos do Word, programas desenvolvidos em C# manipulavam arquivos PDF, páginas de assinaturas eram separadas de documentos antigos e milhares de procurações eram produzidas em lote.
O problema para quem montou essa engrenagem é que os arquivos digitais deixaram rastros.
Foi justamente seguindo essas pistas que a Polícia Federal conseguiu reconstruir parte do mecanismo utilizado no caso Banco Master. A perícia encontrou inconsistências entre as datas que apareciam visualmente nos documentos e os registros digitais associados aos próprios arquivos.
As descobertas fazem parte dos documentos tornados públicos no âmbito da investigação e ajudam a explicar como a PF chegou à conclusão de que operações envolvendo bilhões de reais foram sustentadas por documentação produzida ou manipulada posteriormente.
Segundo os investigadores, as operações fictícias ou materialmente insubsistentes entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) chegariam a aproximadamente R$ 17 bilhões. Dentro desse universo, um conjunto específico de operações envolvendo créditos supostamente originados pela empresa Tirreno foi estimado em R$ 7,15 bilhões.
O detalhe que o papel não consegue esconder
Um documento impresso pode mostrar uma data, uma assinatura e uma sequência aparentemente normal de acontecimentos.
Um arquivo digital, porém, pode carregar informações adicionais.
São os chamados metadados: registros relacionados à criação, modificação, processamento e, em determinados casos, assinatura de um arquivo. Eles não aparecem necessariamente na página que uma pessoa lê, mas podem permanecer associados à estrutura digital do documento.
No caso investigado, a perícia encontrou justamente esse tipo de discrepância.
Um dos exemplos mais significativos envolve uma Cédula de Crédito Bancário (CCB). O documento apresentava como data 21 de janeiro de 2025. Entretanto, o registro da assinatura digital indicava que aquele arquivo só havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
A diferença de quase cinco meses transformou uma informação aparentemente banal em uma peça importante para reconstruir a cronologia.
A assinatura digital, nesse caso, funcionou como uma espécie de relógio escondido dentro do documento.
Uma fábrica de procurações
A investigação também identificou uma operação que lembra mais uma linha de produção industrial do que o procedimento convencional de elaboração de contratos.
Segundo os documentos analisados pela PF, uma equipe utilizou uma planilha com informações cadastrais e o recurso de mala direta do Microsoft Word para gerar automaticamente milhares de procurações.
O resultado: 2.700 procurações produzidas em lote em 20 de junho de 2025.
Os arquivos estavam associados a uma pasta denominada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.
A suspeita dos investigadores é que parte desse material tenha sido utilizada para compor uma amostra de 1.785 contratos apresentada ao BRB como comprovação de créditos supostamente originados pela Tirreno.
A tecnologia, portanto, teria sido usada para dar escala ao procedimento.
Em vez de produzir documentos individualmente, bastava alimentar uma base de dados e deixar o programa preencher automaticamente nomes e informações.
O problema estava nos próprios dados
A produção automatizada também acabou deixando sinais de que a base utilizada para gerar os documentos poderia conter informações incompatíveis com a narrativa das operações.
Em uma conversa interna reproduzida na investigação, um integrante da área de tecnologia alertou que havia na relação o CPF de uma pessoa que aparecia associada a apenas uma proposta, registrada ainda em 2019.
A observação levantou dúvidas sobre a qualidade da lista utilizada para alimentar a produção dos documentos.
Esse tipo de detalhe é particularmente importante numa investigação digital porque pode permitir aos peritos relacionar documentos, bancos de dados, mensagens internas e cronologia de produção.
O arquivo deixa de ser apenas um PDF.
Ele passa a ser uma peça de uma cadeia de evidências.
Programas em C# ajudaram a separar assinaturas
Outro elemento identificado pela perícia foi a utilização de aplicações desenvolvidas em C#, associadas ao ambiente tecnológico do Banco Master.
Segundo os investigadores, integrantes da área de tecnologia participaram da criação de ferramentas capazes de manipular documentos.
Uma dessas aplicações tinha a função de extrair uma página específica de um PDF — justamente a página em que apareciam assinaturas.
A descoberta é importante porque a separação de páginas permite, tecnicamente, reutilizar uma assinatura ou inseri-la posteriormente em outro conjunto documental.
A PF também identificou arquivos e pastas relacionados à manipulação desses documentos.
Em outras palavras: não se tratava simplesmente de alguém alterar um contrato isoladamente. Os investigadores encontraram indícios de procedimentos organizados para localizar, separar, montar e reunir componentes de documentos.
O arquivo “erros-whatsapp.zip”
Um dos achados que chamaram a atenção dos investigadores foi um arquivo compactado chamado “erros-whatsapp.zip”.
Segundo a perícia, ele continha 1.833 arquivos PDF, compostos por páginas isoladas de assinaturas de Termos de Consentimento.
O arquivo teria sido enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior.
A existência desse conjunto de arquivos é relevante porque demonstra como documentos aparentemente independentes poderiam ser manipulados em escala.
Uma página contendo uma assinatura, separada de seu documento original, passa a ser um elemento que pode ser incorporado a outro arquivo.
E é justamente aí que entram os rastros digitais.
A assinatura digital virou testemunha
Em determinados documentos, a investigação encontrou uma situação que seria difícil de explicar apenas olhando para a folha.
O texto dizia que determinada operação havia acontecido em uma data anterior. Entretanto, o registro eletrônico indicava que a assinatura ou a montagem final do arquivo ocorreu meses depois.
