Banqueiro consultou o ministro sobre deixar o País às vésperas da prisão e pediu que ele “bloqueasse a maldade” junto à PF e à PGR; gabinete do magistrado chama as reportagens de “ilação mentirosa”
Brasília – Conversas entre o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, indicam que o magistrado discutia com o banqueiro a deflagração da Operação Compliance Zero e a estratégia para frustrar a ordem de prisão preventiva da 10.ª Vara Federal do DF. Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro consultou Moraes sobre deixar o País para escapar da prisão. Dois dias depois, foi detido pela PF ao tentar embarcar para Malta e Dubai, onde buscava vender o Banco Master. Para os investigadores, o banqueiro pretendia fugir.
O compartilhamento de informações sigilosas começou em 4 de novembro de 2025 e se intensificou à medida que se aproximava a prisão. Segundo investigadores, o conteúdo da conversa permite inferir que o ministro repassava a Vorcaro detalhes sensíveis sobre o andamento inicial da operação, incluindo datas e horários de diligências planejadas pela PF. Os diálogos foram revelados pelo Estadão.
A cronologia da suposta blindagem
No dia 4 de novembro, Vorcaro indagou Moraes se “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?” e insistiu: “mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”. Investigadores e peritos ouvidos pelo Estadão avaliam que o ministro pode ter alertado o banqueiro sobre medidas cautelares que poderiam ser adotadas contra ele. Na sequência, Vorcaro afirmou que ficaria aguardando informações e pediu: “pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade”, acrescentando que “uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível”.
No dia 6 de novembro, o banqueiro disparou perguntas ao ministro, entre elas “conseguiu bloquear a maldade?” e “está seguro ou tem que entrar agora urgente?”. Vorcaro ainda detalhou que o criminalista Pierpaolo Cruz Bottini, seu advogado à época, “fez um pedido geral lá pra ver se vai pra essa vara”, e pediu a opinião do magistrado sobre a estratégia defensiva.
A véspera da prisão e a tentativa de fuga
Em 15 de novembro, mesma data em que indagou se deveria viajar ao exterior, Vorcaro recebeu uma mensagem de Moraes que o fez responder “que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”. Naquela altura, o banqueiro estava prestes a anunciar a venda do Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e por investidores dos Emirados Árabes Unidos, negócio anulado com sua prisão e a liquidação do banco pelo Banco Central no dia seguinte, 18 de novembro.
Na mesma mensagem, Vorcaro emendou três perguntas: se era “aquele mesmo juiz Ricardo?”, se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, estava sabendo e se “conseguimos fazer algo?”. No domingo, 16, perguntou se “existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.
O decreto de prisão preventiva foi assinado pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite às 15h29 de 17 de novembro, horas antes de o banqueiro ser flagrado pela PF. Na manhã do dia da prisão, Vorcaro relatou ao ministro que tentava antecipar investidores e que “a turma do BRB (banco estatal do Distrito Federal) me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso”.
Às 17h26, perguntou se tinha “alguma novidade”, com a mensagem “conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Outros diálogos mostram que o advogado Walfrido Warde fez contato telefônico diretamente com o juiz horas antes da prisão, com a frase “estamos infernizando o cara” dirigida ao cliente.
O padrão de comunicação e a negativa de Moraes
Os dois trocavam conteúdos em modo de visualização única, por meio de capturas de tela de textos redigidos no aplicativo de notas. Com esse procedimento, a extração permite acessar apenas as imagens enviadas por Vorcaro, sem recuperar eventuais respostas do ministro.
Em nota divulgada em 6 de março de 2026, Moraes negou ter recebido as mensagens, afirmando que uma “análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos” do ministro, e que os prints estariam vinculados a pastas de outras pessoas da lista de contatos do banqueiro.
O ministro classificou as reportagens como “ilação mentirosa”. A negativa, porém, não encerrou a controvérsia: o presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), afirmou que um dos números citados na quebra de sigilo do banqueiro pertence ao STF, embora ainda não seja possível confirmar quem o utilizava, e a comissão encaminhou ofício ao tribunal pedindo a identificação do usuário.
A pressão sobre a PF e o Ministério Público
O banqueiro pediu reiteradamente ao ministro que interviesse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para travar as investigações sobre negócios fraudulentos do Master. Ainda assim, a Operação Compliance Zero já teve dez fases deflagradas e voltou a prendê-lo em 4 de março de 2026, após ele ter sido solto em 29 de novembro de 2025.
A investigação foi alçada ao Supremo em dezembro de 2025, por determinação do ministro Dias Toffoli, após o surgimento de transações imobiliárias entre Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem foro privilegiado na Corte. Toffoli deixou a relatoria do caso após virem à tona detalhes sobre a Maridt S.A., empresa ligada à sua família que mantinha participação no resort Tayayá, cujas cotas haviam sido negociadas com fundos e pessoas ligadas ao entorno de Vorcaro.
O ministro André Mendonça assumiu a relatoria e, em 4 de março de 2026, determinou a prisão preventiva do banqueiro por “risco concreto de interferência nas investigações”, decisão referendada por unanimidade pela Segunda Turma do STF. Vorcaro já teve duas tentativas de delação premiada frustradas, rejeitadas pela PF e pela PGR, e busca uma terceira chance.
Situação inédita, abala imagem do Supremo Tribunal Federal
As mensagens sugerem que um ministro do STF teria repassado a um banqueiro sob investigação detalhes sobre diligências sigilosas da PF, o que, se confirmado, configuraria vazamento de informações de investigação em curso. A repercussão política foi imediata, com parlamentares de oposição voltando a defender a abertura de processo de impeachment contra Moraes, enquanto a CPMI do INSS passou a investigar a origem e o destino das mensagens. O caso também envolve registros de um contrato de R$ 131 milhões entre Viviane Moraes, esposa do ministro, e Vorcaro.
O desfecho permanece em aberto, com a Operação Compliance Zero em curso, a defesa de Vorcaro buscando nova delação e o STF e a CPMI do INSS disputando a narrativa sobre a autenticidade das mensagens que colocaram sob suspeita a conduta de um dos ministros mais influentes da Corte.














