De Transportes à Fazenda, ministros se desincompatibilizam ou avaliam candidaturas estaduais e federais, moldando quem vai à disputa com aval do PT às eleições gerais deste ano
Brasília – A Esplanada dos Ministérios se prepara para uma ampla reformulação, com a expectativa de que mais de 20 ministros do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixem seus cargos nos próximos meses. A movimentação visa à disputa por vagas nas eleições de 2026, com o prazo final para desincompatibilização de agentes públicos estabelecido em 4 de abril. O objetivo principal do Palácio do Planalto é a reeleição de Lula, aliada à estratégia de ampliar a base eleitoral, notadamente no Congresso Nacional, buscando fortalecer a governabilidade e o apoio nas casas legislativas.
A iminente reforma ministerial é ditada pela legislação eleitoral, que exige que agentes públicos que almejam disputar cargos distintos dos que ocupam atualmente se desincompatibilizem até seis meses antes do pleito.
Para as eleições de 2026, essa data limite é 4 de abril. As mudanças na composição do primeiro escalão devem se consolidar em até três meses. Durante a última reunião ministerial do ano, em dezembro, o presidente Lula direcionou um pedido enfático aos seus auxiliares que pretendem entrar na disputa eleitoral: “ganhem o cargo que vão disputar”.
Na maioria dos casos, as pastas que tiverem seus titulares afastados deverão ser comandadas interinamente pelos respectivos secretários-executivos. A preocupação central do governo, além da reeleição do presidente, reside na necessidade de fortalecer sua base no Congresso, em um cenário hoje desfavorável para a esquerda.
Diversos ministros já sinalizam ou avaliam suas candidaturas para diferentes esferas. No âmbito dos governos estaduais, destaca-se o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB-AL), que já decidiu concorrer à reeleição para o governo de Alagoas, cargo que ocupou por dois mandatos entre 2015 e 2022.
Senado
A corrida por vagas no Senado é vista como crucial para o Planalto, dado que 54 das 81 cadeiras estarão em disputa, representando uma renovação expressiva. A candidatura de ministros para o Senado é considerada uma estratégia para solidificar o apoio ao presidente em um eventual quarto mandato.
O ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT-BA), é cotado para disputar uma vaga no Senado pela Bahia. Avaliam também deixar o governo para concorrer à “Casa Alta” o titular de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), e Waldez Goés (PDT-AP), da Integração e do Desenvolvimento Regional.
A ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB-MS), é sondada para o Senado por São Paulo, embora precise transferir seu domicílio eleitoral e também seja cogitada para o governo paulista.
Outro nome ventilado para o Senado por São Paulo é o da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, que ainda tem indefinição sobre sua legenda, com possibilidades de saída da Rede e sondagens de PT, Psol e PSB.
No grupo dos que buscarão a reeleição para o Senado por seus respectivos estados, estão Carlos Fávaro (PSD-MT), da Agricultura e Pecuária, e Alexandre Silveira (PSD-MG), de Minas e Energia.
Câmara dos Deputados
Para a Câmara dos Deputados, a lista de ministros que devem buscar um novo mandato também é extensa. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), já definiu que disputará a reeleição, tendo sido a segunda parlamentar mais votada no Paraná em 2022.
Também devem buscar a reeleição na Câmara o ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula (PSD-PE), e o titular do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira (PT-SP).
Wolney Queiroz (PDT-PE), da Previdência Social, tenta retornar à Câmara após seis mandatos consecutivos. Outros ministros que são esperados na disputa por vagas na Câmara incluem Jader Filho (MDB-PA), das Cidades; Anielle Franco (PT-RJ), da Igualdade Racial; Macaé Evaristo (PT-MG), dos Direitos Humanos e da Cidadania; e Sônia Guajajara (PSol-SP), dos Povos Indígenas.
Há ainda a expectativa de que a ministra da Cultura, Margareth Menezes, se filie ao PT para disputar uma vaga pela Bahia, com apoio direto do presidente Lula, embora a decisão ainda não tenha sido tomada.
Além das saídas motivadas por candidaturas, o governo também registrará baixas por outros motivos, como é o caso do ator ex-ministro do Turismo Célio Sabino (sem partido), que busca novo partido para concorrer ao Senado, após ser expulso do União Brasil, num dos episódios mais estranhos da política recente, e cujos segredos os interlocutores se recusam a revelarem os detalhes.
Sidônio Palmeira, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, deve deixar o cargo para coordenar o marketing da campanha de reeleição de Lula, repetindo o papel que desempenhou em 2022.
A primeira baixa confirmada para 2026 foi a do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, que entregou sua carta de demissão em 8 de janeiro, citando motivos pessoais e familiares.
A pasta está sob comando interino do secretário-executivo Manoel Carlos de Almeida Neto, enquanto Lula define o sucessor.
Quem também já saiu a pedido foi a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco (confira aqui).
Cenário de incertezas e pressões
O cenário político é marcado por incertezas e pressões sobre figuras-chave. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é apontado como a principal aposta do PT para disputar o governo de São Paulo ou uma vaga no Senado pelo estado. Contudo, Haddad tem manifestado resistência a concorrer a cargos eletivos, afirmando que pretende afastar-se da vida pública para atuar na coordenação da campanha de Lula.
Apesar de suas declarações, ele segue sob pressão do PT e do próprio presidente para se candidatar em 2026, sendo visto como um dos quadros mais leais. Haddad já sinalizou o desejo de deixar o cargo antes do fim do mandato, mas sem data definida.
Situação similar envolve o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), que ainda não definiu se entrará na disputa eleitoral, mas também é cotado para concorrer ao governo paulista ou ao Senado.
Alckmin e Haddad disputam espaço com o ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, Márcio França (PSB), que busca viabilizar sua candidatura ao governo de São Paulo, com ou sem o apoio de Lula.
No Ceará, o ministro da Educação, Camilo Santana (PT), avalia se retomará seu mandato no Senado, para o qual foi eleito em 2022, ou se disputará novamente o governo estadual, cargo que já ocupou.
Por fim, o ministro do Esporte, André Fufuca (PP-MA), ainda não definiu seu futuro político, estudando candidaturas ao governo do Maranhão ou ao Senado.
Protagonismo no Congresso definirá a política pelos próximos quatro anos
A aproximação das eleições de 2026 impulsiona uma profunda reconfiguração no governo federal. A saída estratégica de mais de duas dezenas de ministros, seja para concorrer a cargos legislativos ou executivos, seja para atuar diretamente na campanha de reeleição de Lula, reflete uma complexa manobra política visando à perpetuação no poder e ao fortalecimento da base de apoio no Congresso.
O prazo final de abril estabelece um calendário apertado para as definições, enquanto figuras como Haddad e Alckmin navegam entre a pressão partidária e seus próprios anseios, moldando um tabuleiro eleitoral que promete ser intensamente disputado.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