A diferença entre a data escrita no documento e a data registrada digitalmente permitiu à perícia questionar a cronologia apresentada.
No caso das CCBs, a PF identificou lotes de documentos extraídos de sistemas internos e posteriormente organizados para assinatura.
Em 20 de junho de 2025, uma força-tarefa teria sido organizada para assinar documentos. Segundo o relatório, foram distribuídas 675 CCBs para cada um de quatro operadores, totalizando 2.700 documentos. As assinaturas foram realizadas utilizando certificados digitais no Adobe Acrobat Reader.
A matemática ajuda a entender a dimensão do trabalho: 675 documentos para cada operador, quatro operadores e um volume gigantesco de arquivos produzidos em curto espaço de tempo.
De onde vinham os dados dos clientes?
A investigação aponta ainda para o uso de dados reais de clientes na construção dos documentos.
Segundo os elementos reunidos pela PF, informações cadastrais foram utilizadas para gerar documentos relacionados a supostos créditos consignados.
A suspeita era de que os dados antigos pudessem servir como matéria-prima para criar novas operações.
Nesse modelo, um CPF real não significava necessariamente que existia uma operação de crédito real correspondente.
Era justamente essa diferença que precisava ser escondida pela documentação.
A PF identificou, por exemplo, referências a bases antigas relacionadas ao CredCesta, produto de cartão de benefício consignado que passou pelo Banco Master.
O mecanismo investigado, portanto, teria combinado três elementos: dados reais, documentos produzidos artificialmente e operações financeiras apresentadas como legítimas.
A Tirreno no centro da engrenagem
A empresa Tirreno aparece como uma peça importante na reconstrução feita pelos investigadores.
Segundo a PF, a companhia teria funcionado como veículo para a formação e circulação dos créditos que posteriormente chegavam ao Banco Master.
O banco, por sua vez, vendia essas carteiras ao BRB.
O problema identificado pela investigação é que a estrutura teria sido utilizada para conferir aparência de lastro a operações que, segundo a PF, eram fictícias ou materialmente insubsistentes.
A investigação sustenta que o Master enfrentava dificuldades de liquidez e passou a vender carteiras de crédito ao BRB em volumes elevados.
Para sustentar essas operações, documentos e dados precisavam acompanhar os créditos.
Foi nesse ponto que a suposta “linha de montagem” documental ganhou importância.
R$ 7,15 bilhões sob suspeita
O conjunto relacionado à Tirreno é especialmente expressivo.
Segundo os documentos analisados pela imprensa a partir do material da PF, as operações envolvendo essas carteiras chegaram a aproximadamente R$ 7,15 bilhões.
O valor está inserido em um quadro ainda maior: a PF estima em cerca de R$ 17 bilhões as operações fictícias ou sem lastro material envolvendo Master e BRB.
Os números dão dimensão do que está sendo investigado.
Não se trata, segundo a PF, de alguns contratos isolados que teriam sido falsificados.
A suspeita é de uma estrutura capaz de produzir documentação em massa para sustentar operações financeiras bilionárias.
O BRB e a pressão por liquidez
De acordo com a investigação, o Banco Master passou a enfrentar problemas de liquidez mais graves a partir de 2024.
Nesse cenário, a venda de carteiras de crédito para o BRB teria se tornado uma importante fonte de recursos.
O relatório da PF afirma que operações foram aprovadas com tramitação acelerada e que alertas técnicos e jurídicos teriam sido ignorados.
A investigação também aponta que o BRB transferiu aproximadamente R$ 17 bilhões ao Master pela aquisição de carteiras de crédito e que cerca de R$ 12,2 bilhões dessas carteiras seriam compostos por créditos fictícios, segundo relatório citado pela Folha.
São números que ainda estão no centro da apuração judicial e não equivalem, por si só, a uma condenação definitiva dos envolvidos.
Quando o documento começa a contar outra história
O caso Master produz uma lição que ultrapassa o setor bancário.
Na era dos documentos digitais, falsificar ou manipular uma informação não significa apenas alterar aquilo que aparece na tela.
Também é preciso considerar aquilo que fica escondido.
Um PDF pode carregar histórico de edição. Uma assinatura digital pode registrar data e horário. Um arquivo pode revelar o software utilizado. Uma pasta pode indicar a finalidade de um lote. Uma mensagem pode mostrar quem solicitou determinado procedimento.
Separadamente, cada pista pode parecer insignificante.
Juntas, elas podem reconstruir uma operação.
Foi esse quebra-cabeça que a Polícia Federal passou a montar.
A fraude que deixou sua própria impressão digital
O caso Banco Master mostra uma ironia da tecnologia.
A mesma ferramenta que teria permitido produzir milhares de documentos rapidamente também criou os rastros usados pelos investigadores para desmontar a estrutura.
A mala direta acelerou a fabricação das procurações.
Os programas em C# facilitaram a manipulação dos PDFs.
Os certificados digitais permitiram assinar grandes lotes de documentos.
Mas os metadados, registros e assinaturas acabaram ajudando a mostrar quando os arquivos realmente passaram a existir ou foram finalizados.
É a chamada “impressão digital” de um arquivo.
No papel, uma operação poderia parecer antiga.
No computador, o documento podia contar outra história.
E, no caso Master, foi justamente essa segunda história que passou a interessar à Polícia Federal.
Fonte: olhardigital.com.br















