Investigado por descontos indevidos que lesaram aposentados, Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer, foragido há nove meses, passará por audiência de custódia nesta quinta-feira (13)
Brasília – O presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), Carlos Roberto Ferreira Lopes — o “Mão Preta do INSS” —, se apresentou na noite de quarta-feira (12) à Superintendência da Polícia Federal em Brasília, encerrando nove meses de foragido e tornando-se o último alvo da Operação Sem Desconto a ser detido. A apresentação foi negociada ao longo do dia entre a defesa de Lopes e a corporação, que o recebeu acompanhado de seus advogados.
Ele já tinha a prisão preventiva decretada e era considerado foragido desde novembro de 2025, quando a nona fase da operação tentou cumprir o mandado de prisão expedido pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sem localizá-lo. A audiência de custódia estava prevista para esta quinta-feira (13), ainda sem horário definido.
O desfecho coloca um dos personagens centrais da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS diante da Justiça, no âmbito de uma apuração que investiga descontos indevidos bilionários em benefícios de aposentados e pensionistas. Segundo o relatório final encaminhado pela Polícia Federal ao STF sobre o núcleo da Conafer no esquema, o documento que embasou o indiciamento de 48 pessoas concluiu que as cobranças irregulares permitiram o desvio de mais de R$ 708 milhões de aposentados e pensionistas, embora os investigadores estimem que o esquema como um todo possa ter movimentado até R$ 6,3 bilhões.
O mecanismo da fraude
A apuração começou em 2023, dentro da Controladoria-Geral da União (CGU), inicialmente na esfera administrativa, a partir da suspeita de que entidades cadastravam aposentados e pensionistas sem autorização e, a partir disso, passavam a cobrar mensalidades diretamente dos benefícios pagos pelo INSS. Relatório da CGU que analisou 952 beneficiários com descontos vinculados a associações e sindicatos apontou que 71,1% deles não possuíam documentação hábil que autorizasse os débitos, o que evidencia a ausência de fiscalização eficaz apontada pelo órgão de controle.
A Operação Sem Desconto foi deflagrada em 23 de abril de 2025, em ação conjunta da Polícia Federal e da CGU, e ganhou novas fases ao longo do tempo. Em outubro de 2025, a corporação cumpriu 66 mandados em uma etapa que aprofundou as investigações sobre o esquema que desviou cerca de R$ 6 bilhões de aposentadorias e pensões, com foco em três empresas apontadas como estruturadoras do setor de lavagem de recursos. Já em maio de 2026, uma nova fase mirou três núcleos de operadores de descontos ilegais e a ocultação de bens, atingindo empresários e operadores financeiros no Distrito Federal e nos estados de São Paulo, Pernambuco e Paraíba.
A estrutura criminosa e os indiciados
De acordo com a Polícia Federal, os recursos desviados eram direcionados para empresas de fachada e utilizados para enriquecimento ilícito e pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos. A investigação aponta que várias estruturas, dentre elas, a liderada pelo presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, contavam com operadores financeiros, empresários, dirigentes da entidade e agentes públicos, sendo que parte dos recursos também era destinada ao pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos e políticos para assegurar o funcionamento do esquema.
No caso de Lopes, a PF defendeu o enquadramento pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa majorada e lavagem de dinheiro em caráter majorado e reiterado. Ao todo, 48 pessoas foram indiciadas no primeiro inquérito concluído da operação, entre elas o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, o ex-procurador-geral da autarquia Virgílio de Oliveira Filho, o ex-diretor de benefícios André Fidelis e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. O relatório final da investigação foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do STF, que também havia expedido a ordem de prisão contra Lopes.
A prisão anterior pela CPMI
Este não foi o primeiro confronto de Carlos Lopes com as investigações. No final de setembro de 2025, ele foi preso em flagrante pela CPMI do INSS por falso testemunho, após depor em uma sessão que durou cerca de nove horas. A comissão avaliou que ele mentiu durante o depoimento, e Lopes ficou custodiado em uma sala no Senado, sendo solto após pagar fiança.
Na ocasião, ele negou a fraude e afirmou que a entidade não era de fachada, embora a Conafer tenha registrado a maior alta no volume de descontos em benefícios previdenciários, segundo levantamentos da comissão.
A prisão de setembro foi a segunda realizada pela CPMI do INSS, que apura os descontos indevidos bilionários e tem atuado em paralelo à operação da Polícia Federal. O histórico de idas e vindas de Lopes, que chegou a ser detido pela comissão e depois se manteve foragido da Justiça por nove meses, reforça a complexidade de um caso que envolve a cúpula de um órgão público, entidades de representação e a suspeita de corrupção sistêmica na gestão de benefícios previdenciários.
Implicações
A rendição de Carlos Roberto Ferreira Lopes representa um avanço concreto na responsabilização dos envolvidos, ao colocar à disposição da Justiça aquele que a Polícia Federal aponta como um dos líderes da organização criminosa. Com a prisão do último foragido da Operação Sem Desconto, a investigação ganha condições de avançar na fase processual, com a audiência de custódia desta quinta-feira como primeiro passo e a possibilidade de novos desdobramentos a partir do depoimento do acusado.
O caso, contudo, transcende a figura individual de Lopes e expõe fragilidades estruturais na proteção dos benefícios previdenciários. A constatação de que mais de 70% dos descontos analisados pela CGU não tinham autorização válida, somada à suspeita de pagamento de vantagens a agentes públicos e políticos, levanta questões sobre a efetividade dos mecanismos de controle do INSS e sobre a responsabilidade daqueles que ocupavam cargos de direção no órgão.
A CPMI do INSS, já encerrada e sem Relatório Final aprovado por uma manobra do governo, e o desenrolar dos processos no STF, serão decisivos para dimensionar a extensão do prejuízo aos aposentados e pensionistas e para definir se o caso resultará em punições exemplares ou em mais um capítulo de impunidade na gestão da seguridade social brasileira, em dos casos mais deploráveis de corrupção da história do país.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















