☞ Investigação da Operação Sem Desconto apurou desvio bilionário e afetou 4,1 milhões de beneficiários entre 2019 e 2024
☞ Maior escândalo previdenciário da história impacta aprovação do governo Lula
Brasília – A Polícia Federal concluiu na terça-feira (14), a primeira etapa da Operação Sem Desconto e indiciou 48 saqueadores suspeitos de envolvimento no esquema de descontos que se transformou na maior roubalheira da história aos cofres do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), impactando aprovação do governo Lula.
Segundo a investigação, o grupo desviou aproximadamente R$ 708 milhões em uma operação que afetou milhões de brasileiros, a maioria aposentados e pensionistas, entre 2019 e 2024. Estimativas das autoridades calculam em ais R$ 6 bilhões o total roubado.
O relatório de 260 páginas, foi apresentado pela Polícia Federal ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal. Trata-se de um inquérito sigiloso que segue protocolos de confidencialidade típicos de investigações criminais em andamento.
O documento identifica, nesse primeiro momento, algumas peças centrais do esquema como: o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, o ex-procurador-geral da autarquia Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, o ex-diretor de benefícios André Fidelis e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Todos estão presos.
Nesta primeira etapa do relatório, que mira os “operadores” do esquema, não houve menções a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem a Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e suspeitos de ligações com o “Careca do INSS”.
Euclydes Petersen; deputado federal (PL-MG) licenciado está solto. Pettersen afirmou que não tem “qualquer participação nos fatos apurados na operação Sem Desconto” e que nunca indicou “ninguém para cargo no INSS”. Segundo o congressista, as conclusões do relatório “foram formadas sem contraditório e sem que ainda se tenha examinado uma única linha da defesa”.

Também consta do indiciamento Carlos Roberto Ferreira Lopes — o “Mão Preta do INSS”, nacional que se apresenta como indígena e atuou no golpe como presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), entidade central na operação que roubou aposentados e pensionistas. O “Mão Preta” está foragido, possivelmente escondido numa aldeia indígena na Bahia.
O esquema dos descontos associativos e desvios bilionários
A investigação revela um mecanismo sofisticado de fraude que operava através de descontos associativos não autorizados. Conforme apurado pela PF, o esquema funcionava da seguinte forma: entidades como a Conafer e outras associações de servidores solicitavam descontos nos contracheques de aposentados e pensionistas, alegadamente para fins de contribuição associativa. Esses descontos, porém, eram realizados sem consentimento explícito dos beneficiários ou com consentimento obtido de forma irregular.
O lobista “Careca do INSS” atuava como intermediário central, facilitando a autorização desses descontos junto ao instituto e recebendo percentuais dos valores desviados através de empresas de sua propriedade. Essas empresas eram contratadas formalmente pelas entidades beneficiadas, criando uma estrutura que simulava legitimidade operacional.
Dados da Controladoria-Geral da União indicam que entre 2019 e 2024, o volume total de descontos irregulares atingiu aproximadamente R$ 6,3 bilhões. Desse montante, a Conafer recebeu R$ 708,2 milhões do INSS, dos quais R$ 640 milhões foram desviados para empresas ligadas ao esquema, conforme perícia realizada pela PF.
Enriquecimento Ilícito e evidências da fraude
A investigação documentou enriquecimento significativo dos envolvidos. O patrimônio declarado de “Careca do INSS” saltou de R$ 159 mil em 2022 para R$ 9,5 milhões em 2024, um aumento de aproximadamente 5.800% em quatro anos. Seu filho, Romeu Carvalho Antunes, também apresentou crescimento patrimonial expressivo, passando de nenhuma declaração em 2022 para R$ 210,6 mil em 2024.
O relatório da PF descreve reuniões de madrugada entre os envolvidos, uso de codinomes baseados em nomes de heróis para se comunicarem, movimentação de dinheiro vivo e transações atípicas que caracterizam a sofisticação da operação criminosa. A Conafer, sozinha, registrou R$ 796,8 milhões em transações atípicas entre 2022 e 2025, segundo análise da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito(CPMI do INSS) instaurada no Congresso Nacional.
Impacto na aprovação do Governo
A descoberta e investigação das pilhagens no INSS ocorrem em contexto de pressão política significativa sobre o governo Lula. Pesquisa Quaest realizada em junho de 2025 apontou relação direta entre a divulgação das fraudes e aumento da desaprovação do governo, particularmente entre aposentados e pensionistas, segmento que representa parcela considerável do eleitorado brasileiro. A roubalheira deve ser explorada na campanha política pela oposição.
A maioria dos aposentados do INSS recebe um salário mínimo e meio ou menos, tornando os descontos indevidos particularmente impactantes no orçamento doméstico. Analistas políticos, como Ian Bremmer, diretor da Eurasia Group, destacaram que a reação do governo às fraudes teria peso nas eleições de 2026, sinalizando a importância política do tema.
O governo Lula respondeu à crise editando a Medida Provisória nº 1.306/2025 e abrindo crédito extraordinário de R$ 3,3 bilhões para devolução dos valores indevidamente descontados.
Até o momento, segundo informações do Partido dos Trabalhadores, o governo devolveu R$ 2,44 bilhões a aposentados e pensionistas. Autoridades da gestão petista enfatizam que, conforme a CGU e a PF, o esquema teve início em anos anteriores ao mandato de Lula (2023-2026), argumentando que apenas no governo atual houve ação investigativa e reparatória.
Responsabilidade institucional e questões em aberto
A presença de ex-presidentes e ex-procuradores-gerais do INSS entre os indiciados levanta questões sobre falhas institucionais e supervisão inadequada. A investigação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, que ouviu diversos envolvidos em 2025, revelou que o instituto minimizou denúncias e reclamações de aposentados sobre descontos indevidos, respondendo com mensagens evasivas que alegavam conformidade legal.
Ainda não está claro quando os desvios começaram de fato, embora a CGU tenha destacado o período entre 2019 e 2024. Essa indefinição temporal contribui para a disputa narrativa entre governo e oposição sobre responsabilidades administrativas.
A Operação Sem Desconto investiga também três outras entidades: Amar/Masterprev, Abapen e Unibap, sugerindo que o esquema de fraudes pode ser mais amplo do que revelado até o momento.
Impacto econômico e social
Segundo levantamento da Transparência Internacional Brasil, cerca de 4,1 milhões de brasileiros foram vítimas das fraudes cometidas no INSS. Para essa população, predominantemente idosa e com renda limitada, os descontos indevidos representaram redução significativa do poder de compra em momento de inflação elevada de alimentos, combustíveis e energia elétrica.
A fraude no INSS intersecta-se com preocupações mais amplas sobre custo de vida e renda disponível das famílias brasileiras. Enquanto aposentados enfrentavam descontos não autorizados, o país registrava pressões inflacionárias que afetavam especialmente itens essenciais, amplificando o impacto econômico negativo sobre esse segmento populacional.
Passos processuais
O indiciamento não implica condenação automática. O caso segue para análise do Ministério Público Federal, que decidirá sobre oferecimento de denúncia formal. O STF, sob relatoria do ministro Mendonça, já determinou a prisão preventiva de 16 pessoas investigadas na operação em dezembro de 2025, sinalizando gravidade que o tribunal atribui aos crimes apurados.
A conclusão da primeira etapa da Operação Sem Desconto avança na investigação de fraudes previdenciárias, mas deixa em aberto questões sobre a extensão total do esquema, responsabilidades administrativas anteriores e mecanismos que permitiram a operação de fraude em instituição federal por anos.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















