A situação política e jurídica envolvendo o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou novos contornos e elevou o grau de desgaste do governo federal, ampliando o potencial de impacto eleitoral sobre o Palácio do Planalto. Segundo reportagem publicada nesta segunda-feira (2) pelos jornalistas Aguirre Talento e Luiz Vassalo, do jornal O Estado de S. Paulo, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, admitiu a interlocutores que teve passagens aéreas e hospedagem em Portugal pagas pelo lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso sob suspeita de integrar um esquema bilionário de fraudes contra aposentados.
A revelação aprofunda a crise política em torno do filho do presidente e adiciona um novo foco de pressão sobre Luiz Inácio Lula da Silva, que, aos 80 anos, tenta viabilizar a reeleição para um quarto mandato presidencial.
De acordo com a apuração do Estadão, Lulinha afirmou a pessoas próximas que viajou com Antunes no fim de 2024 para visitar uma fábrica de cannabis medicinal em Portugal. O empresário sustenta que não firmou negócios nem recebeu pagamentos do lobista, mas reconhece que a viagem — realizada em primeira classe — e a estadia foram custeadas por Antunes.
Investigação da PF e suspeita de pagamentos
O vínculo entre os dois passou a ser investigado após um ex-funcionário do chamado “Careca do INSS” afirmar à Polícia Federal que ambos seriam sócios e que o lobista pagaria R$ 300 mil mensais ao filho do presidente.
As investigações identificaram ainda mensagens em que Antunes providenciaria transferências desse mesmo valor para o “filho do rapaz”, personagem não identificado nas conversas. A Polícia Federal abriu procedimento específico para apurar se a referência diz respeito a Lulinha.
Paralelamente, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS determinou a quebra do sigilo bancário do empresário, ampliando o cerco político e investigativo.
Antunes está preso sob acusação de pagar milhões de reais a ex-dirigentes do INSS para manter um esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários — valores que, segundo a polícia, teriam lesado aposentados em escala bilionária. Transferências financeiras a familiares de agentes públicos são tratadas pelos investigadores como possíveis indícios de propina.
Versão apresentada por Lulinha
Conforme relataram fontes próximas ao empresário ao Estadão, Lulinha afirma ter conhecido o lobista por intermédio da empresária Roberta Luchsinger, também investigada pela Polícia Federal por receber pagamentos de Antunes.
Segundo essa versão, o convite para a viagem surgiu da proposta de conhecer uma operação de cannabis medicinal em Aveiro, cidade portuguesa conhecida como a “Veneza de Portugal”. Antunes pretendia adquirir uma fábrica no local e teria convidado o filho do presidente para avaliar o empreendimento.
Lulinha sustenta que: não tinha conhecimento das investigações envolvendo o lobista; não se tornou sócio do negócio; não recebeu valores do investigado; e pretende demonstrar isso por meio de seus extratos bancários, que registrariam apenas dividendos de empresas próprias.
Documentos apreendidos pela Polícia Federal indicam que Antunes chegou a avançar nas negociações em Portugal, assinando contrato para compra de um galpão por 2,7 milhões de euros e pagando entrada de 100 mil euros. O nome de Lulinha não aparece nos papéis.
Encontros, lobby e ambiente político
A reportagem relata ainda que encontros entre Lulinha, Antunes e Roberta Luchsinger ocorreram na residência da empresária no Lago Sul, em Brasília, onde discutiam temas ligados à regulamentação da cannabis medicinal e questões regulatórias envolvendo a Anvisa.
Roberta atua com serviços de “advocacy” — atividade de lobby institucional junto a ministérios e agências reguladoras — enquanto Antunes buscava viabilizar negócios ligados à empresa World Cannabis, sediada em Brasília. Registros indicam que ambos estiveram no Ministério da Saúde apresentando interesses empresariais.
Impacto político crescente
Embora o filho do presidente negue qualquer envolvimento com o esquema investigado, a sucessão de revelações amplia o desgaste político do governo. A admissão de que um lobista hoje preso financiou viagem internacional do herdeiro presidencial cria um flanco sensível em meio a investigações sobre fraudes que atingiram diretamente aposentados — um dos grupos eleitorais mais relevantes do país.
No ambiente político, aliados já reconhecem reservadamente que o caso deixa a situação de Lulinha cada vez mais delicada e potencialmente explosiva para o projeto eleitoral do presidente. A oposição tende a explorar o episódio como símbolo de proximidade entre interesses privados investigados e o círculo familiar do chefe do Executivo.
Assim, enquanto a Polícia Federal aprofunda apurações e a CPMI amplia o escrutínio financeiro, o episódio deixa de ser apenas um problema jurídico individual e passa a representar um risco político direto para Lula, que tenta construir condições para disputar — e vencer — a reeleição em um cenário já marcado por forte polarização nacional.















