Só Caiado, Renan Santos e Cury foram ao confronto da Band, que teve três púlpitos vazios e virou alvo de críticas dos presentes às ausências
Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu mão de participar do primeiro debate presidencial de 2026 e, no mesmo horário do confronto promovido pela Band na noite de domingo (23), foi ao ar em entrevista exclusiva à TV Record, gravada na véspera no Palácio da Alvorada com a jornalista Mariana Godoy. Enquanto apenas três candidatos ocupavam o palco em São Paulo, no menor quórum do gênero desde 1989.
Num ambiente controlado, na Biblioteca do Palácio da Alvorada, o petista falou sem adversários e respondeu, pela primeira vez de forma ampla, às investigações que miram seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, além de comentar a relação com o presidente americano, Donald Trump.
Os quartéis-generais das campanhas presidenciais aguardam com expectativa os números das pesquisas de opinião pública que captaram, na semana passada, a saraivada de notícias negativas envolvendo Lulinha, Marcola e Roberta Luchsinger, uma lobista a serviço de vários interesses, especialmente de Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”.

Um contraponto no horário nobre
A entrevista foi gravada no sábado (22) no Palácio da Alvorada e exibida às 20h30 de domingo, meia hora depois do início do confronto inaugural da Band, que começou às 20h. A coincidência transformou a conversa com Mariana Godoy, âncora do Jornal da Record, em contraponto direto ao debate televisivo, num movimento que a própria emissora publicizou ao antecipar trechos da sabatina antes da exibição integral.
Lula decidiu não comparecer à Band, mas garantiu presença no ar no mesmo horário, sem exposição ao embate direto com os concorrentes Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Flávio Bolsonaro (PL) também faltou ao encontro, enquanto Romeu Zema (Novo) desistiu horas antes, ampliando o esvaziamento do palco, que ficou com três púlpitos vazios.
O caso que cerca a campanha
O ponto central da entrevista, no entanto, foi a defesa que Lula fez das investigações envolvendo seu círculo mais próximo. Segundo o presidente, disse tratar as suspeitas com “muita seriedade” e afirmou que não atuará como juiz, procurador ou delegado, defendendo a autonomia da Polícia Federal. Sobre o filho, Lula declarou que Lulinha terá de se defender como qualquer cidadão e que, caso tenha cometido alguma irregularidade ou provocado prejuízos aos cofres públicos, deverá responder por isso. Na mesma linha, o presidente afirmou que “ninguém está impune se cometeu um erro”.
O tema não é trivial para a campanha. Fábio Luís Lula da Silva é alvo de três inquéritos da Polícia Federal autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de tráfico de influência e corrupção em favor de empresas junto ao governo federal. As apurações alcançam o Ministério da Saúde, a Dataprev e a empresa de tecnologia 3Structure IT, e envolvem a empresária Roberta Luchsinger, apontada como lobista e amiga do primogênito, além de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, personagem central de um esquema de fraudes em descontos previdenciários.
Foi o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, quem autorizou as duas primeiras frentes de investigação em 30 de julho, e o ministro Flávio Dino acolheu o pedido que abriu o terceiro inquérito, em menos de uma semana. Em dezembro de 2025, Roberta Luchsinger já havia sido alvo da Operação Sem Desconto, deflagrada para apurar supostas fraudes no INSS.
A engrenagem sob suspeita ganhou contornos mais amplos em agosto. Mensagens reveladas pela revista VEJA e também publicadas no Ver-o-Fato indicam que Lulinha e Roberta Luchsinger mantinham um “núcleo de atuação permanente” para tentar fechar negócios com o poder público, com projeção de ganhos milionários.
Mensagens interceptadas pelos investigadores indicam que o filho do presidente é citado como destinatário de pagamentos e mediador de reunião no Planalto, na apuração que liga o empresário ao Careca do INSS. Já o ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, recém-dispensado do posto, aparece nas investigações por transferências recebidas da lobista, que ele justificou como empréstimos pessoais já quitados.
O empresário Lulinha, que está em Madri (Espanha), nega qualquer irregularidade, e sua defesa classifica as diligências como “pesca probatória”, enquanto o próprio presidente não pediu o retorno do filho ao Brasil, conforme noticiou a imprensa. Na semana passada, Mendonça determinou ainda que a Polícia Federal investigasse novamente o vazamento de dados do inquérito.
Autonomia da PF como trunfo eleitoral
Lula aproveitou o tema para demarcar diferença em relação ao governo de Jair Bolsonaro (PL), ao afirmar que não ameaça ministros ou delegados para barrar investigações. A fala sugere uma aposta da campanha em transformar a defesa da autonomia da Polícia Federal em trunfo eleitoral, justamente num momento em que o próprio entorno do presidente é alvo de apurações.
A estratégia, porém, expõe o petista a um duplo teste, pois ele precisará conciliar o discurso de imparcialidade com a pressão natural de um pai cujo filho está sob investigação, num dos temas mais sensíveis da eleição e as pesquisas que sairão nessa semana confirmarão, ou não, se haverá estrago na corrida à reeleição de Lula faltando 41 dias para o primeiro turno.
Trump, segurança e educação
A entrevista também rendeu declarações sobre política externa. Lula classificou como “muito civilizado” o diálogo com Donald Trump e afirmou considerá-lo melhor interlocutor do que integrantes de sua própria equipe, embora tenha feito ressalvas e críticas a ações do governo americano. Segurança pública, educação, economia e o combate ao feminicídio completaram a pauta da sabatina, que ofereceu ao presidente exposição nacional sem os riscos do confronto direto e ainda disputou audiência com a Band.
O debate que ficou sem os líderes
Do outro lado da disputa de audiência, o debate da Band reuniu apenas Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante), num encontro que se tornou num autêntico “fiasco do primeiro debate presidencial de 2026”, segundo vários analistas.
Caiado e Cury tinham participação garantida por atenderem aos critérios da legislação eleitoral, que exige ao menos cinco representantes no Congresso, enquanto a Band estendeu convites a Zema e a Renan Santos, que não se enquadravam nesses requisitos. Mesmo ausentes, Lula e Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas, viraram os principais alvos dos três candidatos presentes, que criticaram as faltas e divergiram sobre segurança, trabalho, economia e política externa.
As implicações da ausência calculada
A decisão de Lula de trocar o palco pelo estúdio tem leitura dupla. De um lado, preserva o favorito de um embate com adversários de centro-direita e garante tempo de televisão sem mediação, num formato controlado. De outro, alimenta a narrativa de fuga ao confronto e transfere para os presentes o protagonismo da crítica, como ficou evidente nas declarações dos três candidatos.
O esvaziamento recorde, o menor desde 1989, também reabre o debate sobre a utilidade dos debates televisivos numa campanha em que os líderes preferem controlar o próprio horário nobre, movimento que a Band, emissora que tradicionalmente abre a temporada eleitoral na TV, assiste com o palco parcialmente vazio.
Ao trocar o palco do confronto pela entrevista na Record, Lula manteve-se no ar sem enfrentar adversários e transformou o caso Lulinha num teste público da relação entre sua campanha, a Justiça e a Polícia Federal, num desfecho que promete redefinir o tom da disputa eleitoral de 2026.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















