Em sessão dominada por acusações de propina no caso Banco Master, deputados protocolam pedido de impeachment inédito e cobram instalação imediata de CPMI por Davi Alcolumbre
Brasília – Ao longo da sessão de votação desta terça-feira (11) na Câmara dos Deputados, cuja pauta foi integralmente indicada pela bancada feminina, a escalada retórica na tribuna revelou os contornos do esquema de corrupção sistêmica apelidado pelo deputado Gustavo Gayer (PL-GO) de “Mastercracia” — definida por ele não como uma democracia, mas como “um regime de quem tem dinheiro para pagar mais”.
O ponto nevrálgico dos discursos foi a relação entre autoridades da República e Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master. O deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB) anunciou o protocolo de um pedido de impeachment contra Moraes, sublinhando a gravidade inédita da peça: “Este é diferente dos outros. Os outros eram por abuso de autoridade, por perseguição, por não cumprimento da lei; este é por corrupção“.
Segundo o parlamentar, o ministro teria recebido “3,5 milhões de reais por mês” do banqueiro, operacionalizados por meio do escritório de advocacia de sua esposa. O Deputado Reinhold Stephanes (PSD-PR) corroborou a acusação, afirmando que “os 129 milhões do contrato da esposa dele não eram para ela. Eram para ele fazer advocacia administrativa”, descrevendo a permanência de Moraes na Corte como moralmente insustentável.
Os relatos trazidos ao plenário incluíram episódios de ostentação financiados pelo banqueiro. Foi reiteradamente citada uma degustação de uísque Macallan em um clube privado em Londres, no valor de 3,2 milhões de reais, que teria contado com a presença de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e do Diretor-Geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
“Onde é que nós vamos parar? Paulo Gonet, o nosso Procurador-Geral da República, estava no bolso do Vorcaro aparentemente”, questionou um dos parlamentares na tribuna, ilustrando a suposta prevaricação e omissão da PGR diante do caso.
A pressão também recaiu fortemente sobre o Senado Federal. Parlamentares como Gilvan da Federal (PL-ES) cobraram uma atitude enérgica da Casa Revisora, exigindo não apenas a destituição, mas a prisão de Moraes, a quem classificou de “gangster” e “criminoso”.
Houve apelos diretos ao Presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para a instauração imediata de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o Banco Master, Toffoli e Moraes, sob pena de responsabilização por omissão.
No âmbito regional e econômico, o impacto do escândalo atinge diretamente o Governo do Distrito Federal. O deputado Alberto Fraga (PL-DF) foi contundente ao declarar que “a casa caiu” para o Governador Ibaneis Rocha (MDB).
As denúncias apontam que o Banco de Brasília (BRB) teria adquirido uma carteira de títulos do Banco Master por mais de 12 bilhões de reais, sob influência direta de Ibaneis, cujo escritório de advocacia teria recebido 38 milhões de reais de um fundo (Reag) umbilicalmente ligado à instituição financeira investigada.
O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) reforçou que Ibaneis está “envolvido até o pescoço”, lembrando que o esquema desvia recursos que poderiam construir creches e estruturas de saúde.
A base governista tentou rebater a narrativa. Parlamentares argumentaram que o escândalo financeiro tem raízes na gestão anterior, chamando o caso de “Bolso Master”, e apontaram a omissão do então Banco Central sob o comando de Roberto Campos Neto na fiscalização do crescimento exponencial da instituição durante o governo Jair Bolsonaro.
“Mastercracia” vira principal tema de debates no Congresso
A sessão da Câmara dos Deputados evidencia uma fratura institucional de proporções sísmicas no Estado brasileiro. As acusações documentadas nos anais da Casa transcendem a habitual polarização ideológica ao imputar crimes comuns — corrupção passiva, advocacia administrativa e prevaricação — à cúpula do Poder Judiciário e da Procuradoria-Geral da República.
A exigência de uma CPMI do Banco Master e a pressão sobre Davi Alcolumbre sinalizam que o Congresso Nacional se tornou o epicentro de uma retaliação política e jurídica sem precedentes.
As implicações imediatas deste cenário são a corrosão acelerada da legitimidade das decisões do STF — com parlamentares já demandando a anulação de sentenças proferidas por Moraes — e a potencial paralisia das pautas legislativas caso a crise escale para a abertura de inquéritos formais no Senado.
A credibilidade do sistema financeiro (através do Banco Central e BRB) e da Justiça encontra-se em xeque, com a população assistindo a um embate que ameaça desestabilizar as fundações das instituições democráticas do País.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















