No início de outubro, a morte do magnata indiano Ratan Tata aos 86 anos trouxe à tona uma herança inusitada, causando surpresa na comunidade empresarial e no público indiano. Ratan, conhecido por seu papel transformador no conglomerado Tata Group e por uma fortuna estimada em cerca de 300 milhoes de dolares (aproximadamente R$ 1.7 bilhão) surpreendeu ao deixar boa parte de seus bens para seu fiel cão Goa e para dois funcionários próximos, Konar Subbiah, seu mordomo e assistente, e Rajan Shaw, seu cozinheiro. Parte de sua fortuna pessoal também foi destinada a instituições de caridade.
Tata, que não deixou esposa ou herdeiros diretos, deserdou seus irmãos Jimmy Tata e suas meias-irmãs, dispensando-os de qualquer participação significativa em sua fortuna. “Este testamento não é uma declaração de riqueza, mas um gesto de gratidão pela alegria e cuidado que ele recebeu de seus animais de estimação e dos dois assessores mais próximos”, comentou um amigo ao jornal The Times.
A divisão de parte da herança, de aproximadamente R$ 670 milhões, estabelece que Goa, o cão de Tata, receba “cuidados ilimitados” pelo resto de sua vida. O testamento impõe a Subbiah e Shaw, que também estão incluídos na dinheirama, a responsabilidade de garantir o bem-estar do animal, seguindo instruções detalhadas do empresário. Desde a morte de Tata, surgiram boatos falsos sobre o falecimento do cão, prontamente desmentidos pela mídia local.
Quem foi Ratan Tata: do império ao legado
Nascido em 1937 em Mumbai, Tata era o herdeiro de um dos conglomerados mais antigos e prestigiosos da Índia, o Grupo Tata, fundado no século XIX. Originalmente, a fortuna da família teve raízes no comércio de ópio com a China e no setor têxtil. Ratan foi criado pela avó paterna após a separação de seus pais, uma experiência de infância que ele descreveu como feliz, apesar do desconforto social causado pelo divórcio — um evento incomum para a época. Educado entre o conforto de uma casa de estilo barroco e um ambiente de serviço com mais de 50 empregados, Tata viveu entre o luxo e o dever.
Após estudar e trabalhar como arquiteto nos Estados Unidos, Tata retornou à Índia a pedido de sua avó, para assumir o comando da empresa familiar. Em 1991, ele assumiu o controle do conglomerado Tata, justamente quando a Índia passava por uma série de reformas de livre mercado. Sob sua liderança, o Tata Group expandiu-se globalmente, adquirindo marcas de prestígio como a fabricante de chás Tetley e as marcas britânicas Jaguar e Land Rover.
Durante 21 anos como presidente do grupo, Tata transformou uma empresa tradicional em um império multinacional com atuação em setores que vão do aço à tecnologia. Os lucros da companhia multiplicaram-se por 50, com a maior parte das receitas advinda de operações internacionais. Além disso, Tata lançou o Tata Nano, o carro popular mais barato do mundo, visando tornar a mobilidade acessível para milhões de indianos.
O primeiro-ministro Narendra Modi classificou Tata como um “líder empresarial visionário e uma alma compassiva”, destacando sua capacidade de guiar o Tata Group com uma visão moderna e global sem perder de vista o impacto local. Durante seu mandato, o conglomerado tornou-se uma presença constante na vida dos indianos de classe média, que utilizavam produtos e serviços da marca em praticamente todas as esferas da vida cotidiana, desde o chá matinal até a conexão com a internet.
Mesmo sendo um dos homens mais poderosos da Índia, Tata era reservado em sua vida pessoal. Ele dedicava seu tempo livre a pilotar carros esportivos, aviões e barcos — paixões que mantinha discretamente. Na vida social, preferia a companhia de poucos, e seus animais de estimação tinham um lugar especial em sua rotina, chegando a ordenar que qualquer cão fosse autorizado a entrar em sua propriedade.
A decisão de deixar sua fortuna para o cão Goa e para os funcionários Subbiah e Shaw é mais do que um gesto excêntrico: é um símbolo de seu apreço pela lealdade e pelos vínculos de confiança estabelecidos ao longo da vida. Embora controverso, o testamento de Ratan Tata reflete não apenas sua gratidão pessoal, mas também uma visão de herança como uma continuidade de valores, respeito e dedicação mútua.
Do Ver-o-Fato, com informações de O Globo e portal IG.















